quarta-feira, janeiro 29, 2003


No meu tempo

Baptista Bastos, «No Interior da Tua Ausência», Asa, 208 págs.


Baptista Bastos é um personagem. Não apenas uma personagem, o «Bastos» criado pelo nosso humorista oficial, esquerdista à moda antiga, palrador um pouco tonto, homem de convicções, retrato satírico mas no fundo simpático de um velho jornalista que não dispensa, nas suas impagáveis entrevistas geracionais, o famoso «onde é que estavas no 25 de Abril?». No novo romance de Baptistas Bastos, «No Interior da Tua Ausência», essa pergunta é substituída por outro delicioso grito de alma: «Fernando Tordo, que é feito dele?». Estamos perante um livro assombrado pelo passado, que aliás evoca detalhadamente. Como sempre acontece nessas evocações (falámos aqui há semanas de uma «démarche» semelhante, embora não autobiográfica, no livro de Francisco José Viegas), há uma tendência para a acumulação um pouco cansativa de nomes e factos, ou melhor, de pedaços de um quotidiano que emprestam verdade histórica e emocional. Neste texto abundam referências a um Portugal dos anos 50, com tabernas e leitarias, bailes, padres, magalas, cinemas com plateia e dois balcões, cafés e tertúlias literárias, putas no Bairro Alto e no Cais do Sodré, casas de jogo, cabarés, eléctricos, a Emissora Nacional, «O Século», livros atrás do balcão na Livraria Barata, a Ferrari, Aquilino na Bertrand do Chiado, cineclubes, vida de bairro, tipógrafos , empregos de comércio, fadistas, funcionários públicos, mulheres em cabelo à varanda (estão a ver, não estão?). Há, como é evidente, um saudosismo nestas evocações, comum ao discurso desta geração. Viram a versão de «O Delfim», de Fernando Lopes? Como o meu colega crítico (de cinema) João Miguel Tavares teve oportunidade de escrever, era um filme saudosista, porque no fundo a angústia deixa saudades, a estroina é a estroina, e a juventude só se vive uma vez. Grande parte dos homens que eram mais que adultos na Revolução são por isso saudosistas, e embora se situem maioritariamente à esquerda, têm qualquer coisa de (por muito que isso lhes custe) salazarista. Pertencem a um Portugal que já não existe. O «herói» deste romance é perseguido pelas saudades e pelos remorsos, reencontra os velhos amigos e as raparigas do seu tempo, sofre com o envelhecimento próprio e alheio, e embora tenha, algo incongruentemente, apenas cinquenta anos, porta-se como se fosse um ancião (há neste romance mais alusões à idade do protagonista do que num filme de Clint Eastwood). «Sou um homem antigo», diz, e não se trata apenas da idade; esse «antigamente» marca a tal pertença a uma outra época, ao passado que, segundo um romancista inglês, é um país estrangeiro. Por isso o protagonista se assume geracionalmente dizendo «vivemos na memória», declarando-se doída mas orgulhosamente «fora de moda», pronunciando mesmo a expressão fatal: «no «nosso tempo». São memórias de um jornalista e escritor que é, também, Baptista Bastos, como é evidente em várias passagens. «Cada época morre com os que a viveram», lamentam-se autor e personagem, numa elegia por um mundo em que todos eram «contra» ou «a favor», o que dava uma transparência insólita ao mundo, e pregando, kunderianamente (quem diria?) a memória contra o esquecimento.
O pior é que o livro tenta uma desastrosa visita ao presente sociológico. Desastrosa diegeticamente e desastrosa literariamente, porque mesmo que BB alegue ironia não deixa de ser penoso para um leitor mais novo este mergulho na noite lisboeta e suas tribos, onde chamam «velhadas» ao nosso «herói», que se sente um estranho entre a multidão, é agredido, vai ao Kremlin (sim) e debita umas frases sobre a «religião do atordoamento». Tentando fazer-se de jovem, começa a noite gozado e acaba ganzado. Como maldade do autor à personagem, vale a tentativa, mas suspeita-se Bastos ou alguém da sua geração a fazer a mesma figura, e isso não é simpático de ler, porque a quase humilhação própria da sucessão geracional é um espectáculo sempre deprimente, só superado pelas tentativas de moralização por parte dos mais velhos face aos mais novos, que são sempre gente «sem sentido», «confusa», «alienada», e por aí adiante. Para além do discurso reaccionário segundo o qual a realidade actual não passa de «assaltos», «drogas» e «condomínios fechados» (leram bem). Para esta geração é um mundo hostil, que não compreendem, a cidade parece-lhes «abstracta», não «aberta ao encontro», etc., etc., numa litania cansativa. A detestável «superstição jovem» deva ser desmontada e criticada, não o pode ser em nome de uma outra juventude de quaisquer «anos de ouro». A geração do «25 de Abril» não é mais nem menos que a geração da «24 de Julho»; ambas têm os seus dramas, acrescidos do drama de ser português. Apresentar, como faz este romance, uma geração de «grandes destinos» num tempo «sem memória» não é intelectualmente sério, por mais que seja humanamente compreensível.
Há em todo o caso, uma vertente nada envelhecida nesta narrativa. Baptista Bastos pertence à corrente libidinosa do neo-realismo, que tem como nomes mais destacados José Marmelo e Silva, Urbano Tavares Rodrigues e, de certo modo, José Cardoso Pires. O nome de Roger Vailland, comunista e libertino, é uma das referências maiores. BB é, sem dúvida nenhuma, um «courrer à femmes», e este romance não poupa nas alusões sexuais. Homem de um tempo em que as raparigas acreditavam nos piropos, o protagonista tem no fundo saudades dessa época de repressão e sublimação, em que a dificuldade tornava tudo mais excitante. O nosso jornalista foi casado, mas a fidelidade não era o seu forte. Teve muitas mulheres, mas foram relações furtivas, sem amor. Como no verso menos subtil de David Mourão-Ferreira: «tanta cama numa vida». Agora continua lúbrico e idiossincrático, gosta de mulheres fartas, vê as raparigas passar, manda irreprimíveis galanços, tenta impressionar as moças com a sua cultura e o cabelo grisalho (ser anacrónico tem o seu quê). Mas há sempre uma espécie de sexualidade estadonovista, no fundo puritana, entretida em engates manhosos com miúdas chamadas Zélia, enquanto se pensa na Ava Gardner. Uma cultura bizarra de candura e ordinarice, romantismo e pensões. O protagonista é ainda um sedutor, mas um sedutor melancólico: há mesmo uma tentativa insólita com uma mulher da limpeza, o passo mais patético do livro. Não se chega ao erotismo pífio de Urbano Tavares Rodrigues, mas há um lirismo sexual que não é do mais fino bom gosto, como se no fundo a sexualidade fosse uma coisa não certamente «pecaminosa» mas uma espécie de pequena distracção triste, como o álcool ou a política. É o tipo de homem (a personagem) que chama às mulheres«coisa boa», e está tudo dito. Reconheçamos, no entanto, que é notável (e reconfortante) a libido que este livro transpira, a permanência viva do desejo que é também uma manifestação obviamente estética. Mas quando se chega ao sexo propriamente dito, é tudo um bocado embaraçoso. Imaginem Salazar a dar uma queca.
Há também, como é óbvio, o estafado imaginário anti-fascista, e em particular o imaginário comunista, com Júlio Fogaça, Joaquim Namorado, Orlando de Carvalho, Adriano Correia de Oliveira, o «Avante» clandestino, et coetera. Esse imaginário da resistência, que em 2002 ainda remói frases sobre a PIDE e tem nostalgia dos cantores de intervenção, é pelo menos tão pateta como os «alienados» do Kremlin, ou não será? (e sobre uma discoteca chamada Kremlin haveria com certeza gostosas análises a escrever). É a voz e a cabeça uma geração oprimida com a falta da opressão antiga (Bastos ficou famoso por comparar desfavoravelmente Cavaco com Salazar). Com a liberdade acabou o tormento mas também a cumplicidade (e a amizade é um dos temas centrais de BB). Homens de uma geração presa no «Antigo Testamento» dos seus verdes anos antifascistas, revivem mentalmente uns paradoxais «dias felizes» agora esfumados. Por isso essa geração refugia-se na noite, nos copos no British Bar, no Jamaica e outras flores, rodeados de meninas usadas, largando tiradas políticas, falando em Io Apolloni (é verdade) e criticando os que «rezaram Marx em vez de o ler» (mas imaginam o Bastos compulsando a «Contribuição à Crítica da Filosofia do Direito de Hegel»?).
O nosso jornalista sem nome divide os entretenimentos entre duas mulheres, uma amiga sexual e uma jovem jornalista da LUSA que o acha muito «sui generis» e o incita: «devias escrever tudo isso», o que é no fundo a origem ficcional deste romance. Tendo sido deixado pela mulher e perdido um filho, é um homem mutilado, embora não vil (palavras do próprio), «entre enfermo e vencido», deambulando pela cidade e pela vida entre a agressividade e a fragilidade, entre o medo e a decadência. É uma personagem afectivamente avara, um homem dominado pela perda («a vida é perder amigos») e pela solidão (muito bem dada a solidão doméstica). Não sabe nada e não sente verdadeiramente quase nada. É sobretudo um homem obcecado e obsessivo, sem esperança, preso na recordação, que no final acaba por ser capaz de se comover, talvez de se apaixonar, embora o final deixe a entender uma tragédia que não anda longe de um livro de Drieu La Rochelle, «Le Feu Follet» (BB não esconde a sua admiração, paradoxal mas justa, pelos grandes escritores fascistas).
«No Interior da Tua Ausência» é um livro de memórias disfarçado de romance, e um lamento com um pretexto ficcional: veja-se a significativa oscilação narrativa entre a primeira e a terceira pessoa. Não acontece muito, quase tudo não passa de observação e pensamento, as personagens secundárias são apenas esboçadas e têm nomes saramaguescos (Armínio Boloto, por amor de Deus?) e há um «subplot» policial que nada acrescenta. Em termos de escrita, encontramos passagens dispensáveis, sobretudo as mais líricas (sobre «a cor da ternura» ou o «interior da tua ausência»), um lado sonhador (incluindo um sonho em que se voa), certas divagações, certa simbologia fácil (a aranha que apanha a mosca, etc.), diálogos de filme português (não é um elogio), elucubrações civilizacionais, e outros defeitos. Baptista Bastos é um escritor realista, isto é, um camiliano (nenhuma contradição aqui) e as melhoras páginas reflectem, por exemplo, as várias cenas urbanas, os problemas com a bebida ou o relato, claramente vivido, da vida prostibular nos tempos da outra senhora (e de outras meninas). É, certamente, um realismo antigo e datado (v. a referência a Maugham), mas todos os realismos são datados. Não sendo, como se disse, um romance bem arquitectado, é um livro interessante, fluido, que se lê muito bem, e que denota que Bastos já cá anda há algum tempo. Um livro de uma honestidade tocante. Um livro triste, eivado de melancolia, representativo de uma esquerda pessimista e «moral», retratista de Lisboa como Diniz Machado, mas mais politizada, e por uma vez sem que o discurso moralizante se cristalize numa «moral da história». Não é uma obra quase perfeita, como «O Cavalo a Tinta-da-China», mas é um volume bem representativo para acrescentar à Biblioteca Baptista Bastos, agora editada pela Asa. Porque BB é mais do que o «cartoon» que as novas gerações conhecem. Não façamos dele a «consciência de uma geração», ou qualquer manobra assim «demodé», mas saibamos lê-lo como se deve ouvir, com curiosidade e respeito, uma pessoa mais velha.

quinta-feira, janeiro 23, 2003

Como os raros leitores deste obscuro site terão reparado, houve um hiato de um mês, que correspondeu primeiro a férias, depois a outros trabalhos literários. Segunda-feira retomo a publicação. Aproveito para dar as boas-vindas aos alunos da Prof. Laura Bulger, que teve a amabilidade de lhes recomendar os meus textos. Espero que não achem muito indigesto. Obrigado. PM