Antes do gesto
José Ricardo Nunes, «Novas Razões», Gótica, 76 págs.
Sobre José Ricardo Nunes já tivemos oportunidade de escrever nestas páginas que é um crítico confirmado e um poeta em afirmação. Como crítico, hábil no «close reading» sem ser enfadonho, remetemos para textos publicados na «Colóquio / Letras», no «Ciberkiosk», na LER e na «Relâmpago», bem como para a sua tese de mestrado «Um Corpo Escrevente. A Poesia de Luiza Neto Jorge» (2000) e o recentíssimo «9 Poetas para o Século XXI» (2002). Quanto à poesia, depois do minimal «Rua 31 de Janeiro» (1998) e de «Na Linha Divisória» (2000, Prémio Eugénio de Andrade), JRN edita agora «Novas Razões», que colige poemas escritos entre 1997 e 2001. A poesia de José Ricardo Nunes, até pela sua componente académica e crítica, parece naturalmente inclinada para a arte poética, como se não existisse texto antes de enunciados os seus modos, estratégias e possibilidades. Por isso, a primeira parte de «Novas Razões» é exclusivamente dedicada a essa pesquisa. A primeira certeza, e uma asserção de base, é a descrença na inspiração, temática aliás comum nos jovens autores: «Nunca oiço aquela voz / que vem das pedras ou do mar , / dos rostos ou do vento que reparte a luz. Não a oiço, / sequer em plena solidão (...) Não a oiço, é a minha voz / que dita os versos (pág. 11). O que não significa que o poeta não esteja «sujeito» à poesia, mesmo se crê que é ele mesmo um «sujeito» (este jogo verbal é em si mesmo, claro, da ordem do poético). Além do mais, a poesia é decomposta como ritual, oficina ou, metaforicamente, como quarto escuro, trincheira. O poeta, esse, é menos que uma criança na sua relação com a língua, feita de erros, de invenções, de uma intensa componente lúdica, até porque as crianças, como se lembra ironicamente, «levam tudo à boca». Não deixa de ser curioso que desta linguagem se diga também que não nos pertence, uma vez escrita, e que seja capaz de nos tocar tão intimamente que por vezes «acode ao coração» e outras vezes seja preciso queimar. É pois a procura de uma linguagem onde algo acontece, para parafrasear um poema, o que se pode cristalizar neste fórmula: «um verso é antes de um gesto». Nesta frase, «antes» significa ao mesmo tempo «em vez de» e «anterior a», sendo portanto uma reformulação do binómio literatura/vida, que está mais no centro desta poética do que à primeira vista possa parecer.
Os poemas subsequentes do livro descem dessa parte mais teórica para uma espécie de aplicação concreta, mas de uma forma decididamente não linear; mesmo porque uma figura essencial nesta poesia é a elipse, saltos no discurso e na narração que não derivam tanto de uma vontade hermética mas de uma tentativa de fugir ao evidente, tanto mais quanto estamos sempre do domínio do poema curto. O corpo é, desde logo, uma presença nestes poemas, com a violência aprendida em Luís Miguel Nava, aqui totalmente metafórica («rasgar», «lâmpadas»); mas essa não parece ser a veia mais interessante desta obra. Melhor é o modo indirecto como se joga com referências biográficas e com memórias, quer pessoais (a filha pequena, a morte do pai) quer geográficas, sem que fiquemos a saber muito mais, uma estratégia indirecta levada à perfeição por outro jovem poeta que se remeteu, ao que parece, ao silêncio: Rui Pires Cabral. Vejamos dois poemas que são como um só e que demonstram o funcionamento de toda esta poesia. O primeiro, chama-se, cruel e ironicamente, «O Meu Futuro»: «O grelhador enferrujou / e teve o seu prémio: vasos / com as roseiras pegadas há dois anos. / Este é o pátio da minha mãe: / botijas de gás, / uma torradeira velha em cima do termo-acumulador, / a fita enrolada à volta dos estores. / O cimento denuncia os canos / mudados no Verão. Voltar / aqui, (pág. 61). Note-se como o poema acaba com uma vírgula, tornando mais terrível a enumeração. Quase no mesmo tom é o poema seguinte, onde uma vez mais se diz tudo sem dizer quase nada: « Sei que morreu vai para quatro anos. / Secretárias antigas, / montes de roupa, / camas desmontadas, / coisas velhas / são agora as ocupantes do pequeno anexo. / Oiço ao longe o relógio da igreja. / Baixo o interruptor e entro. / Afasto da cara a pegajosa teia de aranha. / Cheira a bafio» (pág. 62). O mesmo se diga de «Dezassete», sobre a terrível ideia de que nos habituamos ao sofrimento. Há um evidente pudor, uma dialéctica entre os «ossos» e as raízes», uma aspereza da realidade, uma crueldade inexorável do tempo e da mortalidade e uma postulação da necessidade da rotina que, a par do estilo, não tornam a poesia de José Ricardo Nunes sedutora. Na verdade, o poeta evita todos os truques da sedução, que tantos resultados produz nalguma poesia do passado e do presente (pensem em quem quiserem). É, em vez disso, uma poesia adulta e rigorosa, talvez demasiado «crítica», arriscando a pontual aridez, mas sempre cuidadosa com estes violentos engenhos que se sabem, e são, feitos de palavras.
