A Jóia de África
Francisco José Viegas, «Lourenço Marques», Asa, 208 págs.
Francisco José Viegas escreveu o seu melhor romance. Podemos dizer que se trata do tipo de livro a que os ingleses chamam «page turner». É sobre África, e não está longe do espírito e da escrita de José Eduardo Agualusa, a quem aliás também não é estranho o imaginário por assim dizer «revisionista» desta obra. «Lourenço Marques», assim se intitula o romance, abre com epígrafes de dois dos maiores escritores vivos, Philip Roth e V. S. Naipaul; este último, na sua última obra de ficção, «Half a Life», mostrou curiosamente alguma simpatia pela dignidade crepuscular dos colonos portugueses. O romance começa como um policial, o que não é estranho num autor que se propôs, na linha de Vasquez Montalban, usar o policial como plataforma de várias incursões literárias e modos de escrita. Mas o morto que encontramos logo na primeira página, um antigo capitão da Frelimo misteriosamente assassinado, terá uma importância algo marginal na narrativa, embora seja de certa maneira uma das suas chaves (não vamos desvendar mais). A sinopse é simples: um português, Miguel, que viveu em Moçambique até 1973 (era ainda adolescente), regressa a Maputo, antiga Lourenço Marques, supostamente para procurar Maria de Lurdes, uma antiga paixão que não vê faz muitos anos. Em busca dessa mulher atravessa Moçambique, e acaba por revisitar um país de que só tem memórias remotas mas felizes.
Vale a pena referir o que, logo pelo título, seria de prever: Francisco José Viegas aborda o passado africano português sem complexos coloniais, até porque nem sequer se trata de uma história autobiográfica. Nascido em 1962, FJV pertence a uma geração que tem mostrado que não submete a literatura à ideologia, como as gerações anteriores, e provavelmente nenhum autor mais velho poderia ter escrito este romance. É verdade que a presença da guerra de África é uma constante na ficção portuguesa dos últimos trinta anos: basta pensar em Lobo Antunes, Lídia Jorge, Carlos Vale Ferraz, e tantos outros, aliás bem estudados por Rui de Azevedo Teixeira em vários ensaios. Do lado dos portugueses «vencidos», temos um relato em «Os Dias do Fim», de Ricardo Saavedra, que se detém nos acontecimentos do 7 de Setembro. Mas não há praticamente literatura sobre a África pós-independências escrita por portugueses. «Lourenço Marques» é também isso: um português que escreve sobre a África que foi Portugal, e que escreve do ponto de vista (ficcional) de quem tem boas recordações de África, de quem viveu África como um paraíso. O clima já está suficientemente distendido para não ser preciso dizer que se trata de um romance «corajoso», mas, ainda assim, é uma novidade.
Francisco José Viegas mostra neste romance que todos os paraísos são paraísos perdidos, e é o estarem perdidos que lhes empresta essa dimensão quase irreal. Miguel procura uma mulher, e descobre um país. Claro que este não é o país que abandonou: é um território que passou por uma guerra com um milhão de mortos, uma guerra que deixou pelas estradas carcaças de comboios e blindados, de minas, é uma capital degradada cheia de bandos de miúdos pobres, cheia de crime e corrupção, é uma terra africana que tem bizarrias como uma Avenida Friederich Engels. É curioso como um livro que resulta de memórias em segunda mão (livros, relatos, investigação histórica e jornalística) transmite de modo tão vívido a impressão do vivido. Não se trata apenas do vocabulário africano, de um conhecimento credível da fauna e da flora, dos efeitos do clima e das doenças; é sobretudo a evocação de Lourenço Marques, a cidade das acácias no seu período de apogeu. Trechos inteiros do livro são evocações da antiga «Pérola do Índico», das vivendas, das avenidas largas, das tardes na varanda, das palmeiras, da piscina do Hotel Polana, do Liceu Salazar, dos cinemas, do Clube Naval, do Rádio Clube de Moçambique. Um cidade, em suma, que já não existe. Nostalgia? Porque não, se houve quem fosse feliz em África, sem que por isso fosse um colonialista desprezível? Às vezes, é certo, essas listas são excessivas, ao ponto de parecerem artificiais: boîtes, restaurantes, cafés, o Sporting de Lourenço Marques e o seu plantel, António Livramento, Jorge Jardim, Baltazar Rebelo de Sousa, tornées de artistas da metrópole, a «Crónica Feminina», canções de Percy Sledge, muito cinema, de Rita Hayworth a Madalena Iglésias, e assim por diante. É como que um daqueles inventários surrealistas, inventário aliás tornado surrealista pelos anos que passaram, mas por vezes também poético, com certas associações quase proustianas. É a viagem a um mundo perdido, que por vezes lembra a espantosa sequência da plantação francesa em «Apocalipse Now Redux». Há que sublinhar que Moçambique representou o ponto mais civilizado e cosmopolita da colonização portuguesa, como atestam Eugénio Lisboa ou Rui Knopfli (este justamente homenageado no romance), ao ponto de, na narrativa, uma passagem por Luanda ser inequivocamente menorizada. E esses «glory days» africanos, mesmo sendo um «pecado colonial», continuam obsessivamente na memória de muitos. FJV não ignora os males portugueses, pondo na boca dos moçambicanos por exemplo o paternalismo e a cegueira histórica, mas são esses mesmos moçambicanos – baseados certamente em pessoas reais- que exclamam um sentido «foda-se o socialismo», até porque esse socialismo «africano» nunca foi africano, mas um enxerto artificial. Viegas sabe, aliás, analisar com rigor e subtileza as relações entre brancos e pretos ao longo das décadas, e também não se coíbe de criticar, por interposta personagem, certa literatura africana das «raízes» que faz do exotismo e do contorcionismo ortográfico uma receita e, em última análise, um produto turístico.
Ao longo de todo o livro, a escrita é impecável, sem trivialidades mas também sem os maneirismos de quem quer fazer «grande literatura», escrita fortemente apoiada em diálogos verosímeis ou em monólogos, em discretos saltos diegéticos, com um clima de tristeza branda que leva à criação de personagens extraordinárias, como o médico português a viver os seus últimos anos no Niassa. Agora que a televisão exibe uma novela que, como explicou Eduardo Cintra Torres, eliminou o tabu da nostalgia africana (que não é necessariamente o mesmo que a nostalgia colonial), já é possível escrever o «I had a farm in Africa» com que se inicia o famoso livro de Karen Blixen, e o filme nele inspirado. Moçambique é «a jóia de África» mas também «o país dos outros» (Knopfli de novo). Quem viveu em África, passada a raiva e as lágrimas, ou as lágrimas e a raiva, sabe que nem todas as suas experiências pessoais se resumem a esse cliché que é a «opressão colonial». Aliás, FJV transmite também a vivência de quem se viu «retornado» (outro tema pouco tratado na ficção portuguesa), passando por exemplo de uma vasta fazenda para uma cidade acanhada e suja, esses que tudo perderam, forçados a regressar, a começar de novo, e que tiveram de se adaptar a coisas simples mas estranhas, como um clima com quatro estações.
Para quem regressa, Moçambique já não é Moçambique, Lourenço Marques («grande nome», diz-se a certa altura) já não se chama assim, nem Porto Amélia, só a baía continua a mesma, o Niassa continua o mesmo Lago com maiúscula, a luz a mesma luz, e as chuvas tropicais ainda inclementes. Lourenço Marques acabou, é um nome na memória, como esse estribilho que Miguel lembra repetidamente na voz do pai: «vamos para Portugal», logo corrigido por «para a Metrópole» ou ainda um desanimado mas quase conformado «isto acabou». E Miguel lembra-se de tudo, como um clarão, a última vez que viu a cidade, o avião na curva fatal da despedida (cena que vai reviver no fim do livro). O português nem sabe se procura Maria de Lurdes ou Lourenço Marques (para os lacanianos: M.L. ou L.M.). Só encontra vagas pistas, traços, miragens. O que persegue, o amor ou uma época?. Viagem pela memória dividida, viagem para, como se diz, matar saudades. No fim, fica um mistério a pairar, uma suspeita, um segredo. «Lourenço Marques» é um romance sobre o passado que não volta, que não se repete, sobre um mundo novo que já nada tem a ver com o mundo antigo. A certa altura diz-se que o Império, verdadeiramente, foi a embaixada ao Papa no reinado de D. Manuel. Ironia sobre o tão precário «esplendor de Portugal» e sobre a História, que por vezes engole, sem piedade, a frágil existência dos seus súbditos.
Francisco José Viegas, «Lourenço Marques», Asa, 208 págs.
Francisco José Viegas escreveu o seu melhor romance. Podemos dizer que se trata do tipo de livro a que os ingleses chamam «page turner». É sobre África, e não está longe do espírito e da escrita de José Eduardo Agualusa, a quem aliás também não é estranho o imaginário por assim dizer «revisionista» desta obra. «Lourenço Marques», assim se intitula o romance, abre com epígrafes de dois dos maiores escritores vivos, Philip Roth e V. S. Naipaul; este último, na sua última obra de ficção, «Half a Life», mostrou curiosamente alguma simpatia pela dignidade crepuscular dos colonos portugueses. O romance começa como um policial, o que não é estranho num autor que se propôs, na linha de Vasquez Montalban, usar o policial como plataforma de várias incursões literárias e modos de escrita. Mas o morto que encontramos logo na primeira página, um antigo capitão da Frelimo misteriosamente assassinado, terá uma importância algo marginal na narrativa, embora seja de certa maneira uma das suas chaves (não vamos desvendar mais). A sinopse é simples: um português, Miguel, que viveu em Moçambique até 1973 (era ainda adolescente), regressa a Maputo, antiga Lourenço Marques, supostamente para procurar Maria de Lurdes, uma antiga paixão que não vê faz muitos anos. Em busca dessa mulher atravessa Moçambique, e acaba por revisitar um país de que só tem memórias remotas mas felizes.
Vale a pena referir o que, logo pelo título, seria de prever: Francisco José Viegas aborda o passado africano português sem complexos coloniais, até porque nem sequer se trata de uma história autobiográfica. Nascido em 1962, FJV pertence a uma geração que tem mostrado que não submete a literatura à ideologia, como as gerações anteriores, e provavelmente nenhum autor mais velho poderia ter escrito este romance. É verdade que a presença da guerra de África é uma constante na ficção portuguesa dos últimos trinta anos: basta pensar em Lobo Antunes, Lídia Jorge, Carlos Vale Ferraz, e tantos outros, aliás bem estudados por Rui de Azevedo Teixeira em vários ensaios. Do lado dos portugueses «vencidos», temos um relato em «Os Dias do Fim», de Ricardo Saavedra, que se detém nos acontecimentos do 7 de Setembro. Mas não há praticamente literatura sobre a África pós-independências escrita por portugueses. «Lourenço Marques» é também isso: um português que escreve sobre a África que foi Portugal, e que escreve do ponto de vista (ficcional) de quem tem boas recordações de África, de quem viveu África como um paraíso. O clima já está suficientemente distendido para não ser preciso dizer que se trata de um romance «corajoso», mas, ainda assim, é uma novidade.
Francisco José Viegas mostra neste romance que todos os paraísos são paraísos perdidos, e é o estarem perdidos que lhes empresta essa dimensão quase irreal. Miguel procura uma mulher, e descobre um país. Claro que este não é o país que abandonou: é um território que passou por uma guerra com um milhão de mortos, uma guerra que deixou pelas estradas carcaças de comboios e blindados, de minas, é uma capital degradada cheia de bandos de miúdos pobres, cheia de crime e corrupção, é uma terra africana que tem bizarrias como uma Avenida Friederich Engels. É curioso como um livro que resulta de memórias em segunda mão (livros, relatos, investigação histórica e jornalística) transmite de modo tão vívido a impressão do vivido. Não se trata apenas do vocabulário africano, de um conhecimento credível da fauna e da flora, dos efeitos do clima e das doenças; é sobretudo a evocação de Lourenço Marques, a cidade das acácias no seu período de apogeu. Trechos inteiros do livro são evocações da antiga «Pérola do Índico», das vivendas, das avenidas largas, das tardes na varanda, das palmeiras, da piscina do Hotel Polana, do Liceu Salazar, dos cinemas, do Clube Naval, do Rádio Clube de Moçambique. Um cidade, em suma, que já não existe. Nostalgia? Porque não, se houve quem fosse feliz em África, sem que por isso fosse um colonialista desprezível? Às vezes, é certo, essas listas são excessivas, ao ponto de parecerem artificiais: boîtes, restaurantes, cafés, o Sporting de Lourenço Marques e o seu plantel, António Livramento, Jorge Jardim, Baltazar Rebelo de Sousa, tornées de artistas da metrópole, a «Crónica Feminina», canções de Percy Sledge, muito cinema, de Rita Hayworth a Madalena Iglésias, e assim por diante. É como que um daqueles inventários surrealistas, inventário aliás tornado surrealista pelos anos que passaram, mas por vezes também poético, com certas associações quase proustianas. É a viagem a um mundo perdido, que por vezes lembra a espantosa sequência da plantação francesa em «Apocalipse Now Redux». Há que sublinhar que Moçambique representou o ponto mais civilizado e cosmopolita da colonização portuguesa, como atestam Eugénio Lisboa ou Rui Knopfli (este justamente homenageado no romance), ao ponto de, na narrativa, uma passagem por Luanda ser inequivocamente menorizada. E esses «glory days» africanos, mesmo sendo um «pecado colonial», continuam obsessivamente na memória de muitos. FJV não ignora os males portugueses, pondo na boca dos moçambicanos por exemplo o paternalismo e a cegueira histórica, mas são esses mesmos moçambicanos – baseados certamente em pessoas reais- que exclamam um sentido «foda-se o socialismo», até porque esse socialismo «africano» nunca foi africano, mas um enxerto artificial. Viegas sabe, aliás, analisar com rigor e subtileza as relações entre brancos e pretos ao longo das décadas, e também não se coíbe de criticar, por interposta personagem, certa literatura africana das «raízes» que faz do exotismo e do contorcionismo ortográfico uma receita e, em última análise, um produto turístico.
Ao longo de todo o livro, a escrita é impecável, sem trivialidades mas também sem os maneirismos de quem quer fazer «grande literatura», escrita fortemente apoiada em diálogos verosímeis ou em monólogos, em discretos saltos diegéticos, com um clima de tristeza branda que leva à criação de personagens extraordinárias, como o médico português a viver os seus últimos anos no Niassa. Agora que a televisão exibe uma novela que, como explicou Eduardo Cintra Torres, eliminou o tabu da nostalgia africana (que não é necessariamente o mesmo que a nostalgia colonial), já é possível escrever o «I had a farm in Africa» com que se inicia o famoso livro de Karen Blixen, e o filme nele inspirado. Moçambique é «a jóia de África» mas também «o país dos outros» (Knopfli de novo). Quem viveu em África, passada a raiva e as lágrimas, ou as lágrimas e a raiva, sabe que nem todas as suas experiências pessoais se resumem a esse cliché que é a «opressão colonial». Aliás, FJV transmite também a vivência de quem se viu «retornado» (outro tema pouco tratado na ficção portuguesa), passando por exemplo de uma vasta fazenda para uma cidade acanhada e suja, esses que tudo perderam, forçados a regressar, a começar de novo, e que tiveram de se adaptar a coisas simples mas estranhas, como um clima com quatro estações.
Para quem regressa, Moçambique já não é Moçambique, Lourenço Marques («grande nome», diz-se a certa altura) já não se chama assim, nem Porto Amélia, só a baía continua a mesma, o Niassa continua o mesmo Lago com maiúscula, a luz a mesma luz, e as chuvas tropicais ainda inclementes. Lourenço Marques acabou, é um nome na memória, como esse estribilho que Miguel lembra repetidamente na voz do pai: «vamos para Portugal», logo corrigido por «para a Metrópole» ou ainda um desanimado mas quase conformado «isto acabou». E Miguel lembra-se de tudo, como um clarão, a última vez que viu a cidade, o avião na curva fatal da despedida (cena que vai reviver no fim do livro). O português nem sabe se procura Maria de Lurdes ou Lourenço Marques (para os lacanianos: M.L. ou L.M.). Só encontra vagas pistas, traços, miragens. O que persegue, o amor ou uma época?. Viagem pela memória dividida, viagem para, como se diz, matar saudades. No fim, fica um mistério a pairar, uma suspeita, um segredo. «Lourenço Marques» é um romance sobre o passado que não volta, que não se repete, sobre um mundo novo que já nada tem a ver com o mundo antigo. A certa altura diz-se que o Império, verdadeiramente, foi a embaixada ao Papa no reinado de D. Manuel. Ironia sobre o tão precário «esplendor de Portugal» e sobre a História, que por vezes engole, sem piedade, a frágil existência dos seus súbditos.
