segunda-feira, dezembro 16, 2002


Ficção


Portugal não existe

Paulo José Miranda, «O Mal», Cotovia, 112 págs.


Se começam a aparecer novos talentos de feição mais convencional e canónica, surgem outros que são «casos» excepcionais: por exemplo, Gonçalo M. Tavares ou Paulo José Miranda. A obra do segundo divide-se entre a ficção curta de carácter quase ensaístico, a poesia e o teatro (com a esplêndida peça «O Corpo de Helena»). Tendo vivido os últimos anos na Turquia, PJM regressa agora com dois novos livros, os poemas de «O Tabaco de Deus» e a ficção «O Mal». Confirma-se no primeiro dos títulos o estatuto problemático da poesia de Miranda, que neste livro se revela uma decepção, incapaz de jogar com o estatuto de «exilado» de forma interessante, enquanto volta a encenar uma cansativa arrogância tributária de Jorge de Sena. «O Mal», pelo contrário, enquadra-se perfeitamente no ciclo de «novelas» que se iniciou com «Um Prego no Coração» (1998), a que se seguiram «Natureza Morta» (1998) e «Vício» (2001). Esta (por agora) tetralogia parte de um determinado momento da existência de criadores portugueses de oitocentos – Cesário Verde, Domingos Bontempo, Antero de Quental e Camilo Pessanha – para interrogar noções como as de talento, pátria e destino. São, nesse sentido, «ficções portuguesas», embora as influências literárias maiores sejam estrangeiras, particularmente alemãs. Até porque Paulo Miranda não usa o tema português para profissões de fé patrióticas ou formas nebulosas de saudosismo, iberismo e outras filosofias de recurso, antes critica, de forma aliás dolorida, a própria noção e situação da identidade nacional. Nalguns dos livros, por exemplo o primeiro, prevalecem as interrogações sobre a criação e sobre a natureza do artista; PJM acredita, de forma gloriosamente fora de moda, no génio, e tem do artista uma visão que, mesmo a contragosto, é de essência romântica, com todos os conflitos internos e os excessos daí decorrentes.
«O Mal» não tem verdadeiramente uma narrativa, embora nos apresente as reflexões de um português que vive em Macau e que tenta escrever um ensaio sobre Camilo Pessanha (PJM esteve nesse território, com uma bolsa do ICM). É verdadeiramente o diário de um ensaio que não chega a ser escrito, e a sua proximidade com a biografia de Pessanha é menos intensa do que noutros livros deste ciclo, nomeadamente do que no anterior, «Vício». Sobre Macau, visitada aqui nos últimos momentos da administração portuguesa, a visão é crepuscular e desenganada: prevalecem as negociatas e a venalidade, as seitas, o desmanchar de feira, e os últimos vestígios de uma cultura – a portuguesa – em vias de desaparecer. Afinal, que sabemos nós dos chineses após tantos séculos de convivência? Não produzimos sinólogos, mas ensinamos os nossos poetas aos chineses, como se eles não os tivessem, e há milhares de anos. A colonização, defende Miranda ecoando algumas das teses defendidas em «O Labirinto da Saudade», foi uma fuga à exiguidade territorial, que é a nossa condição histórica. A descolonização, quer a atabalhoada quer a «planeada», corresponde a um regresso à realidade, aliás logo seguida de uma «fuga para a frente» chamada Europa, solução milagrosa para a nossa solidão. É curiosa esta quase unanimidade de gerações diferentes na «autognose de Portugal» que Eduardo Lourenço empreendeu e que encontra uma espécie de discípulo cínico em Miranda. Para este, com o fim do Império ruiu a ilusão de uma identidade, ao passo que Lourenço apenas falava do modo como se inflaccionou o mito para escapar à realidade. Para PJM, o falhanço dessa identidade colectiva está relacionado com o fracasso da própria identidade pessoal, tema que o drama de Antero lhe tinha permitido explanar, e que desenvolve neste livro.
Camilo Pessanha era um homem marcado por uma «desvontade de viver» que só parcialmente pode ser atribuída ao males de amor. Paulo Miranda entende o seu exílio macaense como uma fuga para o fim do mundo, para um sítio que o próprio Pessanha chamava «o buraco», território onde, ao que parece, não escreveu nenhum poema (seria melhor dizer não compôs, dada a sua conhecida relutância em passar a escrito os versos). É evidente que nesta obra, como nas anteriores, PJM detecta todos os pontos comuns em termos de personalidade artística e pessoal com o autor glosado, fazendo de cada texto uma por vezes incomodativa autobiografia espiritual. Aqui é tematizado o «ódio ao mundo», mistura de tédio e desprezo que se adequa à lassidão macaense. Pessanha, diz PJM, foi para Macau «para odiar» e se escreveu pouco foi porque não amou o mundo. É mesmo tentado um paralelo (que me parece falhado) entre Pessanha e Pessoa, poetas «sem biografia» e que deliberadamente faziam mal a um corpo no qual não se sentiam bem, namorando assim a ideia de suicídio. O «mal de vivre» que é uma faceta regular das obras de Miranda acaba por ser um traço tardo-romântico de que o autor não se consegue libertar, e que se na ficção se alia com alguma felicidade a biografados conhecidos, na poesia aparece sempre com a sua carga de quase cabotinismo (Sena de novo). Diga-se, em abono da verdade e da literatura, que Paulo Miranda não adopta poses humanistas de Feira do Livro, e deixa claro que não gosta da Humanidade, que conceitos como a «arte» tanto o fascinam como o desgostam, e que reconhece muito mais facilmente a realidade do sexo do que do «amor». Nas relações com as mulheres, esta narrativa compraz-se numa visão quase pragmática (sexualmente) e perversa (intelectualmente). O «amor» parece ser um misto de ódio e mentira, para além de carnalidade, ajuste de contas, niilismo. Não é filosofia de prenda de Natal, mas sempre é melhor do que a filantropia das «boas pessoas». O autor é capaz de assumir uma postura de um enorme e sustentado snobismo intelectual, como quando diz que uma amante preferiu «vulgarizar-se, enveredar pelo talento», sendo certo que neste universo o «talento» só pode ser coisa de animal amestrado, e não o que é próprio de um artista. Nalguns momentos da narrativa, parece duvidoso que as relações com as mulheres sirvam ao protagonista como base hermenêutica legítima para o estudo de Pessanha, como nos quer fazer crer, mas essa talvez seja apenas mais uma das perversidade do texto.
Vale a pena insistir na dimensão filosófica da obra de PJM. Digamos que aqui tudo se joga numa luta mortal entre o idealismo e o empirismo (os termos são do próprio autor). Platão e Leibniz são convocados pelo texto, mas mais importante do que isso é o conceito muito próprio de «mal», que se encontra entre os domínios do estético e do ético. É verdade que PJM defende que o artista se torna na obra e que, por exemplo, escrever, é uma perda de identidade, pela qual, aliás, o autor anseia. Mas perante o «montúrio moral» que é Macau, o projecto de um ensaio literário sobre um tema exterior acaba por se tornar um ensaio íntimo, com uma rede ficcional mínima, constantemente boicotada pelo estilo quase de repórter com que se refere a realidade política. A personagem desta ficção – e por extensão tanto Pessanha como Miranda – partem do desânimo existencial para uma atitude de recusa do mundo, o que passa, evidentemente, pela recusa do quotidiano, da prole, mas também pelo abandono de ficções consoladoras como a arte ou a moralidade. Macau é assim, como se disse, um cenário essencialmente moral, «o outro lado do mundo», claro, mas também um falhanço feito à medida portuguesa e que, por uma vez, não acaba em tragédia mas em comédia: brilhante o final, com o episódio dos quadros falsos dos governadores portugueses, descerrar do pano de uma farsa que pretendemos que «acabou bem».
O regresso dos portugueses a Portugal tem nesta obra ao mesmo tempo um carácter literal e um evidente alcance metafórico, até porque se diz explicitamente que não há lugar de regresso, que «viver é sem regresso». Para parafrasear a quase insuportável e tão mal entendida frase pessoana, a única pátria que aqui é possível é a língua portuguesa, sobretudo porque foi a língua de, por exemplo, Camões ou Vieira. Além de que, como diz PJM desdenhosamente (já o dissera em «Natureza Morta») «Portugal já não existe». E assim, o protagonista já não acredita na língua e no seu futuro, como Pessanha ainda acreditava, porque a língua desaparecerá, não em Macau como em Portugal. O poeta da «Clepsidra», não obstante a profusa citação de poemas e de algumas cartas, acaba por ser menorizado no conjunto do texto, mau grado a decisão final do protagonista de «ser como Pessanha», para assim o compreender. «Vou a medo na aresta do futuro», dizia Pessanha, e assim o diz Paulo José Miranda, que não vê a luz em um país perdido.

terça-feira, dezembro 03, 2002

O líquido teatro do pensamento

Luís Quintais, «Angst», Cotovia, 80 págs.


Luís Quintais é o melhor poeta da sua geração, na companhia de Rui Pires Cabral, Carlos Luís Bessa e, nalguns momentos, José Tolentino Mendonça. É autor de uma poesia de impressionante seriedade, no sentido de uma recusa total do que o autor chama «ludismo», isto é, da literatura para atrair quem não lê. Quintais escreve, sem dúvida, para quem já lê, porventura mesmo para quem escreve. O que o torna um autor de «happy few», certamente, inassimilável por aqueles que ainda conservam, no seu íntimo, saudades de uma poesia «acessível», «sincera», «sedutora», e outros epítetos tão discutíveis como enganadores. Nem todos os livros do autor, é certo, têm o mesmo nível, mas isso é normal para quem publica com uma certa regularidade (cinco livros desde 1996). Mas há sempre uma coerência estrutural, um apuramento de linguagem e uma elevação de propósitos que tornam Quintais vastamente superior a quase todos os seus contemporâneos.
O novo volume de poemas, «Angst» tem, desde logo, um nome improvável para um livro de Luís Quintais, visto que o «medo» parece uma categoria excessivamente violenta e emocional para um poeta sóbrio e cerebral. Mas isso tem uma explicação. Logo nos primeiros poemas existe alguma intenção diríamos pedagógica: os filhos do autor aparecem como destinatários não apenas, como é evidente, de afecto, mas de «regras de viver» porventura impossíveis de transmitir. Um exemplo de poesia da simplicidade emocional, mas não da simplificação mental: «Serás a humílima árvore. / A árvore a tinta / da china desenhada. / A árvore de papel. / Serás a bétula / abstracta e concisa. / A bétula do Nepal. / A que não existe / senão na linguagem. / Serás a que sonha os dias, / as noites, as lembranças. / A que protege / da ira inclemente. / a que protege / do sopro do tempo. / A da sombra feliz» (pág. 14). Uma das características que se intui lendo os poemas de Luís Quintais é de que se trata de um poeta que não apenas lê poesia mas que lê sobre poesia, o que me arrisco a dizer que parece muito raro em alguns jovens poetas. Esse facto, aliás consentâneo com o estatuto académico de Quintais, faz da sua obra extremamente consciente não apenas da questão da arte poética (já quase um cliché), mas de uma série de questões filosóficas que precedem a poesia, se assim podemos dizer. A mais importante, ao menos neste livro, é a da inteligibilidade do mundo. O «mundo» é, nestes poemas, desde logo a natureza, como se comprova pelo uso recorrente de «árvores» e de «aves», de resto dois símbolos poéticos, e pela homenagem a Fiama, modelo de um conhecimento pela natureza; a compreensão da natureza, e do mundo em geral, passa, neste autor, pelo estatuto problemático da actividade básica que é «ver», um verbo também utilizado com frequência. Não é por isso de estranhar que o poeta retome, contrariando, a tese de Kundera, dizendo que a poesia deve ser feita contra a memória e não contra o esquecimento, essencialmente porque a memória ensina-nos muito pouco a lidar com a realidade, que de cada vez se apresenta como se fosse nova, e nós ignorantes. Claro que Quintais usa uma certa ironia amarga aqui, como quando diz que ao ver (cá está o verbo) a foto de um escritor, a sua atenção é atraída pelos livros ao fundo, mais do que pelo rosto e a posição do corpo. O que, aliás, não o impede de aproximar a poesia a aves debicando o lixo. Paradoxos sucessivos? Não tanto, uma vez que a complexidade do mundo passa necessariamente pela descontinuidade entre teoria e prática, vontade e facto: «Algures, ao longe, vejo a pequena árvore – a palmeira / dobrada pela força do vento (que me persegue desde / o princípio da palavra e que agora retomo) - // e a paisagem cerra-se de signos / que me despertam para a natureza perfeita das pedras, / vogais, vagarosas sílabas ou fronteiras entre objectos: // o firmamento é um poço de águas imperscrutáveis, / as vozes que se propagam na casa próxima / - uma comunidade de vozes - // sobrepõem, por instantes, som e segredo, / a perdida inteligibilidade. / O horizonte destrói o instável retrato do que lembro. // Uma lâmina expõe meticulosamente a anatomia da sombra. / Uma criança – o meu filho – aproxima-se e decreta o fim / de que esboçava o início» (pág. 27). O «medo» é aqui uma manifestação da incerteza, e a incerteza uma consequência de se estar vivo.
Podemos falar nesta poesia de uma «observação especulativa», na medida em que nela se joga o equilíbrio entre a percepção e a conceptualização, sendo, no entanto, uma poesia indecisa, em aberto. «Avaros na felicidade, procuramos um episódio que justifique um verso», afirma o poeta, dando assim a entender que a própria relação entre «poesia» e «vida» pode ser perversa, embora haja nesta obra uma tranquilidade melancólica que dispensa poses e violências, verbais ou outras. É certo que há aqui uma visão extremamente pessimista da natureza humana, como no poema sobre o 11 de Setembro, modelar no modo como a realidade lhe serve para uma meditação e não, de todo, para retóricas em voz alta, sentimentalismo fácil, lucro com a miséria. Luís Quintais é antropólogo, e sabe bem o terreno movediço do que significa falar em «barbárie» e «civilização»; na verdade, o conceito que nos une todos fraternalmente é o de animalidade (o filósofo John Gray publicou recentemente um ensaio sobre esse tema). Assim, quando Quintais se refere às imagens lamentáveis da morte e captura de Jonas Savimbi, não está de modo nenhum a entrar em terrenos políticos, mas a lamentar a nossa condição, e sobretudo o espectáculo que dela fazemos: não é por acaso que o poeta anatemiza o «zapping», e deplora a sociedade debordiana a que chegámos.
Claro que o poema sobre Savimbi – e aqui os dois veios agregam-se – é também uma mitologia privada, um poema sobre a infância em Angola, o eco do nome, e da voz, e dos feitos do guerrilheiro. Porque Quintais, não obstante a precaução acima referida, também é um poeta da memória, embora um poeta da memória que, paradoxalmente, professa um certo horror à confessionalidade, ou ao menos a uma confessionalidade de grau zero, não filtrada pelo pensamento. A natureza humana não pode suportar muita realidade, dizia o pássaro no poema de Eliot, que Quintais retoma, mas a realidade contamina-nos desde a infância, razão pela qual o poeta como pai se preocupa tanto com a transmissão da realidade aos seus filhos. Vejamos este poema, intitulado «1961»: «Trovoadas lá fora, o seu eco a oeste, / o mundo a abater. Em 61 fúrias extra-catálogo / agitavam, a floresta que ruía para // quem não escutara. O proscrito vinha, / sentencioso, apontar-te / o dedo do absurdo. Eras mito novo, // uma criança ainda. O afago dos adultos / um quase insulto. Punição / que descia em doce modo sobre a tua cabeça. // Um disfarce apenas. A astúcia da crueldade. // De tão pouca idade, o anónimo destino pela frente, / entre anónimos, tu eras. // Temível a sua narrativa, o eu antecipavas / atrás de alguma porta ( literal, metafórica). / A floresta ruindo: “Aproximei-me do leito. // O clarão da trovoada lá fora, / como um metrónomo de luz a enfeitiçar / as janelas do quarto. // O corpo dela quieto, esperando. O corpo / dela liso e branco, de tempos a tempos / cortado prelo clarão que lhe vinha lamber // a pele.” Retomas a inodora ferida do sem sentido, / o flash sobre os joelhos, sobre os quadris, / sobre o sexo, e há mais pesadelos no céu e na terra / do que os amputados sonhos que descreves» (pág. 76). É isso: a natureza humana não pode suportar muita realidade.
Esta é uma poesia que põe em acção o que um poema chama, de forma muito bela, «o líquido teatro do pensamento». Um pensamento que é teatral porque necessariamente encenado nas nossas vidas e que é líquido como o mercúrio do termómetro partido, que não se deixa agarrar. Veja-se o modo como o poeta dialoga com os seus mestres, como por exemplo o checo Milosz, alguém que sabe bastante sobre as tragédias da vida colectiva na personalidade individual. Ou a maneira como cada meditação – por exemplo, sobre as dedicatórias rasuradas nos poemas daqueles que já foram nossos amigos – não aposta tanto no «pathos», mas tenta um entendimento sereno da existência, tentativa depois ironizada no título do volume. Ou mesmo o trabalho, invulgar, sobre o poema em prosa, espécie de parêntesis mental, espaço onde as ideias se espraiam de forma, porém, concentrada. Porque esta é uma poesia de ideias, e esse é sem dúvida a sua grande originalidade no panorama português.