domingo, novembro 24, 2002

A Jóia de África

Francisco José Viegas, «Lourenço Marques», Asa, 208 págs.



Francisco José Viegas escreveu o seu melhor romance. Podemos dizer que se trata do tipo de livro a que os ingleses chamam «page turner». É sobre África, e não está longe do espírito e da escrita de José Eduardo Agualusa, a quem aliás também não é estranho o imaginário por assim dizer «revisionista» desta obra. «Lourenço Marques», assim se intitula o romance, abre com epígrafes de dois dos maiores escritores vivos, Philip Roth e V. S. Naipaul; este último, na sua última obra de ficção, «Half a Life», mostrou curiosamente alguma simpatia pela dignidade crepuscular dos colonos portugueses. O romance começa como um policial, o que não é estranho num autor que se propôs, na linha de Vasquez Montalban, usar o policial como plataforma de várias incursões literárias e modos de escrita. Mas o morto que encontramos logo na primeira página, um antigo capitão da Frelimo misteriosamente assassinado, terá uma importância algo marginal na narrativa, embora seja de certa maneira uma das suas chaves (não vamos desvendar mais). A sinopse é simples: um português, Miguel, que viveu em Moçambique até 1973 (era ainda adolescente), regressa a Maputo, antiga Lourenço Marques, supostamente para procurar Maria de Lurdes, uma antiga paixão que não vê faz muitos anos. Em busca dessa mulher atravessa Moçambique, e acaba por revisitar um país de que só tem memórias remotas mas felizes.
Vale a pena referir o que, logo pelo título, seria de prever: Francisco José Viegas aborda o passado africano português sem complexos coloniais, até porque nem sequer se trata de uma história autobiográfica. Nascido em 1962, FJV pertence a uma geração que tem mostrado que não submete a literatura à ideologia, como as gerações anteriores, e provavelmente nenhum autor mais velho poderia ter escrito este romance. É verdade que a presença da guerra de África é uma constante na ficção portuguesa dos últimos trinta anos: basta pensar em Lobo Antunes, Lídia Jorge, Carlos Vale Ferraz, e tantos outros, aliás bem estudados por Rui de Azevedo Teixeira em vários ensaios. Do lado dos portugueses «vencidos», temos um relato em «Os Dias do Fim», de Ricardo Saavedra, que se detém nos acontecimentos do 7 de Setembro. Mas não há praticamente literatura sobre a África pós-independências escrita por portugueses. «Lourenço Marques» é também isso: um português que escreve sobre a África que foi Portugal, e que escreve do ponto de vista (ficcional) de quem tem boas recordações de África, de quem viveu África como um paraíso. O clima já está suficientemente distendido para não ser preciso dizer que se trata de um romance «corajoso», mas, ainda assim, é uma novidade.
Francisco José Viegas mostra neste romance que todos os paraísos são paraísos perdidos, e é o estarem perdidos que lhes empresta essa dimensão quase irreal. Miguel procura uma mulher, e descobre um país. Claro que este não é o país que abandonou: é um território que passou por uma guerra com um milhão de mortos, uma guerra que deixou pelas estradas carcaças de comboios e blindados, de minas, é uma capital degradada cheia de bandos de miúdos pobres, cheia de crime e corrupção, é uma terra africana que tem bizarrias como uma Avenida Friederich Engels. É curioso como um livro que resulta de memórias em segunda mão (livros, relatos, investigação histórica e jornalística) transmite de modo tão vívido a impressão do vivido. Não se trata apenas do vocabulário africano, de um conhecimento credível da fauna e da flora, dos efeitos do clima e das doenças; é sobretudo a evocação de Lourenço Marques, a cidade das acácias no seu período de apogeu. Trechos inteiros do livro são evocações da antiga «Pérola do Índico», das vivendas, das avenidas largas, das tardes na varanda, das palmeiras, da piscina do Hotel Polana, do Liceu Salazar, dos cinemas, do Clube Naval, do Rádio Clube de Moçambique. Um cidade, em suma, que já não existe. Nostalgia? Porque não, se houve quem fosse feliz em África, sem que por isso fosse um colonialista desprezível? Às vezes, é certo, essas listas são excessivas, ao ponto de parecerem artificiais: boîtes, restaurantes, cafés, o Sporting de Lourenço Marques e o seu plantel, António Livramento, Jorge Jardim, Baltazar Rebelo de Sousa, tornées de artistas da metrópole, a «Crónica Feminina», canções de Percy Sledge, muito cinema, de Rita Hayworth a Madalena Iglésias, e assim por diante. É como que um daqueles inventários surrealistas, inventário aliás tornado surrealista pelos anos que passaram, mas por vezes também poético, com certas associações quase proustianas. É a viagem a um mundo perdido, que por vezes lembra a espantosa sequência da plantação francesa em «Apocalipse Now Redux». Há que sublinhar que Moçambique representou o ponto mais civilizado e cosmopolita da colonização portuguesa, como atestam Eugénio Lisboa ou Rui Knopfli (este justamente homenageado no romance), ao ponto de, na narrativa, uma passagem por Luanda ser inequivocamente menorizada. E esses «glory days» africanos, mesmo sendo um «pecado colonial», continuam obsessivamente na memória de muitos. FJV não ignora os males portugueses, pondo na boca dos moçambicanos por exemplo o paternalismo e a cegueira histórica, mas são esses mesmos moçambicanos – baseados certamente em pessoas reais- que exclamam um sentido «foda-se o socialismo», até porque esse socialismo «africano» nunca foi africano, mas um enxerto artificial. Viegas sabe, aliás, analisar com rigor e subtileza as relações entre brancos e pretos ao longo das décadas, e também não se coíbe de criticar, por interposta personagem, certa literatura africana das «raízes» que faz do exotismo e do contorcionismo ortográfico uma receita e, em última análise, um produto turístico.
Ao longo de todo o livro, a escrita é impecável, sem trivialidades mas também sem os maneirismos de quem quer fazer «grande literatura», escrita fortemente apoiada em diálogos verosímeis ou em monólogos, em discretos saltos diegéticos, com um clima de tristeza branda que leva à criação de personagens extraordinárias, como o médico português a viver os seus últimos anos no Niassa. Agora que a televisão exibe uma novela que, como explicou Eduardo Cintra Torres, eliminou o tabu da nostalgia africana (que não é necessariamente o mesmo que a nostalgia colonial), já é possível escrever o «I had a farm in Africa» com que se inicia o famoso livro de Karen Blixen, e o filme nele inspirado. Moçambique é «a jóia de África» mas também «o país dos outros» (Knopfli de novo). Quem viveu em África, passada a raiva e as lágrimas, ou as lágrimas e a raiva, sabe que nem todas as suas experiências pessoais se resumem a esse cliché que é a «opressão colonial». Aliás, FJV transmite também a vivência de quem se viu «retornado» (outro tema pouco tratado na ficção portuguesa), passando por exemplo de uma vasta fazenda para uma cidade acanhada e suja, esses que tudo perderam, forçados a regressar, a começar de novo, e que tiveram de se adaptar a coisas simples mas estranhas, como um clima com quatro estações.
Para quem regressa, Moçambique já não é Moçambique, Lourenço Marques («grande nome», diz-se a certa altura) já não se chama assim, nem Porto Amélia, só a baía continua a mesma, o Niassa continua o mesmo Lago com maiúscula, a luz a mesma luz, e as chuvas tropicais ainda inclementes. Lourenço Marques acabou, é um nome na memória, como esse estribilho que Miguel lembra repetidamente na voz do pai: «vamos para Portugal», logo corrigido por «para a Metrópole» ou ainda um desanimado mas quase conformado «isto acabou». E Miguel lembra-se de tudo, como um clarão, a última vez que viu a cidade, o avião na curva fatal da despedida (cena que vai reviver no fim do livro). O português nem sabe se procura Maria de Lurdes ou Lourenço Marques (para os lacanianos: M.L. ou L.M.). Só encontra vagas pistas, traços, miragens. O que persegue, o amor ou uma época?. Viagem pela memória dividida, viagem para, como se diz, matar saudades. No fim, fica um mistério a pairar, uma suspeita, um segredo. «Lourenço Marques» é um romance sobre o passado que não volta, que não se repete, sobre um mundo novo que já nada tem a ver com o mundo antigo. A certa altura diz-se que o Império, verdadeiramente, foi a embaixada ao Papa no reinado de D. Manuel. Ironia sobre o tão precário «esplendor de Portugal» e sobre a História, que por vezes engole, sem piedade, a frágil existência dos seus súbditos.


quarta-feira, novembro 13, 2002


Poesia


Memento

Gastão Cruz, Rua de Portugal, Assírio e Alvim, 88 págs.

Gastão Cruz publicou em 1999 os seus Poemas Reunidos na colecção, então iniciada, da D. Quixote, irrepreensível em termos de catálogo e de utilidade, embora discutível graficamente. Não era a primeira vez que o poeta recolhia total ou parcialmente a sua produção, numa obra que se caracteriza precisamente pela periódica revisitação. Infelizmente, Gastão decidiu manter no volume boa parte dos poemas dos primeiros livros, publicados na casa dos vinte, e que na sua maioria têm um interesse meramente histórico, marcados como são por uma aridez no limite do suportável. A poesia de G.C. tornou-se manifestamente mais interessante a partir, digamos, de As Aves (1969), onde a impenetrabilidade estéril é matizada por uma característica emergente, que é a glosa de poetas clássicos ou consagrados, por vezes quase em jeito de palimpsesto. Há também um muito subterrâneo romantismo, que G.C. confessou numa arte poética publicada no «Jornal de Letras», artigo no qual reconhecia que tentava mascarar essa tendência, que aliás não tem sido apontada pela crítica. A poesia de Gastão, de grande apuro formal, consiste em textos geralmente curtos, quase sempre sem pontuação (mas com um uso original das maiúsculas), com uma sintaxe exigente mas absolutamente com sentido, ao contrário de outros poetas que usam e abusam da ausência de pontuação e de sentido gramatical, recursos que só devem ser utilizados por quem os domine bem. A escolha precisa de imagens, extremamente conseguida, embora sempre toldada por alguma estranheza, tornam esta poesia uma das mais importantes do nosso panorama. O mesmo não se pode dizer da sua faceta de crítico de G.C.: a republicação, em 1999, da sua A Poesia Portuguesa Hoje, foi um acto de pura provocação; o título, quase trinta anos depois, está desajustado, e parece que nas últimas décadas só houve um poeta relevante em Portugal: Luís Miguel Nava. Por alguma razão Gastão defende a obra crítica de Ruy Belo, que é geralmente desinteressante. Mas o crítico não destronava o poeta, e um livro de transição, Crateras (2000), ganhou mesmo o Prémio D. Diniz, da Casa de Mateus, aliás um dos mais sensatos do nosso panorama. Creio que não se tratava ainda de um livro plenamente conseguido, mas do começo de um ciclo, como podemos agora comprovar.
Em grande parte, Rua de Portugal confirma uma mudança, que parece aliás marca (positiva) desta geração. O começo do livro é pouco prometedor, uma série de retratos, quer no sentido literal quer figurado, que remetem para a recordação e a perda, ao mesmo tempo que o fazem de forma muito física, como se fossem sentidos no próprio corpo. Isso é expresso através de uma bem urdida «rede silábica» (uma expressão Gastão Cruz «vintage») O tom é frio, e há alguns poemas mais fracos, como os de tema «informático», com metáforas falhadas. Melhor é o erotismo velado, a referência a um poema de Cesariny ou a presença do mar, que prenuncia a secção seguinte. Seguem-se poemas que vêem na linha de Crateras, que tentava alguma mudança personalizando mais o discurso, embora com o autobiografismo estritamente vigiado, como é óbvio. Esta Rua de Portugal é uma rua da infância, e todo este conjunto gira em torno dessa infância, da menção explícita aos pais e à avó, de todo «o cenário incendiário da família». São poemas de Faro (lembremos que o Algarve também nos deu poetas como Ramos Rosa ou Nuno Júdice) e há assim uma série de elementos que identificam o local, como a cor branca, a alfarrobeira, a ria, por vezes apenas lugares e cenas relembradas, o café, a livraria, o despertar da sexualidade É curioso como neles se misturam a «água salgada» e a «água doce» de que fala um dos poemas, não no sentido de estarmos perante memórias divididas, mas sobretudo porque a própria passagem dos anos torna toda a revisitação um misto de alegria e penitência. Como no poema que dá título ao livro: «Já não existe a casa / vinte o / número / da trémula muralha térrea / defensora / duma pátria começando / quase sem luz / no céu com o sentido que lhe davam / sombras fixas / Para lá / do tecto indefinido a / luz criava como / uma onda / a casa sobre o mar» (pág. 27). Há um certo calor humano ausente de quase tudo o que Gastão publicou até hoje, uma presença do «real» (palavra explicitamente utilizada) que desmente as suas opiniões demasiado ortodoxas contra o «vivido» em poesia. Uma sucinta arte poética explica: «Na poesia procuro uma casa onde o eco / existe sem o grito que todavia o gera» (pág. 27), um bom resumo do posicionamento teórico do autor. Mesmo em termos formais isso tem a sua consubstanciação, como numa série de poemas rimados, quase em jeito de quadras populares (que obviamente não são) a que chama «canções», designação que tem tradição na sua poesia, pelo menos desde a tradução de alguns dos poemas de Blake. O verão, como cálida presença existencial, e o sonho, como promessa e confusão, são temas recorrentes e pontos de ligação para outros poemas. O poeta diz « (...) temo/ perder o verão / como se fosse um dia apenas» (pág. 45).
Se os poemas anteriores relembram, como se disse, Crateras, então os da terceira secção remetem para aquele que é talvez o melhor livro de G.C., o fabulosamente elegíaco As Pedras Negras (1995); também aqui se trata de morte, não apenas da lembrança dos mortos, mas de uma meditação sobre o seu carácter irremediável. Como noutros momentos da obra de Gastão há um lamento pelo número crescente dos mortos: «Demasiados mortos para a / minha memória / O dia está aí um projector nos rostos / que repetem / cenas, deslocando-se entre os móveis / polidos pelos anos e as árvores, com falas retardadas / Não há quem sobreviva a ninguém no cenário / são somente aparências o que está / e o que falta, / todos em cada um, / enquanto ausentes o habitam como casa / em tempo alheio / Deixastes toda a esperança vós que entrastes / na memória» (pág. 61). Note-se a brilhante variação dantesca dos versos finais. Aliás, por falar em inferno, vejamos como num dístico o poeta diz tudo o que é preciso: «Inadmissível mundo mas só nele / será feliz o corpo que uma luz de inferno reproduz» (pág. 54). Também existe aqui um jogo interessante entre o sono e a morte (o sono e o sonho são recorrentes na obra de G.C.), bem como a ideia de que «o tempo» e «a vida» são conceitos autónomos, dolorosamente autónomos.
Mas os melhores poemas do livro são porventura os finais, da parte intitulada «A norma da desordem», que mais uma vez ecoa um título anterior, neste caso As Leis do Caos, volume de 1990. Num outro exemplo de perfeição arquitectónica, aqui continuamos o tema da morte, embora não da morte passada, mas do seu espectro. Vários dos poemas abrem com epígrafes retiradas de poemas de Fiama Hasse Pais Brandão, uma das grandes escritoras portuguesas, com quem G.C. teve laços pessoais e poéticos. Fiama, que publicou há três anos aquele que me parece ser um dos livros essenciais da poesia portuguesa contemporânea, «Cenas Vivas», ficou entretanto extremamente doente, sendo infelizmente possível dizer que encerrou a sua obra (as Quasi ainda publicaram uma série de poemas que ficaram fora do livro citado, e que teve o título As Fábulas (2001). Os poemas são ao mesmo tempo uma homenagem a Fiama, uma variação sobre alguns dos seus motivos, uma evocação biográfica, e um lamento. Veja-se este soneto de soberbo recorte clássico: «Que quis dizer viver usar os ávidos / sentidos sem abrigo ante o insecto mártir / ou o vívido abeto que dirige / para dentro da casa o seu destino? // Que quis dizer temer no penhasco ou nos dias / a posição de ver com o rosto inclinado / sobre um verão que vinhas? E por fim chagaria / tépido e transparente e pararia // Que quis dizer dizer que a manhã era o nome / de quem o nome da manhã dizia / cedendo ansiosamente à insónia do abeto / ainda antes do martírio? // Quando a noite enche a boca o dito e o / temido são o mesmo ruído» (pág. 70). Gastão sabe que «fazer versos» nesta circunstância é inútil, mas que pode um poeta fazer senão versos? É interessante o modo como Gastão, sabendo que está em território perigoso, põe as coisas em termos da morte das palavras, ou da linguagem, sendo que a morte da pessoa (morte social, ao menos) não diz respeito ao leitor. Ele sabe que as «palavras não são pátria de / ninguém», ecoando assim um tema glosado por alguns poetas modernos, a poesia como insuficiente instrumento de salvação. A presença do «nada» é fantasmagórica, não tanto numa dimensão ateia mas essencialmente numa consciência, que o poeta sempre tem de forma mais intensa, da falta. Tudo isto é duplamente filtrado, tanto em termos de referente como de linguagem. Veja-se por exemplo o cuidado com que os poemas abordam a doença, como nesse terrível «frente a frente» entre os dois sujeitos, ambos criaturas mudadas: « (...) Frente a frente é exacto o que mudou / o que vejo diante do que sou / o que ti és perante o que não sabes (...) Estás diante de mim mudaste tanto / que não mudaste (...)» (pág. 74). Ou neste: «Mora no corpo ainda a errante / linguagem? / A língua do abismo / só os olhos a falam // Ouço pra que respondas Rouco / o ouvido / rígido resiste E a pátria de palavras / é um mar destruindo a pele vítrea // Palavras são apenas a muda magra boca / Morre a pátria no corpo / Osso / de não ouvir tão rouco» (pág. 67). Há ainda uma chama ténue, um murmúrio, um mover de olhos que ligam Fiama ao mundo – tão equivoco – dos «vivos», mas há sobretudo uma espécie de aura que advém de uma revisitação de motivos da natureza, que tanto marcaram grande parte da poesia da autora de Epístolas e Memorandos; árvores e pássaros são como que a celebração muda de uma poesia decisiva, e estes poemas são realmente belíssimos (e o autor desta recensão não é, pessoal e poeticamente, neutral em relação a Fiama). De tal modo que a litania que termina o livro quase se diria escrito por David Mourão- Ferreira, aparentemente um autor de outro universo, de tal forma se expõe um «pathos» que no entanto é absolutamente controlado pela precisão poética. Por essa intensidade e esse rigor, bem como pela capacidade de reinvenção que o autor demonstra, Rua de Portugal é um livro muito recomendável.

domingo, novembro 03, 2002


Trevas e relâmpagos

Luís Miguel Nava, «Poesia Completa 1979-1994», prefácio de Fernando Pinto de Amaral, organização e posfácio de Gastão Cruz, D. Quixote, 292 págs.

Há, evidentemente, um paradoxo trágico que assombra o nome de Luís Miguel Nava (1957-1995): sendo o último – isto é, o mais novo - dos consagrados, no entanto já não está entre o número dos vivos, barbaramente assassinado que foi, há quase uma década, em Bruxelas. Refira-se, aliás, que não é caso único, acompanhado que está de Daniel Faria, também prematuramente falecido, mas ainda menos divulgado no mundo das letras. A obra de Nava é como que o encerramento da geração de 70 com chave de 60, quer dizer, está claramente na confluência problemática entre uma poesia de sinal hermético e alguma aproximação, sobretudo nos primeiros livros, a uma abertura ao real (e valia a pena analisar o exacto significado e os modos do «real» na poesia de Nava). Talvez por causa dessa genealogia «impura» tenha sido elogiado sobretudo por poetas mais velhos, e não tenha tido grandes consequências na poesia dos novos autores, com a excepção de José Ricardo Nunes, em tom no entanto mais ameno. A obra de Nava já tinha sido objecto de uma recolha ainda em vida do autor (Poemas, 1987), que não incluía, portanto, os dois últimos livros, O Céu Sobre as Entranhas (1989) e Vulcão (1994). Este volume da D. Quixote, organizado pelo seu incansável defensor Gastão Cruz, traz assim, como o título indica, a Poesia Completa do autor, escrita entre 1979 e 1995 (além dos livros individuais, há também alguns inéditos).
A primeira e evidente ideia a sublinhar no que a esta poesia diz respeito é a sua violência. Violência metafórica, imagética, vocabular e também existencial. O mundo de L.M. Nava – porque se trata de um universo próprio – é dos mais glaucos jamais produzidos pela poesia portuguesa, pelo que se apresenta como uma viagem que não é para todos, como nunca é a melhor poesia. Se nos primeiros livros – sobretudo Películas (1979)e Rebentação (1984), essa mundividência ainda é, por assim dizer, respirável, nos dois últimos títulos o sufoco é crescente, ao ponto de não sabermos o que poderia vir a seguir, caso o poeta tivesse vivido mais anos. Pessoalmente, julgo que o Nava inicial é muito mais interessante e produtivo, afirmando desde logo as suas marcas, o seu território poético, algumas das características quase inalteradas que vamos encontrar ao longo de quinze anos de poesia. «A pele serve de céu ao coração», explica o poeta, e julgo que é essa possibilidade assim enunciada que torna os primeiros poemas de Nava uma plataforma extremamente interessante de tráfico geracional, sendo no entanto estritamente pessoal. Vejamos a correspondência entre uma «Ars erotica» (pág. 43) e uma «Ars poetica» (pág. 44): «Eu amo assim: com as mãos, os intestinos. Onde ver deita folhas»; «O mar, no seu lugar por um relâmpago». Uma novidade quase sem antecedentes, portanto, embora possamos imaginar um Eugénio dilacerado e menos solar. É uma obra aberta a uma conciliação de várias coordenadas da moderna poesia portuguesa, que não necessita de abdicar daquilo a que, bem ou mal, se chama o «rigor», nem de abandonar o que mesmo na literatura possa ser o «vivido». É curioso como existe, antes da vertigem negra, uma componente quase epifânica em Nava, quer na sua vertente erótica (a presença constante de um «rapaz», na verdade várias encarnações transitórias de uma peregrinação amorosa), quer na puro acto poético nomeado com precisão pelo «relâmpago» (vale a pena lembrar que a revista da Fundação Luís Miguel Nava se chama precisamente Relâmpago, e é a melhor e mais regular das actuais revistas portuguesas de poesia). Nestes poemas, Eros está muitas vezes associado ao mar, com a sua imponderabilidade e imensidão, mas também a um lado referencial quase sórdido, se bem que evocado com ternura: a «Feira Popular» ou o «Guincho». Um exemplo: «Talvez seja melhor não nos voltarmos / a ver, ao mínimo clarão / das mãos a pele se desavém com a memória. / As mãos são de qualquer corpo a coroa. // Das dele já nem sequer o itinerário / sei hoje muito bem, onde o horizonte / se desata o mar agora / regressa ao coração de que faz parte. // Ainda é o mar contudo o que se vê / florir onde ele chegar. Chamando a esse / rapaz rebentação, / o céu rasga-se à volta dos seus ombros» (pág. 88). Ou, umas páginas à frente: «O mar, venho ver-lhe a pele a rebentar / ao longo das falésias, o que sempre / me traz a exaltação desses rapazes que circulam / por Lisboa no verão. / O mar está-lhes na pele. Partilho / com eles os quartos das pensões, sentindo as ondas / a avançar entre os lençóis. Perco-me à vista / da pedra onde o mar vem largar a pele» (pág. 95). Há uma série de vocábulos significativos, de um lado, «pele», «mar», «rapaz», isto é, as «entranhas», do outro «espelho» ou «memória», o trabalho mental sobre as sensações. Nem sempre essas relações são explicitadas, embora num poema se diga que o coração é a roldana do poço que desce na memória, isto é, há sempre uma chave pessoal, mesmo se oculta, nestes versos. «(...) arde a pele de que a memória / vem lentamente tomar conta. (...) O que chamávamos / verão são poços através / dos quais se some a pele pela memória dentro» (pág. 87). Quer as experiências biográficas, e sobretudo sensoriais, quer a sua transmutação em metáfora poética são momentos privilegiados de apreensão e fruição do mundo, mundo esse que se está marcado pela transitoriedade e pela incerteza, não deixa de proporcionar momentos plenos ao sujeito, embora essa plenitude dure o momento estrito do seu acontecer. Mais do que perante um poeta do corpo, estamos perante um poeta da pele e da carne, isto é, de tudo o que no corpo é superfície e interioridade, mas também sopro e visceralidade. É claro que já aqui espreita uma componente brutal desta poesia, que se declina num vocabulário exaustivo de «veias», «gengivas», «sangue», «feridas», mas também «vísceras», «fezes», «infecção», «intestinos», algumas delas palavras certamente bizarras para a maioria dos poetas, não apenas por realidades mais «impróprias» que designam, mas sobretudo como cristalizações de uma radicalidade poucas vezes ensaiada na nossa literatura. Outro vocábulo significativo é «rasgão», que obviamente remete tanto para a exterioridade mais física como para a interioridade mais dilacerada. Por outro lado, e como se tornou quase constante na nossa poesia das últimas décadas, o poema é repetidamente tematizado, não apenas como arte poética mas, por exemplo, como sistema de correspondências entre a página e o corpo, por exemplo, ou entre a pele e a memória. Aliás, bastam versos como «a pele é o espelho da memória» ou «está alguém ao poema como a um espelho» para perceber como, nesta obra, há uma noção de que a memória é a realidade de que o poema é reflexo, e não a «vida», enquanto tal; é essa distanciação face ao biografismo, que tem sido (e bem) reivindicada pelos admiradores de Nava, que subjaz a esta poética, que paradoxalmente também é uma poética do (omnipresente) «coração», mas um coração que é «escarpado, alcantilado», «em carne viva».
Há momentos menos conseguidos, é claro, como o livro A Inércia da Deserção (1981), de influência al bertiana e que por isso sugere um paralelo sumamente enganoso (Al Berto era um poeta muito mais irregular e por vezes arbitrário). Segue-se Como Alguém Disse (1982), mais um conjunto de textos onde o poeta vive pelos poros, é sôfrego, obsessivo. Já «Rebentação» é, como ficou exposto, um livro na esteira de Películas, retomando também o poema em prosa, uma das experiências mais conseguidas da obra de Nava, que é aliás uma poesia mais formal do que à primeira vista possa parecer. A tonalidade é semelhante: «Às vezes, entranhando-me num espelho, consigo dar nele duas ou três braçadas sucessivas» (pág. 113). Nava é um poeta do corpo, mas não apenas do corpo na sua dimensão sexual, antes de toda a corporalidade, nem sempre de fácil convivência. «Ficávamos no quarto até anoitecer, ao conseguirmos / situar num mesmo poema o coração e a pele quase / podíamos / erguer entre eles uma parede e abrir / depois caminho à água. // Quem pelo seu sorriso então se aventurasse achar-se-ia / de súbito em profundas minas, a memória / das suas mais longínquas galerias / extrai aquilo de que é feito o coração. // Ficávamos no quarto, onde por vezes / o mar vinha irromper. É sem dúvida em dias de maior / paixão que pelo coração se chega à pele. / Não há então entre eles nenhum desnível» (pág. 124). Num mesmo poema (pág. 128) o autor alinha «coração», «memória», «sangue» e «mar», como se se tratasse de uma súmula, e noutro vai mesmo ao ponto de se considerar «torcido para dentro da memória», uma imagem forte mas que, no que tem de intensamente doloroso, exprime bem o ambiente emocional destes poemas.
Como se disse, a angústia e a inquietação adensam-se a partir de O Céu sob as Entranhas. Há, como o autor confessa, uma série de «distorções» neste livro, mas apenas porque a própria visão vê tudo de forma distorcida. É assim com a incomodativa metáfora que Nava encontra – a roupa dentro da pele – mas também com todo o universo de estranheza que por vezes parece saído das páginas demenciais de um Naked Lunch. A realidade está aberta, é um sulco feito por um arado que assume diversas formas, a realidade já não é o espelho mas a parede atrás do espelho, e tudo funciona assim de forma obscura e ameaçadora. Se aparecem referências biográficas (Viseu, a infância), o certo é que a identidade está estilhaçada, o sujeito não é senão um «embrulho de memória» preso na insónia, na escuridão, na massa informe dos seus medos e dos seus nervos. Nava acumula textos que são como que parábolas negras, nem sempre evidentes, feitas no mesmo passo de confusão e de uma ocasional «abrupta transparência dos sentidos». Como este: «Dancei num matadouro, como se o sangue de todos os animais que à minha volta pendiam degolados fosse o meu. Dancei até que em mim houvesse espaço para um poema de que todas as imagens depois fossem desertando. // A luz que desse sangue irradiava, como se nele o sol tivesse mergulhado e os raios nele se houvessem diluído, atravessava-me os poros e fazia-me cantar o coração. Tratava-se de uma luz que nada tinha a ver com a piedade ou a esperança, mas cuja música, sem me passar pelos ouvidos, ia direita ao coração, que no dos animais acabados de abater por momentos encontrava um espelho ainda quente, tão diverso da algidez que habitualmente neles impera (...) (pág. 181). O poeta, que por vezes admite que o «eu» seja o seu último reduto – uma afirmação paradoxal? -, noutros momentos chega a confessar que é um seu duplo aquele que escreve, o que não é dito para justificar um alheamento do biografismo mas sim para reforçar o clima quase esquizofrénico de alguns poemas. Existe, é certo, uma notória aridez em certos textos, da qual Nava tem consciência, mas essa aridez é apresentada como reflexo fiel de um estado de espírito, o que, se não resolve os problemas, pelo menos os enquadra. Mais uma vez, a memória é um tema habilmente tratado, como no poema em que se sugere que o rio transforma tudo por ponde passa, para depois se transformar, ele próprio, em memória.
O volume final, Vulcão, foi o livro menos estimado dos que Nava publicou, o que Gastão Cruz atribui, no posfácio, ao seu negrume. Embora se trate, efectivamente, de uma jornada ao coração das trevas, julgo que é redutor ver aí o maior problema. «Vulcão», não obstante ser um livro altissimamente invulgar, é por vezes quase insuportável do ponto de vista estritamente literário. O título de um poema, «Um Prego na Gengiva», capta bem, numa imagem cruel, toda a imagética violenta, mórbida, do livro, mas também, e sobretudo, um ambiente que, mesmo que não tenha sido essa a intenção do autor, respira um certo auto-comprazimento nessa morbidez. Claro que haverá sempre a tentação de ler «Vulcão» como obra «testamentária», não apenas por ser a última, mas por nela se respirar algo de «pasoliniano»: uma espécie de niilismo que é já arauto da extinção; mas o que mais importa é distinguir nestes poemas os sinais de um «mal de vivre» insustentável, uma espécie de existencialismo negro, onde já não é o (domesticável) «desespero» que predomina mas sim uma metafísica negativa, imanente, que, em última análise, faz coincidir existência com inexistência. O sofrimento, que é sempre um sofrimento da carne, é de uma grande dureza e de uma insistência verdadeiramente agreste, faz equivaler céu e poço, é «um deserto a abrir noutro deserto». Neste livro, as «entranhas» são curiosamente dissecadas de forma extremamente cerebral, em poemas em prosa de tendência narrativa e hermética, tantas vezes numa fórmula próxima da parábola. Vulcão é, assim, um livro de «uma irradiação simbólica, magnética», mas essencialmente, diria, um livro de terror, como poucos haverá na nossa língua. É uma leitura desagradável, só para incondicionais de Nava, e parece-me que será sempre uma poesia fechada, sem saída nem fecundidade, mesmo se extremamente interessante de um ponto de vista intelectual: «Cravava cuidadosamente um prego na parede, quando pressentiu que, como água dum cano que se rompesse, o futuro poderia jorrar de súbito na cal, uma substancia na aparência cristalina mas em cujo seio as formas do presente se diluiriam todas, como se, com os seus contornos, igualmente se perdesse o seu sentido, e um sol que por um impressionante acidente cronológico se deslocasse, por pouco que fosse, do presente para o futuro, se esvaziasse então no céu, deixando atrás de si uma cicatriz imensa» (pág. 235). A certa altura, damos com a palavra «crateras», e parece óbvio que foi Gastão Cruz, porventura o mais glauco dos nosso poetas actuais, que quis de certo modo prolongar esta fase final da poesia de Nava, num caso curioso de uma «angústia de influência» também cheia de eternos retornos.
Os inéditos (quatro) respiram a mesma sensação de sufoco, como em «Um céu de funcionários», um poema de Bruxelas, e noutros que se avizinham de universos perturbados ou malsãos como os de Hervé Guibert e de Bernard Maria Koltés. Mas a imagem do poema final acaba por nos dar uma conclusão inesperada para a poesia de Luís Miguel Nava: há um rio que é apenas uma cortina, e por trás desse corre outro rio. Nenhuma teologia, evidentemente, mas apenas a ideia (salvadora?) de que a poesia, quando é poesia, tem zonas que desconhece, e que a cada um de nós leitores é dada a oportunidade de, no momento certo, fazer luz, mesmo que negra, sobre um poema ou sobre toda uma obra. Como se fosse um relâmpago.