domingo, outubro 27, 2002


Antes do gesto


José Ricardo Nunes, «Novas Razões», Gótica, 76 págs.


Sobre José Ricardo Nunes já tivemos oportunidade de escrever nestas páginas que é um crítico confirmado e um poeta em afirmação. Como crítico, hábil no «close reading» sem ser enfadonho, remetemos para textos publicados na «Colóquio / Letras», no «Ciberkiosk», na LER e na «Relâmpago», bem como para a sua tese de mestrado «Um Corpo Escrevente. A Poesia de Luiza Neto Jorge» (2000) e o recentíssimo «9 Poetas para o Século XXI» (2002). Quanto à poesia, depois do minimal «Rua 31 de Janeiro» (1998) e de «Na Linha Divisória» (2000, Prémio Eugénio de Andrade), JRN edita agora «Novas Razões», que colige poemas escritos entre 1997 e 2001. A poesia de José Ricardo Nunes, até pela sua componente académica e crítica, parece naturalmente inclinada para a arte poética, como se não existisse texto antes de enunciados os seus modos, estratégias e possibilidades. Por isso, a primeira parte de «Novas Razões» é exclusivamente dedicada a essa pesquisa. A primeira certeza, e uma asserção de base, é a descrença na inspiração, temática aliás comum nos jovens autores: «Nunca oiço aquela voz / que vem das pedras ou do mar , / dos rostos ou do vento que reparte a luz. Não a oiço, / sequer em plena solidão (...) Não a oiço, é a minha voz / que dita os versos (pág. 11). O que não significa que o poeta não esteja «sujeito» à poesia, mesmo se crê que é ele mesmo um «sujeito» (este jogo verbal é em si mesmo, claro, da ordem do poético). Além do mais, a poesia é decomposta como ritual, oficina ou, metaforicamente, como quarto escuro, trincheira. O poeta, esse, é menos que uma criança na sua relação com a língua, feita de erros, de invenções, de uma intensa componente lúdica, até porque as crianças, como se lembra ironicamente, «levam tudo à boca». Não deixa de ser curioso que desta linguagem se diga também que não nos pertence, uma vez escrita, e que seja capaz de nos tocar tão intimamente que por vezes «acode ao coração» e outras vezes seja preciso queimar. É pois a procura de uma linguagem onde algo acontece, para parafrasear um poema, o que se pode cristalizar neste fórmula: «um verso é antes de um gesto». Nesta frase, «antes» significa ao mesmo tempo «em vez de» e «anterior a», sendo portanto uma reformulação do binómio literatura/vida, que está mais no centro desta poética do que à primeira vista possa parecer.
Os poemas subsequentes do livro descem dessa parte mais teórica para uma espécie de aplicação concreta, mas de uma forma decididamente não linear; mesmo porque uma figura essencial nesta poesia é a elipse, saltos no discurso e na narração que não derivam tanto de uma vontade hermética mas de uma tentativa de fugir ao evidente, tanto mais quanto estamos sempre do domínio do poema curto. O corpo é, desde logo, uma presença nestes poemas, com a violência aprendida em Luís Miguel Nava, aqui totalmente metafórica («rasgar», «lâmpadas»); mas essa não parece ser a veia mais interessante desta obra. Melhor é o modo indirecto como se joga com referências biográficas e com memórias, quer pessoais (a filha pequena, a morte do pai) quer geográficas, sem que fiquemos a saber muito mais, uma estratégia indirecta levada à perfeição por outro jovem poeta que se remeteu, ao que parece, ao silêncio: Rui Pires Cabral. Vejamos dois poemas que são como um só e que demonstram o funcionamento de toda esta poesia. O primeiro, chama-se, cruel e ironicamente, «O Meu Futuro»: «O grelhador enferrujou / e teve o seu prémio: vasos / com as roseiras pegadas há dois anos. / Este é o pátio da minha mãe: / botijas de gás, / uma torradeira velha em cima do termo-acumulador, / a fita enrolada à volta dos estores. / O cimento denuncia os canos / mudados no Verão. Voltar / aqui, (pág. 61). Note-se como o poema acaba com uma vírgula, tornando mais terrível a enumeração. Quase no mesmo tom é o poema seguinte, onde uma vez mais se diz tudo sem dizer quase nada: « Sei que morreu vai para quatro anos. / Secretárias antigas, / montes de roupa, / camas desmontadas, / coisas velhas / são agora as ocupantes do pequeno anexo. / Oiço ao longe o relógio da igreja. / Baixo o interruptor e entro. / Afasto da cara a pegajosa teia de aranha. / Cheira a bafio» (pág. 62). O mesmo se diga de «Dezassete», sobre a terrível ideia de que nos habituamos ao sofrimento. Há um evidente pudor, uma dialéctica entre os «ossos» e as raízes», uma aspereza da realidade, uma crueldade inexorável do tempo e da mortalidade e uma postulação da necessidade da rotina que, a par do estilo, não tornam a poesia de José Ricardo Nunes sedutora. Na verdade, o poeta evita todos os truques da sedução, que tantos resultados produz nalguma poesia do passado e do presente (pensem em quem quiserem). É, em vez disso, uma poesia adulta e rigorosa, talvez demasiado «crítica», arriscando a pontual aridez, mas sempre cuidadosa com estes violentos engenhos que se sabem, e são, feitos de palavras.

quarta-feira, outubro 23, 2002


O belo e a consolação


António Osório, «Libertação da Peste», Gótica, 120 págs.


António Osório é um autor sumamente consagrado, no sentido mais intrínseco e menos mundano do termo. Vale a pena começar por afirmar essa evidente realidade, pois só assim se poderá compreender por inteiro algumas das características da sua poesia mais recente. Mais desligado de uma vertente subjectiva e biografista, Osório dedica-se a tratar a poesia como um tema, mas não no sentido estafado da filosofia do «poema», antes como matéria primitiva e essencial da qual pouco sabemos e muito precisamos. Só um consagrado pode abandonar assim gloriosamente as trivialidades, mesmo se sublimes, do quotidiano pessoal para prestar atenção, e atenção minuciosa, ao que constitui o cerne de uma arte poética. «Libertação da Peste», o último livro de António Osório, é o primeiro original publicado desde «Crónica da Fortuna» (1997), porque entretanto o autor tem publicado antologias, livros revistos e os dois primeiros volumes da imprescindível «Obra Poética». Podemos dizer que este novo título se apresenta como uma continuação do volume de há cinco anos, embora não na sua totalidade. «Crónica da Fortuna» era, no essencial, uma tentativa de cruzar a poesia com o poema em prosa, e de incutir neste uma vertente narrativa, como que a revelar uma vocação secreta de contista. Boa parte do novo livro é constituída por esses textos depurados e generosos que, entre outros méritos, ensinam a muitos prosadores portugueses como se escreve prosa. São histórias com uma grande componente biográfica, embora pouco autobiográfica. Cada texto apresenta uma personagem, encontrada nas mais variadas situações da vida, e que em geral encerra um drama humano, bem como a fragilidade da sua exposição. São por vezes elementos marginais da sociedade, como acontecia com os bruxos e intrujões de «Crónica da Fortuna», mas no essencial são pessoas simples com problemas comuns, e que precisam de quem os ouça e ajude. Um pobre insistente, um avarento, um engraxador que conta a sua história, um padre a ler os versinhos sinceros que escreveu, mas também uma gata que é como gente, ou a espantosa odisseia de uns pavões que o poeta teve na sua quinta, o que nos lembra que Osório é um amigo dos animais e um ecologista confesso, para além de um humanista, realmente chocado com o sofrimento e apostado nalguma beleza que atenue esse sofrimento. Lamentando «a espantosa indiferença das pessoas pelas aflição dos outros», o poeta é esse «santo» (porque se fala explicitamente em «santidade», embora de forma irónica) que está com os que sofrem e lhes tenta levar a consolação, o que faz desta galeria de personagens uma espécie de «Legenda Áurea» ao contrário, ou talvez uma «Legenda Áurea» pura e simplesmente. A limpidez da prosa (que só é «poética» no mais puro e menos «kitsch» dos sentidos) torna estes textos um género híbrido, uma experiência totalmente ganha pelo autor, e à qual visivelmente se afeiçoou, em prejuízo da quantidade e mesmo por vezes da importância dos poemas em verso, o que, por outro lado, é pena.
A outra componente do livro - que aliás não se divide da primeira, antes se mesclam uma na outra – corresponde mais propriamente ao que atrás se chamou poesia de consagração. Trata-se, simplesmente, de uma investigação sobre a essência da poesia, não apenas através de uma revisitação dos clássicos greco-latinos, mas dando voz às formas «primitivas» de poesia, desde a literatura africana até à tradição oral portuguesa. O que é curioso nestes textos é desde logo o seu género, entre o ensaio, a recolha e a tradução. Quanto a este último aspecto, as traduções deste livro bem se podem incluir na esteira do que Herberto Helder fez com os seus belamente intitulados «poemas mudados para português». Este tipo de versão contorna a ignorância da língua original, pelo menos em grande parte dos casos, para, a partir de versões em línguas acessíveis, transformar o texto em poema português, assinalando assim a universalidade do poético. O que é curioso é que se Herberto pertence, sem hesitações, a essa poesia dos «primitivos», que vê na poesia uma espécie de magia, António Osório vem de outra família poética, a dos poetas «burgueses», e parece por isso estranho a este universo. Puro engano: nestas viagens comentadas pelos mais diversos mundos poéticos, dos Navajos aos indonésios, passando pelos esquimós, aparece toda a meticulosidade que conhecemos na poesia de Osório, que se por um lado faz seus os poemas, com o seu cunho próprio, por outro também se preocupa em citar, em nota, as edições utilizadas, como que revelando um trabalho de etnólogo, aliás com evidente empatia por esses povos, particularmente os que foram vítimas de abusos ou mesmo de genocídio. Porque para Osório, «poetas andam nas nuvens, são párias tolos e atónitos (pág. 42), e isso faz com todas as poesias sejam, afinal, uma só, como proclamou uma famosa revista literária portuguesa.
Na segunda parte de «Libertação da Peste», ainda outro universo: o dos epitáfios gregos. Os gregos e os romanos não tinham cemitérios, e dispunham as campas ao longo dos caminhos, sendo assim as inscrições tumulares lidas por quem passava. Cultivavam um estilo literário que Osório define como sendo directo, conciso, sem ênfase e com simplicidade, afinal como a própria poesia do autor. Escritos por notáveis e por anónimos para celebrar anónimos e notáveis, estes versos têm um enorme poder emocional, e uma aura que advém em parte de muitos serem fragmentários, como as próprias lápides que nem sempre resistem aos séculos. E com os mortos, regressam os poetas, esses que sempre tentam vencer a lei da morte. Há nesta poesia, e nas traduções que o poeta delas apresenta, uma concepção quase religiosa da poesia, a poesia como uma prece ou um ritual. A figura tutelar do livro é Orfeu, cuja cabeça, diz o mito, foi preciso enterrar para libertar da peste que alastrava (a cabeça, incólume, cantava). Mas Orfeu existiu? Escreveu poemas? Ou não será uma figura mítica, tal como Homero, uma personificação do «milagre grego», por um lado, e da poesia, por outro? «Aquele que cura pela luz», segundo a etimologia fenícia, e «aquele que atravessou a escuridão da noite» de acordo com o grego, Orfeu é, em suma, o que desceu aos infernos em busca da sua Eurídice e que quase dominou a morte. Figura assim exemplar do poder da poesia, e por isso motivo de inspiração para alguns dos maiores artistas, de Píndaro a Yourcenar, passando por Brueghel, Gluck, Rodin, Cocteau, e tantos outros.
Particularmente importante neste livro é um outro texto, sobre Eugenio Montale, autor decisivo para esta poesia, e praticamente desconhecido em Portugal. Osório traduz alguns poemas do italiano, sobretudo os magníficos poemas finais, e em particular do «Diário Póstumo», que serve para analisar a intensa devoção do escritor pelas mulheres. É pena que Osório não se disponha a uma antologia da poesia de Montale, ou dos poetas italianos contemporâneos, tarefa para a qual seria o melhor, diria o único, tradutor, tanto mais que essa intenção, tida porém como difícil, é mesmo mencionada no texto. Em Osório a tradução é também uma prova de generosidade, como diz de Montale, fazendo cintilar aquela que era para o Nobel de 1975 «a mais discreta das artes». Essa evocação termina com uma bela viagem a Itália, para o poeta português ver o túmulo do italiano, nas imediações de Florença. Mas há também visitas à Magna Grécia, ao teatro onde se representava Ésquilo, há invocações, envios, homenagens, textos e poemas sobre Cecília Meireles, António Sérgio, Júlio Resende, o «David» de Miguel Ângelo, mas também o testemunho primitivo do vale do Côa, ou ainda a «dívida» à musica clássica e à pintura italiana (vista, uma vez mais, «in loco»). Sem esquecer um comovido roteiro por Lisboa e seus arredores, com o pretexto da visita de um amigo estrangeiro, texto que constitui um exemplo quase «demodé» de um amor ao país em que se nasceu, não por razões patrióticas mas por razões estéticas.
«Libertação da Peste» é, por tudo isto, um livro sobre o belo e a consolação, sobre a poesia como «palavra cósmica» (expressão de Croce), sobre a concepção do poeta que é grande porque grande é a poesia. Um livro para guardar na estante entre Rilke e Sophia de Mello Breyner.