sexta-feira, abril 11, 2003

Hoje, 11 de Abril, às 18.30, decorre na FNAC do Chiado uma apresentação / conversa / projecção a propósito de Oscar Wilde. Serão dados a conhecer ao público os poemas em prosa de Wilde, traduzidos por Possidónio Cachapa para a nova editora Cavalo de Ferro. O debate será entre o Possidónio e moi-même, e laracharemos sobre o tio Oscar, a arte pela arte, o decadentismo e a posteridade dos homens feios. Finalmente, será projectado filme Wilde, com o impagável Stephen Fry. Apareçam.

Salto sobre os altos abismos da poesia

Fernando Guerreiro, «Caminhos de Guia», Black Son, 88 págs.


Fernando Guerreiro (n. 1950) foi acumulando, desde final dos anos 70, uma volumosa obra poética marginal, para além de ensaios sobre arte e literatura. Recentemente descoberto pela crítica, recusou o prémio de poesia do PEN. Publicou quase sempre na Black Son, que dirige, em edições muito toscas, de 350 exemplares, e sem nome do autor. Nos seus textos, tanto cita o universo de Andy Warhol, como os românticos franceses e alemães, centra-se obsessivamente na pintura oitocentista e novecentista, mas também cultiva referências pop e cinéfilas. Uma espécie de Frank O'Hara português. Caminhos de Guia (2002) encerra um ciclo formado por Teoria da Literatura (1997, o melhor livro de F. G.), Outono (1998), Gótico (1999) e Grotesco (2000). De certo modo, trata-se de uma só obra em vários volumes, de tal modo os poemas podiam transitar de um para o outro. O ciclo estava claramente esgotado, a ficar cansativo, sendo este último conjunto, aliás, o menos interessante.

A poesia de Fernando Guerreiro tem-se constituído como uma metapoética: interrogar a poesia a partir da própria poesia. As imagens a que o poeta recorre são tributárias do romantismo alemão, nomeadamente da pintura de Caspar David Friederich: abismos, rochedos, precipícios, crateras, urze, crepúsculos, uma paisagem terrível e sublime que é aqui menos descritiva que intelectualizada.

Mas há sobretudo nestes poemas ecos do romantismo filosófico alemão _ o idealismo _ aliás, o romantismo no qual mais se fazia notar a influência de uma teoria da literatura: conceitos como o «real» ou o «absoluto» (e mesmo o «real absoluto» de Novalis) são aqui retomados frequentemente, numa espécie de pós-modernismo «retro».

Em vários poemas se faz eco de uma desconfiança (é o menos que se pode dizer) face à metáfora, e um verso refere mesmo o «pesadelo de metáforas em que se convertera a literatura». Não é caso único entre nós: João Miguel Fernandes Jorge, por exemplo, recusa por vezes a metáfora em favor da metonímia, e é curioso como também é um autor com preocupações filosóficas, como se as metáforas fossem uma excrescência do pensamento.

O essencial em Caminhos de Guia não é a filosofia mas aquilo que na «teoria da literatura» é da ordem do filosófico. Aqui não se problematiza o «poema» (Mallarmé), como por exemplo em Nuno Júdice, mas «a poesia» (o termo mais recorrente). O que está permanentemente em causa é não tanto a utilidade da poesia, mas sobretudo o seu sentido, e a questão do sentido em todas as vertentes, bem como o peso das palavras, o fantasma da linguagem e, em geral, a reflexão sobre «a literatura» (constantemente usada como equivalente a «poesia», como no romantismo). Os poemas procedem por associação de ideias, entre abismos, cumes e clareiras, e muitas vezes assumem forma interrogativa, porque há sempre interrogações numa poesia que se assume como de certezas.

Fernando Guerreiro, dir-se-ia, é um poeta de ideias, não de sentimentos, um poeta na linha heideggeriana que dominou a poesia portuguesa dos anos 50, embora não em chave de transparência, mas pelo contrário de elaboração teórica densa. Mas não é por acaso que Guerreiro cita Rilke, poeta onde essa dimensão convivia com uma faceta quase sussurrada, que salta sobre a biografia para se dirigir directamente ao cerne da nossa existência.

A poesia, diz-nos Fernando Guerreiro, é como um jogo que se dá por perdido antes sequer de começar a partida, mas essa atitude céptica e derrotada nunca impede o autor de escrever, porque escrever é aqui respirar o ar puro e raro de uma poesia entendida de uma forma imensamente exigente. É verdade que os poemas são, como de costume, formalmente desleixados, todos de uma só estrofe, e cansativos. Mas pouco importa, porque não é nisso que aposta esta poesia, que, para ir buscar uma imagem cara ao poeta, empreende uma escalada, como se fosse uma montanha. E assim se vai saltando, mortalmente, sobre os altos abismos da poesia.

Uma nota final: das coisas mais curiosas deste livro é que o exemplar que li está emendado à mão, a lápis, e as emendas são erratas irónicas (propositadas?), visto que onde está «descida» se riscou e se escreveu «certeza» e onde se escreveu «subida» se rasurou e acrescentou «descida». Teoria, ironia e artesanato num só expediente.

domingo, abril 06, 2003

LIVROS, POLÉMICA, HUMOR: No próximo dia 9 de Abril, quarta-feira, pelas 18.30, tem lugar no Jardim de Inverno do Teatro S. Luiz, a primeira sessão dos encontros É a Cultura, Estúpido. Organizados pelas Produções Fictícias, os encontros serão realizados mensalmente, e têm uma entrevista, críticas sobre livros, polémica política e humor, em rubricas como Leitura Obrigatória e O Que Não Ando a Ler. As sessões serão apresentadas por Anabela Mota Ribeiro, e terão como participantes os críticos literários José Mário Silva e Pedro Mexia, os jornalistas João Miguel Tavares e Nuno Costa Santos e os colunistas Daniel Oliveira e João Pereira Coutinho (este últimos realizarão um debate que, nesta primeira edição, será sobre Chomsky e a guerra no Iraque), além de um artista convidado para falar (finalmente) a sério num sketch final. O autor do mês será Pedro Rosa Mendes, que estará presente com o fotografo João Francisco Vilhena, a propósito de "Atlântico", obra da autoria de ambos, a ser lançada no dia 10 de Abril. Há livro de reclamações.
AFA

segunda-feira, março 31, 2003

Hoje, às 18.30, na FNAC / Colombo, será lançado o meu livro de poemas «Eliot e Outras Observações», editado pela Gótica e apresentado pelo Prof. Fernando Martinho, da FLUL. Os leitores do blog estão naturalmente convidados. Obrigado.
Uma menina do tempo da outra senhora
Luís de Sttau Monteiro, Redacções da Guidinha, Areal Editores, 112 págs.


Luís de Sttau Monteiro nasceu em Lisboa no ano de 1926 e faleceu em 1993. Na adolescência viveu em Londres, licenciando-se depois em Direito na Universidade de Lisboa. Exerceu a advocacia e o jornalismo. As suas obras mais célebres são Angústia para o Jantar (um romance social bastante básico), agora reeditado, e a peça Felizmente Há Luar!, ambos de 1961. Escreveu no suplemento do Diário de Lisboa «A Mosca», onde publicou em 1969 e 1970 as populares Redacções da Guidinha, algumas das quais recolhidas em livro, do qual se faz nova edição. A «irreverência» de Sttau Monteiro, como a «virulência» de outros escritores da sua geração, é uma espécie de negativo dos valores do regime sob o qual escreveram: tristeza contentinha, pensamento a preto e branco, puritanismo disfarçado, obsessão pela mensagem e a edificação, fragilidade do literário. Torga, por exemplo, era como que o negativo de Salazar. E as Redacções da Guidinha são as Lições do Tonecas do antifascismo.

*

Estas Redacções da Guidinha são de um infantilismo impressionante. Por infantilismo não entendo a assunção de um discurso infantil, que é a opção explícita desta obra, mas sim uma visão do mundo que pretendendo ser crítica é de um simplismo verdadeiramente confrangedor. A ideia é esta: pôr uma miúda lisboeta de classe média-baixa a escrever redacções sobre a sua vida quotidiana mas, na verdade, sobre o estado da nação, numa linguagem deliberadamente infantil e sem pontuação. Conhecemos exemplos notáveis de processos semelhantes, desde Zazie dans Le Métro, de Queneau, até ao recente Paddy Clarke Ha Ha Ha, de Roddy Doyle, que usam ambos uma personagem ou um narrador infantil como forma de desmontar e criticar a realidade adulta.

As Redacções da Guidinha são apenas redacções, no sentido mais basicamente escolar do termo: parecem cronicazinhas humorísticas de um jornal de província. Graça? Nenhuma: o humor destas redacções parece residir essencialmente em gente que espeta garfos no rabo, trincadelas no rabo e outras piadas com rabos.

O mundo que a Guidinha retrata é conhecido da literatura portuguesa, e mesmo de alguma da melhor literatura portuguesa: a má-língua de bairro, o tacho de arroz embrulhado na Bola, a noiva grávida, o adultério de olho, o casamento numa pastelaria, férias na Costa da Caparica, Fátima, a repartição, os patos bravos, o besugo, a D. Alzira, a Rainha Santa, os viscondes, as meias-solas, as vizinhas. Lobo Antunes _ sobretudo nas magníficas crónicas _ é o retratista exemplar deste mundo, e antes dele tivemos os poemas de O'Neill (um verso de O'Neill tem mais graça que a obra completa de Sttau Monteiro).

As piscadelas de olho políticas não primam pela subtileza: o Pai que dá tareias (referidas repetidamente como «bumba no toutiço») a casa dos pais como uma «cadeia», os santos nomes de Buíça e Afonso Costa relembrados pela Avó caquética, Ary dos Santos e a Desfolhada, frases como «anda toda a gente com medo», e até uma Carta Aberta ao Presidente da América (trinta anos antes de Mia Couto, e com o mesmo talento). A única graça interessante é a referência às «eleições», quando se pergunta o que ganhará quem ganha eleições. É pouco para estes textos que marcaram uma época.

A Guidinha escreve sobre o Pai Natal, o sótão, as misses, a escola, os brinquedos, ou seja, as instituições que formam, deformam e distraem o povo. A Guidinha preocupa-se com o que os adultos dizem e fazem às crianças, com a doutrinação, a punição e a evasão. Os Pequenos representam, evidentemente , o Povo, enquanto os Grandes são ao mesmo tempo os Governantes e sobretudo a rede de frustrados intermédios que se vingam da sua vida remediada. Os Grandes exigem «respeito» e «obediência» aos Pequenos e pregam-lhes «lamparinas», quando eles são «subversivos».

A moralidade deste livro é transparente, e isso é mau para um livro de crítica social, porque a crítica também se deve criticar a si mesma. E a linguagem supostamente «castiça», sempre «à brocha» com a falta de «pilim», é um pavor de banalidade.

Isto, meus amigos, não é literatura. Sob a capa da invenção formal, estas redacções escondem uma linearidade didáctica. A certa altura, escreve a Guidinha: «(...) quem entende os grandes que os entenda eu não entendo». Quem goste deste livro que goste eu não gosto.

sexta-feira, março 21, 2003


Memória lírica da caça e da escrita

Francisco Duarte Mangas, Os Passos por dentro da Casa, Edições Asa, 64 págs.


A colecção Pequeno Formato, das edições Asa, uma das melhores do nosso panorama, tem publicado sobretudo poesia. O catálogo é irregular, talvez demasiado portuense, mas quem tem Manuel António Pina, António Ramos Rosa, João Miguel Fernandes Jorge, Vasco Graça Moura, e Eugénio de Andrade (imenso Eugénio) pode dar-se ao luxo de apostas mais arriscadas e eventualmente menos conseguidas. Até porque a excelência gráfica da Pequeno Formato, da responsabilidade de Armando Alves, torna os livrinhos objectos apetecíveis.

A colecção tem também publicado algumas obras de prosa, no domínio do conto ou do texto mais aproximadamente poético: Fernão Lopes, Luísa Dacosta ou Maria Velho da Costa. Agora deu à estampa um livrinho de Francisco Duarte Mangas, Os Passos por dentro da Casa. Francisco Mangas tem editado sobretudo romance (desigual) e poesia (minimal, quase invisível). Um dos seus livros é essencial: O Diário de Link (1993) que, infelizmente, foi seguido por obras menores; o recente O Coração Transido dos Mouros tem uma ideia _ ligar Lenine e a Reconquista Cristã (!) _ mas não tem mais nada. A importância de Mangas entre os ficcionistas da sua geração tem a ver essencialmente com uma recuperação do imaginário rural, em chave neo-neo-realista mas também lírica, e por vezes etnográfica (como em Link). Nisso, está quase sozinho entre os mais novos, com Abel Neves, José Riço Direitinho e algum José Luís Peixoto, dos quais o crítico e ensaísta Miguel Real disse que reescrevem antigas representações culturais portuguesas. Um país rural, religioso, telúrico, revisitado nos seus mitos e na sua memória, não sem alguma nostalgia. Mangas, é certo, tem alguns defeitos recorrentes, mas cultiva uma linguagem cuidada e um sentido poético impressivo, interessante sempre que evita uma certa tentação para a «mensagem».

As sete brevíssimas ficções deste livro têm como tema não tanto a ruralidade mas um certo entendimento quase rústico (é um elogio) da literatura. Menos enredado do que é costume em elucubrações ideológicas, Francisco Mangas torna aqui a literatura _ em cenário campestre, é certo _ uma espécie de utopia ao alcance de todos, ou mesmo, como no primeiro conto, uma aparição, aliás dentro de um tom desmistificador da religião que lhe é costumeiro. As outras histórias imaginam situações ou personagens literárias, do velho arquivista sem préstimo ao diálogo entre autor e personagem em volta de uma casa, passando pelo «Homem Que Detestava Palavras Grandes», e que morre por excesso destas. O conto em que o jornalista entra dentro de uma foto para entrevistar Lorca (quem havia de ser?) é de um lirismo didáctico e demagógico; mas o quarto e o sétimo textos são bastante bons: o último sobre uma criança e as suas aventuras com o vocabulário e o outro sobre a caça (um momento alto do livro). Francisco Mangas conhece o que descreve, sendo por isso de um realismo verosímil sem abusar de regionalismos linguísticos e temáticos. É bom não se imitar Aquilino quando não se é Aquilino. Mas além disso, este texto estabelece um paralelo excelente entre a caça e a escrita, não apenas do lado de quem caça (bichos ou palavras), mas também de quem é caçado, como se também as palavras vivessem o pavor dos bichos perseguidos e abatidos. «Regresso a casa, volto ao local onde sempre estive: sete ou oito palavras de papo rubro atadas à cartucheira como manda a lei.»