Ficção
Portugal não existe
Paulo José Miranda, «O Mal», Cotovia, 112 págs.
Se começam a aparecer novos talentos de feição mais convencional e canónica, surgem outros que são «casos» excepcionais: por exemplo, Gonçalo M. Tavares ou Paulo José Miranda. A obra do segundo divide-se entre a ficção curta de carácter quase ensaístico, a poesia e o teatro (com a esplêndida peça «O Corpo de Helena»). Tendo vivido os últimos anos na Turquia, PJM regressa agora com dois novos livros, os poemas de «O Tabaco de Deus» e a ficção «O Mal». Confirma-se no primeiro dos títulos o estatuto problemático da poesia de Miranda, que neste livro se revela uma decepção, incapaz de jogar com o estatuto de «exilado» de forma interessante, enquanto volta a encenar uma cansativa arrogância tributária de Jorge de Sena. «O Mal», pelo contrário, enquadra-se perfeitamente no ciclo de «novelas» que se iniciou com «Um Prego no Coração» (1998), a que se seguiram «Natureza Morta» (1998) e «Vício» (2001). Esta (por agora) tetralogia parte de um determinado momento da existência de criadores portugueses de oitocentos – Cesário Verde, Domingos Bontempo, Antero de Quental e Camilo Pessanha – para interrogar noções como as de talento, pátria e destino. São, nesse sentido, «ficções portuguesas», embora as influências literárias maiores sejam estrangeiras, particularmente alemãs. Até porque Paulo Miranda não usa o tema português para profissões de fé patrióticas ou formas nebulosas de saudosismo, iberismo e outras filosofias de recurso, antes critica, de forma aliás dolorida, a própria noção e situação da identidade nacional. Nalguns dos livros, por exemplo o primeiro, prevalecem as interrogações sobre a criação e sobre a natureza do artista; PJM acredita, de forma gloriosamente fora de moda, no génio, e tem do artista uma visão que, mesmo a contragosto, é de essência romântica, com todos os conflitos internos e os excessos daí decorrentes.
«O Mal» não tem verdadeiramente uma narrativa, embora nos apresente as reflexões de um português que vive em Macau e que tenta escrever um ensaio sobre Camilo Pessanha (PJM esteve nesse território, com uma bolsa do ICM). É verdadeiramente o diário de um ensaio que não chega a ser escrito, e a sua proximidade com a biografia de Pessanha é menos intensa do que noutros livros deste ciclo, nomeadamente do que no anterior, «Vício». Sobre Macau, visitada aqui nos últimos momentos da administração portuguesa, a visão é crepuscular e desenganada: prevalecem as negociatas e a venalidade, as seitas, o desmanchar de feira, e os últimos vestígios de uma cultura – a portuguesa – em vias de desaparecer. Afinal, que sabemos nós dos chineses após tantos séculos de convivência? Não produzimos sinólogos, mas ensinamos os nossos poetas aos chineses, como se eles não os tivessem, e há milhares de anos. A colonização, defende Miranda ecoando algumas das teses defendidas em «O Labirinto da Saudade», foi uma fuga à exiguidade territorial, que é a nossa condição histórica. A descolonização, quer a atabalhoada quer a «planeada», corresponde a um regresso à realidade, aliás logo seguida de uma «fuga para a frente» chamada Europa, solução milagrosa para a nossa solidão. É curiosa esta quase unanimidade de gerações diferentes na «autognose de Portugal» que Eduardo Lourenço empreendeu e que encontra uma espécie de discípulo cínico em Miranda. Para este, com o fim do Império ruiu a ilusão de uma identidade, ao passo que Lourenço apenas falava do modo como se inflaccionou o mito para escapar à realidade. Para PJM, o falhanço dessa identidade colectiva está relacionado com o fracasso da própria identidade pessoal, tema que o drama de Antero lhe tinha permitido explanar, e que desenvolve neste livro.
Camilo Pessanha era um homem marcado por uma «desvontade de viver» que só parcialmente pode ser atribuída ao males de amor. Paulo Miranda entende o seu exílio macaense como uma fuga para o fim do mundo, para um sítio que o próprio Pessanha chamava «o buraco», território onde, ao que parece, não escreveu nenhum poema (seria melhor dizer não compôs, dada a sua conhecida relutância em passar a escrito os versos). É evidente que nesta obra, como nas anteriores, PJM detecta todos os pontos comuns em termos de personalidade artística e pessoal com o autor glosado, fazendo de cada texto uma por vezes incomodativa autobiografia espiritual. Aqui é tematizado o «ódio ao mundo», mistura de tédio e desprezo que se adequa à lassidão macaense. Pessanha, diz PJM, foi para Macau «para odiar» e se escreveu pouco foi porque não amou o mundo. É mesmo tentado um paralelo (que me parece falhado) entre Pessanha e Pessoa, poetas «sem biografia» e que deliberadamente faziam mal a um corpo no qual não se sentiam bem, namorando assim a ideia de suicídio. O «mal de vivre» que é uma faceta regular das obras de Miranda acaba por ser um traço tardo-romântico de que o autor não se consegue libertar, e que se na ficção se alia com alguma felicidade a biografados conhecidos, na poesia aparece sempre com a sua carga de quase cabotinismo (Sena de novo). Diga-se, em abono da verdade e da literatura, que Paulo Miranda não adopta poses humanistas de Feira do Livro, e deixa claro que não gosta da Humanidade, que conceitos como a «arte» tanto o fascinam como o desgostam, e que reconhece muito mais facilmente a realidade do sexo do que do «amor». Nas relações com as mulheres, esta narrativa compraz-se numa visão quase pragmática (sexualmente) e perversa (intelectualmente). O «amor» parece ser um misto de ódio e mentira, para além de carnalidade, ajuste de contas, niilismo. Não é filosofia de prenda de Natal, mas sempre é melhor do que a filantropia das «boas pessoas». O autor é capaz de assumir uma postura de um enorme e sustentado snobismo intelectual, como quando diz que uma amante preferiu «vulgarizar-se, enveredar pelo talento», sendo certo que neste universo o «talento» só pode ser coisa de animal amestrado, e não o que é próprio de um artista. Nalguns momentos da narrativa, parece duvidoso que as relações com as mulheres sirvam ao protagonista como base hermenêutica legítima para o estudo de Pessanha, como nos quer fazer crer, mas essa talvez seja apenas mais uma das perversidade do texto.
Vale a pena insistir na dimensão filosófica da obra de PJM. Digamos que aqui tudo se joga numa luta mortal entre o idealismo e o empirismo (os termos são do próprio autor). Platão e Leibniz são convocados pelo texto, mas mais importante do que isso é o conceito muito próprio de «mal», que se encontra entre os domínios do estético e do ético. É verdade que PJM defende que o artista se torna na obra e que, por exemplo, escrever, é uma perda de identidade, pela qual, aliás, o autor anseia. Mas perante o «montúrio moral» que é Macau, o projecto de um ensaio literário sobre um tema exterior acaba por se tornar um ensaio íntimo, com uma rede ficcional mínima, constantemente boicotada pelo estilo quase de repórter com que se refere a realidade política. A personagem desta ficção – e por extensão tanto Pessanha como Miranda – partem do desânimo existencial para uma atitude de recusa do mundo, o que passa, evidentemente, pela recusa do quotidiano, da prole, mas também pelo abandono de ficções consoladoras como a arte ou a moralidade. Macau é assim, como se disse, um cenário essencialmente moral, «o outro lado do mundo», claro, mas também um falhanço feito à medida portuguesa e que, por uma vez, não acaba em tragédia mas em comédia: brilhante o final, com o episódio dos quadros falsos dos governadores portugueses, descerrar do pano de uma farsa que pretendemos que «acabou bem».
O regresso dos portugueses a Portugal tem nesta obra ao mesmo tempo um carácter literal e um evidente alcance metafórico, até porque se diz explicitamente que não há lugar de regresso, que «viver é sem regresso». Para parafrasear a quase insuportável e tão mal entendida frase pessoana, a única pátria que aqui é possível é a língua portuguesa, sobretudo porque foi a língua de, por exemplo, Camões ou Vieira. Além de que, como diz PJM desdenhosamente (já o dissera em «Natureza Morta») «Portugal já não existe». E assim, o protagonista já não acredita na língua e no seu futuro, como Pessanha ainda acreditava, porque a língua desaparecerá, não em Macau como em Portugal. O poeta da «Clepsidra», não obstante a profusa citação de poemas e de algumas cartas, acaba por ser menorizado no conjunto do texto, mau grado a decisão final do protagonista de «ser como Pessanha», para assim o compreender. «Vou a medo na aresta do futuro», dizia Pessanha, e assim o diz Paulo José Miranda, que não vê a luz em um país perdido.
