quinta-feira, fevereiro 27, 2003


Longínquo purgatório das recordações

António Mega Ferreira, «As Caixas Chinesas», Assírio & Alvim, 160 págs


António Mega Ferreira é bom em tudo o que faz. Na literatura, um dos seus muitos ofícios, foi autor de modelares crónicas e ensaios, de poemas bissextos mas fascinantes, e de ficções marcadas por uma grande atenção à escrita. O seu imaginário é de sofisticação mas também de tom emotivo. São cinco os seus livros de ficção, contando com os recentes A Expressão dos Afectos (uma colectânea virtuosa de contos e pastiches) e Amor (novela de grande intensidade mas que me parece insuficientemente trabalhada). Os livros anteriores são O Heliventilador de Resende, As Palavras Difíceis e este As Caixas Chinesas, cuja primeira edição saiu em 1988 e que foi agora reeditado. Na reedição, diga-se de passagem, caíram as dedicatórias. Coisas da vida. Mega usa um tom literário, formalmente cuidado e com evidente leituras, e consegue uma escrita quase intimista sem passar por um biografismo evidente. O que se persegue nestes contos é o território a que o autor chama o «longínquo purgatório das recordações».

O tema recorrente dos contos de As Caixas Chinesas é o regresso. Regresso físico que é também regresso afectivo: os protagonistas voltam a lugares que abandonaram e, no mesmo passo, revisitam o passado.

O primeiro texto, que dá nome ao livro, é uma narrativa proustiana de travo fantástico. As caixas chinesas são o enigma da infância e, em última análise, da própria existência. Há uma mãe possessiva e um pai indiferente, uma vida familiar feita de silêncios e não-ditos, um sentido miniatural dos interiores e do quotidiano, uma fragilidade receosa. Guardadas numa vitrina, as três caixas exalam um fascínio todo oriental, com histórias de dragões e imperadores; ficaram anos e anos sem nunca serem abertas, e o regresso a casa da personagem do conto é a tentativa de, ao fim de décadas, descobrir o segredo que essas caixas encerram. Como se fosse o Rosebud do filme de Orson Welles. Enigmas e recordações são uma só substância, a metaforização objectivizada dos mistérios da vida, e uma impossibilidade que o autor resolve em chave de maravilhoso. Assim como a mãe _ personagem dominadora _ contava imaginadas moralidades chinesas , o interior das caixas nunca será realmente desvendado, porque isso seria conhecer mais mistérios do que é permitido, e a fantasmagoria final acaba por parecer uma fantasia infantil sobre a impenetrabilidade do sentido.

Sobre o Vulcão apresenta-se essencialmente devedor de Yourcenar, um dos autores que Mega Ferreira mais cultiva. Há uma sofisticação culta que também não seria estranha a Colette: uma mulher sábia e mais velha, dona de gatos, ouvindo discos, bebendo chá e vinho do Porto, e dissertando sobre as paixões. Entre um vulcão, a solidão e o tédio, esta coquete trágica e operática ocupa-se da educação sentimental de um jovem, enquanto o marido não regressa.

A história mais banal do livro é a terceira, sobre «o maior espectáculo do mundo». Mais uma vez, temos um regresso: uma herdeira de província volta à quinta que abandonou quando era adolescente. Aos dezasseis anos fugiu com um trapezista de circo, com quem partiu para uma vida supostamente excitante, na verdade apenas nómada e marginal. Mas as coisas mudam, mudaram, e as reminiscências fazem-se reincidências, as vidas repetindo-se em terceiros. É, nesse sentido, a história mais portuguesa do conjunto.

O último conto, A Carta Azul, mantém o jogo de espelhos e de recorrências, desta vez em estilo cinematográfico cool. Martinho Dante é um vigarista que se aproveita dos descaminhos da História e dos sonhos das pessoas e das populações, mas que acaba um intrujão intrujado. É um jogo de recordações de infância, de dores biográficas e, como sempre, de mulheres fatais. O passado não parece verdade, é um palco de situações idênticas e identicamente perigosas: «A memória não é uma caixa de imagens (...). A memória (...) é apenas uma moldura que delimita o espaço de um quadro, mas que lhe ignora o tempo, que mistura as cores e as formas numa espécie de cadinho adormecido sobre o aparador da infância. E depois, um dia, a necessidade ou a imaginação despertam-na, e ela transforma-se em fábrica de sonhos e de ilusões (...), bruscamente as imagens todas rodopiam sobre si próprias e, quando de novo se aquietam (...) quem se atreve a garantir que tudo se passou assim mesmo (...)».

Quatro histórias tristes de um esteta com angústias.

terça-feira, fevereiro 25, 2003

Resposta ao inquérito do DN: Seria possível hoje um João Gaspar Simões? (versão integral)

1. Penso que João Gaspar Simões (ou, como se diz por vezes, «um João Gaspar Simões») não seria possível hoje. Desde logo, pela desvalorização progressiva do estatuto da actividade crítica: um crítico hoje, mesmo se publicar regularmente e for lido pelos do costume, não tem (felizmente) o poder de outras décadas. Com uma ou duas excepções, os críticos literários actuais não fazem e desfazem carreiras, e não creio que fazer e desfazer carreiras seja a tarefa da crítica. É impossível hoje a autoridade.

2. Não é hoje realista pretender acompanhar tudo o que vai sendo editado, como Gaspar Simões fazia (já então de modo impressionante), tendo em conta o enorme aumento do número de livros publicados. É impossível hoje a exaustividade.

3. Não existe hoje uma vida literária intensa (em termos de grupos, revistas, suplementos, tertúlias, polémicas), porque a própria literatura é apenas um produto, e não uma vivência. Ao crítico substituiu-se o comissário, isto é, o agente de marketing. É impossível hoje a intensidade.

4. Mas será que Gaspar Simões seria necessário hoje? Tenho conhecido quem detestasse Gaspar Simões, assim como tenho conhecido que ache que «faz falta um Gaspar Simões» (escusado será dizer quem é que também «faz falta»). Não tendo sido seu contemporâneo – enquanto leitor –, a minha visão do crítico pode ser ao mesmo tempo mais serena e mais injusta. Mais serena porque já o vejo historicamente, e não no campo das discussões e paixões do momento. Mais injusta, porque conheço essencialmente os seus textos dos livros (os vários volumes da Crítica, editados pela Imprensa Nacional), e em livro os textos de Gaspar Simões aguentam-se relativamente mal. Sou capaz de recorrer a essas compilações de artigos para identificar um autor hoje esquecido (e isso é importante como documento), mas raramente me serve como bibliografia passiva útil. Por um lado, a pressa jornalística nota-se terrivelmente no estilo, e o estilo é o que mais interessa em literatura. Por outro lado, se reconheço que JGS tinha a sua dose de «intuições» e de «premonições», raramente encontro nos seus textos a subtileza e a fulgurância que espero de um grande crítico (mas raramente encontro essas qualidades na crítica portuguesa em geral). Sobre Pessoa, por exemplo, foi pioneiro mas no fim de contas frustrante, até porque enveredou por um perigoso biografismo, no que realmente me aprece ser o engano mais grave do seu magistério. Não só aquilo que chamamos «João Gaspar Simões» se tornou desnecessário (não importa se bem ou mal), como o próprio trabalho do João Gaspar Simões 1903-1987 é em grande medida uma referência histórica, de uma necessidade portanto relativa e localizada.

5. Gaspar Simões teve aquilo que se chama o mérito objectivo: mais de cinquenta anos a pontificar, a ler tudo e a escrever sobre tudo. Tinha também assinaláveis virtudes pessoais para um crítico, como a honestidade e a independência (a coerência na crítica, francamente, parece-me uma virtude sobrevalorizada). Se me agrada alguma veemência na escrita, creio que a partir dos anos 60 essa veemência se tornou apenas ressentimento contra as novas correntes, estruturalistas na crítica e textualistas na poesia, o que torna muitas vezes penosos os textos desse período (os que conheço melhor, por sinal).

6. Tenho que admitir, porém, que não me são antipáticos os epítetos negativos que se colaram a JGS: pode ser importante uma abordagem «psicologista» se a obra sobre a qual se escreve for psicologista (como tantas ainda são); não me incomoda nada o «impressionismo», porque julgo ser característica mesma do textos jornalísticos sobre literatura (por oposição à crítica universitária); finalmente, o «juízo de valor» sobre a obra criticada parece-me um mecanismo útil, sobretudo se estivermos a falar da prática crítica de quem, como Gaspar Simões, tinha também uma obra «de criação» (como se diz).

7. Julgo que neste centenário devemos reconhecer o papel importante que João Gaspar Simões desempenhou, sem nostalgias nem azedumes. A cada época os seus críticos.

domingo, fevereiro 23, 2003


Literatura e fantasma

Miguel Tamen, «Artigos Portugueses», Assírio & Alvim, 160 págs., 14 €


Se tivesse que escolher dois ensaístas portugueses mais novos (com menos de cinquenta anos) não hesitaria: Abel Barros Baptista e Miguel Tamen. Sobre o primeiro, já escrevi nestas páginas. O segundo publicou agora «Artigos Portugueses», o mais acessível dos seus livros
O interesse de Miguel Tamen pela literatura portuguesa é, como nos diz o autor, «selectivo, ocasional e privado», não fazendo dessa actividade uma ocupação usual. Este livro recolhe dez textos sobre autores portugueses, publicados em revistas portuguesas e americanas, em obras colectivas, que serviram de prefácios ou foram conferências, e inclui também inéditos. Miguel Tamen é especialista em teoria literária, área em que publicou dois livros importantes, mas para iniciados: «Hermenêutica e Mal-Estar» (1987) «Maneiras da Interpretação» (1994), havendo duas obras mais recentes escritas em inglês (o autor é professor em Chicago).
Os textos são apresentados sem grande aparato académico (mas com notas e um índice onomástico e temático no final do volume) e por isso são de certo modo «dialécticas aplicadas de literatura», por oposição a «dialécticas teóricas da literatura» (cito, claro, Jorge de Sena). O fio condutor deste livro é uma visão da história literária portuguesa – do cânone – como uma entidade fantasmática, toldada por equívocos, deturpações, «misreadings». Há nesta obra, como nos é explicado num dos primeiros textos, dois tipos de fantasma: a teoria e a revisão. Numa «démarche» que deve alguma coisa a Harold Bloom e Paul de Man (que Tamen já traduziu), procura-se, através de uma boa base teórica – largamente implícita – fazer uma revisão da literatura portuguesa que não tenha muito a ver com os temas tradicionalmente sublinhados (a identidade, a História), e mais com a própria literatura. Estamos em plena geração do prazer do texto, exemplificada por ABB e Tamen, mas também por Luísa Costa Gomes na ficção (na poesia a questão é menos evidente). Tamen interessa-se pelo «excepcionalismo português», ideia mítica que ensombra desde logo a leitura canónica de Camões, mas que tem curiosos prolongamentos para autores mais recentes.
Autor de selecta, de estudo obrigatório, mas também autor oficial porque sempre na boca do Poder, Camões tem de ser de certo modo resgatado pela e para a literatura. Não precisamos de insistir nos núcleos temáticos «patrióticos», não apenas porque sofrem ao mesmo tempo de evidência e equívoco, mas sobretudo porque há leituras muito mais proveitosas do poeta, longe da hipérbole e do panegírico, de cunho aliás marcadamente extra-literário. Camões, e a sua épica em particular, não é documento de nada, diz-nos Miguel Tamen. A sua Musa não é a pátria ou o Gama, mas a Literatura (perdão pela maiúscula), como comprovamos neste magníficos versos: «Aqui, minha Calíope, te invoco / Neste trabalho extremo, por que em pago / Me tornes do que escrevo, e em vão pretendo, / O gosto de escrever, que vou perdendo». Haverá depois reverberações de Camões, e da ambiguidade que causa nos poetas, em autores como Cesário e Pessoa, que Tamen escalpeliza com finura. É por isso que um «mal entendido filológico» fará da frase pessoana «a minha pátria é a língua portuguesa» um prolongamento pateta da desastrada leitura camoniana. Pessoa, aliás, gera imensos equívocos, como fica demonstrado numa desmontagem da carta sobre a origem dos heterónimos.
Tamen – como Abel Barros Baptista, de resto – adora análises atinentes a figuras de estilo e outros truques da linguagem, entretém-se a desvendar analepses, prosopopeias e quiasmos, não se ficando pela paráfrase, mas investigando, com desarmante precisão, o miolo dos textos. Na prosa narrativa, ensaia sobretudo aproximações de narratologia, estudando o estatuto polimorfo do narrador. É por isso normal que comece pelas «Viagens», de Garrett, que caracteriza como «literatura de quarto» e um livro com «muito pouca terra». Ou seja: esqueçam a Joaninha dos olhos verdes, esqueçam Santarém, esqueçam os barões; as «Viagens» é um exercício de narração que tem pouca ligação à «realidade», noção que neste livro acertadamente se contesta a cada passo. Assim também «A Cidade e as Serras» (obra muito bem analisada por Ana Nascimento Piedade em «Ironia e Socratismo em A Cidade e as Serras); o semi-póstumo de Eça não é um livro sobre «o campo» e «a cidade», oposição dual, simplista, mas um jogo sobre as suas personagens principais, e uma intrincada rede de ironias e cepticismos. Tamen introduz conceitos decisivos como «catástrofe» ou «monumento-caricatura», sobre os quais não posso aqui discorrer mas que nunca são conceptualizações estéreis, antes enormes contributos para a compreensão do texto. Digamos que essa é a grande novidade deste ensaísta, um pós-derrideano assumido mas que usa a desconstrução com descontracção.
Na verdade, Miguel Tamen consegue conjugar humor e erudição em textos que são um prazer intelectual raro na ensaística portuguesa, em geral vinda de recenseadores hebdomadários como este que aqui escreve e de mestres e doutores enfadonhos e inimigos de língua portuguesa. Há uma dimensão evidente de «aventuras da interpretação» neste livro, feito de leituras muito sabedoras e subtis de textos já muito estudados. A interpretação é, com certeza, o interesse maior deste livro, mas porque serem também pequenas aventuras é que temos tanto gosto em ler os textos. O autor dedica um texto a M. S. Lourenço, exemplo de um espírito distinto e sofisticado, mas Tamen, ao contrário deste e doutros respeitabilíssimos ensaístas, tem também uma faceta irónica - talvez de origem genética - que nestes textos é uma particular delícia. Não espanta por isso que se meta, provocatoriamente, com as «almas frágeis que frequentam a universidade», e a quem não recomendamos, em geral, este livro.
Há um texto de «Artigos Portugueses» que me parece uma obra-prima, e faz parte dos melhores ensaios da última década, com, digamos, o texto de Helder Macedo sobre o (falso) platonismo em Camões ou o de João Barrento sobre a melancolia na poesia portuguesa recente. Nem por acaso, é um texto sobre o qual escreveu o já citado Abel Barros Baptista, defendendo-o das naturais incompreensões que gerou. Esse texto – «A Poesia» – foi prefácio às obras completas de Alexandre O’Neill, na Assírio & Alvim. O prefácio mais «sui generis» que li nos últimos anos. Fiel ao seu título, é da poesia que se trata nesse texto, que mais uma fez liberta a literatura de uma vocação redundante, descritiva, tendo em vista a «vida real», e a faz matéria muito mais interessante: palavras (apenas palavras), alguns versos, aptos para fazerem sentido para nós, como as adivinhações para quem nelas acredita. Perante umas obras completas, mais fica a ideia que só lembramos uns versos de cada poeta, um pouco ao acaso, até porque a maioria dos versos de qualquer poeta «nem para atacadores», como diz brilhantemente O’Neill. Partindo de um poema em concreto, um que se refere supostamente à Avenida. da Liberdade (e que diz muito a Tamen), demonstra-se que o poema não diz respeito à «Avenida da liberdade», não é uma injunção (nem autor nem leitor são parvos), não se refere afinal ao mundo mas limita-se a um astucioso alinhamento de frases. A poesia «diz coisas», mas num sentido tão especial que Tamen duvida mesmo que se trate do que habitualmente designamos por «linguagem». Em resumo: um desmancha-prazeres, este ensaísta. Os poemas de O’Neill, diz-nos parafraseando o vate lisboeta, são uma questão que o poema tem consigo próprio, assim como, por exemplo, certos sonetos tratam sobretudo da forma soneto. A poesia «pobre» de O’Neill trabalha com clichés, um dos quais é a ilusória e frustrante relação com o mundo. Fugindo daquilo que Tamen chama «assuntos gerais da poesia» (ou seja: «raivas, amores e a identidade nacional»), essa poesia é bem mais rica do que a praticada por aqueles a quem o nosso ensaísta chama «baladeiros audazes» (estará a pensar nos mesmos que eu?).
«Artigos Portugueses» é por isso uma espécie de dicionário das ideias recebidas (dos clichés) como o que Flaubert escreveu, apostado a «desmistificar» certas ideias da literatura portuguesa, mas sabendo que «desmistificar» é também um cliché. Um livro divertido, imensamente inteligente e absolutamente necessário. E também uma desmontagem de recepção romântica da literatura: «É sabido que no pior dos casos, um crítico é alguém que lembra dolorosamente a terceiros que um casaco que viram de passagem numa montra e por que se apaixonaram sem remédio é afinal feito de um material pouco nobre» (pág. 114). Teoria literária «ad usum delphini»? Com certeza, mas para crianças de muito alimento.

Acontece: a megera com quem casámos

1. O senhor Ministro da Presidência – não exactamente a mais subtil das criaturas – dedicou as suas mais recentes declarações fogosas e insensatas ao programa Acontece, da RTP 2. Não vale a pena recordar os exactos termos do disparate ministerial. Mas vale a pena meditar sobre a reacção a essas palavras. O país cultural, como seria de prever, rasgou as vestes. Eis a «direita» contra a «cultura», proclamaram, e não faltaram indignações, solidariedades, e promessas de abaixo-assinados. Esclareço que não sou contra a existência de um canal público; não sou contra a existência de um programa cultural num canal público; não sou contra a existência do Acontece. Mas trata-se de um programa com imensas fragilidades, que não podem ser branqueadas com solidariedades corporativas e ideológicas. É por isso importante que se leia nesta indignação dos intelectuais face a uma possível morte do Acontece um sintoma do meio cultural português, de que o dito programa é, aliás, espelho. Vejamos brevemente porquê.

2. O Acontece apresenta-se como aquilo que vulgarmente se chama um «magazine cultural»: diariamente temos um apanhado de lançamentos de livros, peças de teatro, exposições, e assim por diante. Há também entrevistas, uma montra de novidades, e críticos de áreas específicas. Muito bem. Mas há que ver o programa para perceber como uma ideia sensata se torna numa lamentável salada russa. Em primeiro lugar, a importância relativa de cada evento: o Acontece é capaz de dar os mesmos três minutos (e o tempo em televisão é precioso) à exposição Bacon em Serralves e ao lançamento de um qualquer livro de um sonetista nortenho entrado na idade. Em segundo lugar, no Acontece tudo é bom, sobretudo se for português ou «lusófono»: só há bons escritores, bons realizadores, bons pintores, bons encenadores, bons músicos. Em terceiro lugar, existe uma descabelada quota africana, através da qual entram no programa todos os subprodutos dos PALOP, escamoteando a (ainda) relativa raridade de artistas significativos nesses territórios. Em quarto lugar, as entrevistas são feitas num estilo de ignorância crassa e de parvoíce descontraída que faz Bernard Pivot parecer o mais sofisticado e profundo entrevistador cultural do mundo (a coisa melhora significativamente quando não é Carlos Pinto Coelho a conduzir o programa). Em quinto lugar, o papel dos críticos, em vez de ser autónomo e directo, é enquadrado muitas vezes por um contexto de perguntas inanes que retiram qualquer possibilidade aos esforçados colaboradores de dizer coisas interessantes. Em sexto lugar, a discussão contraditória, a polémica e a agressividade (partes integrantes e essenciais da cultura) são reduzidas, higienizadas, censuradas. Em sétimo lugar, o establishment cultural é reproduzido quase na íntegra, em vez de se procurar novos autores ou protagonistas que não digam sempre o mesmo, do mesmo modo. Em oitavo lugar, as modas têm um enorme peso, levando à atribuição de tempo de antena a produtos culturais que não duram mais que os quinze minutos (ou quinze dias) do seu sucesso. Em nono lugar, cultiva-se um enjoativo discurso «poético» sobre a cultura (e a literatura em particular), depois estranhamente conjugado com comentários de badana ordinária, de professor do liceu sem vocação. Em décimo lugar, há tentativas de encenação televisiva (de poemas, ou mesmo de livros) que, com excepções (Natália Luisa é uma), produzem dos momentos mais kitsch e grotescos da televisão portuguesa. A lista podia continuar.

3. O Acontece também tem momentos razoáveis (estou-me a lembrar da crítica de música clássica ou os mini-debates sobre temas de ciências sociais), mas globalmente é um mau programa. Claro que neste domínio pouco estimado mais vale um produto mau que produto nenhum, porque sempre é uma maneira de as pessoas que não têm contacto com os eventos da cultura estarem pelo menos informadas (embora não criticamente informadas) do que se passa. Um programa destes dirige-se a um público não-especializado, a pessoas que vivem em grande parte fora dos grandes centros e que não têm outra fonte generalista de acesso à cultura. É por isso que me parece que o magazine diário não deve ser de modo nenhum extinto. Mas não tenhamos dúvidas: o Acontece continuará a ser um mau programa: depois de quase duas mil emissões, é evidente que não vai melhorar, porque é um produto fossilizado que corresponde à mentalidade saloia da cultura portuguesa, uma mentalidade deslumbrada e pouco exigente. Somos um país que tem Florbela Espanca no cânone.

4. Mas não pode haver bons programas culturais ou literários na TV? Não só pode como já houve: feitos pelo charmoso David Mourão-Ferreira, o idiossincrático Joaquim Manuel Magalhães, o aprazível Álvaro Manuel Machado, e outros. Recentemente, os programas de Francisco José Viegas eram exemplo de uma presença dos livros na televisão produzida de forma viva, cativante, inteligente. Na área dos programas culturais genéricos, temos na SIC-Notícias (o melhor canal televisivo português) o Sociedade das Belas Artes: visualmente moderno, feito por gente culta e articulada, tematicamente variado, com uma boa agenda e susceptível de levar as pessoas aos eventos (só não se percebe o facto de apresentado por uma starlette, a não ser pelo seu estatuto de Esposa de Rorty). Para citar os imbecis, a cultura não tem de ser «chata». A cultura só é «chata» quando integrada num meio de seriedadezinhas bacocas, amigalhaços ideológicos, medíocres com o rei na barriga, gente inócua ou timorata ou bocejante. Que é a gente que em geral temos na cultura.

5. Acabar com o Acontece? Seria estúpido e contraproducente. Mas não façamos da megera com quem casámos a Carla Bruni do bairro.

(O Independente)

quinta-feira, fevereiro 20, 2003

UMA ANTOLOGIA COM MANUEL ALEGRE DENTRO

«EnCantada Coimbra», Dom Quixote

Há, como se sabe, dois tipos de antologias: as antologias com Manuel Alegre dentro e as antologias sem Manuel Alegre dentro. «EnCantada Coimbra» pertence à primeira espécie. Incapaz de perceber que possa não fazer parte do cânone futuro, quando já ninguém souber o que significa «stencil» e «grupo de Argel», Alegre poderá ficar reconfortado pela sua ampla presença numa antologia da paróquia. Paróquia é o termo mais apropriado a Coimbra: a Universidade emprestou a Coimbra de uma série de vícios e tiques que as décadas não apagaram, como explicou Abel Barros Baptista num divertido texto recolhido em «A Infelicidade pela Bibliografia». Esta colectânea pode ser indispensável para quem aí viveu ou estudou e utilize com olhos rasos de água a palavra «mocidade», mas tem um interesse literário bastante mais limitado. A selecção vai de Almeida Garrett aos novíssimos, e recolhe textos sobre o Mondego, a Quinta das Lágrimas, os choupos, o Penedo da Saudade, as festas da Raínha Santa, os choupos, as ruelas, o Arco de Almedina, a Torre de Anto, os choupos (estão a ver a ideia), embora, diga-se de passagem, alguns poemas não tenham nada a ver com Coimbra, a não ser, eventualmente, terem sido rabiscados num intervalo dos Encontros de Fotografia.
As organizadoras do volume – Adosinda Providência Torgal e Madalena Torgal Ferreira - organizaram doze núcleos temáticos, do real ao imaginário, passando por Coimbra como metáfora, a memória dos verdes anos, e, vejam lá, a «intimização crepuscular», mas é sobretudo notória a presença da academia e a litania de lacrimosas nostalgias.
Os poetas? Gonçalves Crespo, Fausto Guedes Texeira, João de Deus, Antero, Pessanha, Pascoaes, Régio, Afonso Duarte (que pelos vistos toda a gente conhece de cor), Nemésio, Torga (fraquinho), Edmundo de Bettencourt, Carlos de Oliveira, Manuel Alegre, Alberto Pimenta, Nuno Júdice, João Miguel Fernandes Jorge, Ana Luísa Amaral, Fernando Pinto do Amaral, poetas mais jovens (o melhor dos quais é Luís Quintais) e cinco ou seis desconhecidos (e com boas razões para continuarem assim). Há também poetas que o cânone não favoreceu como Cabral do Nascimento, Casais Monteiro, Alberto de Monsaraz, João José Cochofel, Francisco Bugalho, e o mítico António Sousa. O tom persistente é o de trovas, toadas e baladas, poemas próprios para serem recitados e cantados, mas menos interessantes em página.
Momentos altos? Um atroz poema vintista de Garrett, os cansativos romances históricos, Alberto de Oliveira a chamar «Byron do sul» a António Nobre, um poeta que se refere a Torga como «firme menir», penosos versos de circunstância de Sena sobre Paulo Quintela, toda a secção sobre a Raínha Santa, o semi-secreto poeta António Arnaut, Eugénio de Castro vendo a linda Inês como uma lésbica rebolante (palavra de honra), os poemas sobre costureiras, lavadeiras e – sim – violeteiras, e inúmeros versos geracionais em forma de piada privada e chalaça de café, em geral sátiras sobre lentes e demais folclore. Sem esquecer todos os poemas que começam com variantes de «ó lágrimas, correi» ou usam a palvra «quimera». Isto é, um apanhado das fragilidades históricas da poesia portuguesa Escapam, como seria de prever, a secção sobre Pedro e Inês (com uma passagem de «A Margem da Alegria» de Ruy Belo), excertos da pungente, triste e zangada «Carta a Manuel» de António Nobre, ou os magníficos quatro poemas de Fernando Assis Pacheco,
As organizadoras já tinham coligido os poemas em «Lisboa com seus Poetas» (2000), e »Ao Porto» (2001), ambos editados pela D. Quixote (a do Porto, parece-me, bastante superior em termos de critério). Por qualquer razão, as antologias temáticas funcionam sempre pior, talvez porque a boa poesia resista a uma organização temática ostensiva. Seja como for, o livro essencial sobre Coimbra continua a ser as «Memórias da Alegria», de Eugénio de Andrade (que de resto não morre de amores pela cidade). O volume traz algumas fotos (dispensáveis) de locais conimbricenses e índices bons e completos.
Quanto a Manuel Alegre, vale sobretudo pela sua vertente musical, mas em lirismo de pataco e claramente de segunda linha. Não faz parte do oiro da poesia portuguesa. O que não significa que não seja um dos melhores poetas da paróquia.
PEDRO PAIXÃO

Apesar de se considerar um «escritor relutante», Pedro Paixão escreve incessantemente sobre o acto de escrever, como se fosse um vício. Depois dos quatros livros que constituíram o ciclo das cidades – marcado indelevelmente pelo que chama «o Setembro do pavor» - Paixão arruma a casa publicando cinco textos antigos em Cala a Minha Boca com a Tua e recolhendo as suas crónicas do PÚBLICO em Girls in Bikini. A próxima obra, anuncia, vai chamar-se Xanax. O que faz todo o sentido: existe um evidente sofrimento nestes textos, que não é apenas «literatura», termo aliás pouco estimado pelo autor. Há também imensas fragilidades, mesmo em termos de escrita, mas são fragilidades expostas (como se diz de uma fractura), fragilidades honestas, e que não tentam passar para a ficção consoladora ou a alegoria humanista. Até porque ficção é coisa que nem há nestes verdadeiramente textos: apenas um fio ténue, suficiente para confundir, provocar, mas sobretudo para puxar, de modo ostensivo, a «vida» para o «texto». Ou vice-versa.

(Um erro técnico eliminou o resto do texto. Decorrem operações de salvação.)

A Escada de Jacob

Agustina Bessa-Luís, «O Livro de Agustina», Três Sinais, 160 págs.


Agustina não pára. Com oitenta anos feitos há poucos meses, lançou dois romances (partes um e dois da deliciosa trilogia «A Alma dos Ricos»), mais um livro sobre azulejos, outro sobre viagens e aeroportos e uma fotobiografia. Para a mente criativa e com saúde a velhice é apenas um ponto da existência, e não um martírio. Mas parece blasfémia falar de «velhice» a propósito de alguém que é capaz de, não apenas na obra mas em entrevistas ou na conversa privada, dar a resposta ou dizer a frase mais original e indisciplinada da pequena ou grande plateia. «O Livro de Agustina» é essencialmente uma fotobiografia comentada, visto que o texto é demasiado breve para ser considerado uma autobiografia. Trata-se, desde logo, de um objecto magnífico, na linha do que a editora Três Sinais nos tem habituado: lembremos um outro livro de Agustina, sobre Paula Rego, ou a versão comentada dos vários livros da Bíblia. O responsável gráfico por estes edições é Luís Miguel Castro, cujo trabalho conhecemos dos catálogos da Cinemateca (convém lembrar que um dos sócios da editora, Manuel S. Fonseca, foi crítico de cinema, e com a Três Sinais procura certamente redimir os seus actuais e gravíssimos pecados como programador de telelixo). Às fotos de Agustina, familiares e amigos ao longo dos anos, juntam-se também imagens de lugares importantes biograficamente (as terras do Douro), capas de livros e traduções («A Sibila»), de quadros (Vieira da Silva), de cartas (Pascoaes, Mário Botas) e outros documentos, fotos de outro escritores (Sophia e Eugénio), de recordações (uma boneca), dactiloscritos e manuscritos (impressionantes) e também ilustrações mais poetizadas (folhas, um pião). As fotos são de Luísa Ferreira e do espólio da família. Desta obra, proibitivamente cara, fizeram-se três mil exemplares, todos assinados pela autora, o que faz do livro uma preciosidade. O meu, a propósito, é o 1172.
O texto de Agustina desdobra-se entre fragmentos memorialísticos, as imprescindíveis divagações e comentários às fotos. Alguns destes últimos são particularmente brilhantes, e lembram os textos curtíssimos que escrevia há uns anos para «O Independente» (na legenda de uma foto com umas escadas antigas: «as escadas são mastros de solidão»). Há no entanto um caso em que a legenda identifica uma das personagens, factualmente, como «Agustina», dando ideia portanto de ter sido escrito por mão de terceiro, o que é um pouco confuso. Há também algumas descontinuidades e repetições, mas nada de anormal na autora. O texto começa por recordar a família, os avós, envoltos na bruma de um passado nortenho. O pai é uma personagem central de afectos e fascinações: «brasileiro» torna-viagem, jogador inveterado, republicano, personagem romântica por excelência. A mãe aparece como uma figura mais apagada, e é mesmo comparada à esposa de «Casa da Boneca», de Ibsen. Mas há também uma tia em que inspirou a «sibila», e uma galeria de outros secundários. Agustina sente que faz parte desta «gente do Douro», afirmando: «o Douro é a província capaz de paixões governadas e desgovernadas que há em Portugal». Camilo concordaria. O segredo da sua arte, alvitra, estará nessa Amarante onde «tudo se aprende e nada se condena», e por isso a sua literatura é um genuíno produto da terra em que nasceu, como o vinho verde «que embriaga mas não alegra». Criança, Agustina isola-se nos livros, num cinema que o pai explorava, no exemplo de uma professora. Sente-se com vocação para a escrita, e o pai apoia a sua carreira literária, por puro instinto de jogador. Escreve historinhas e aos quinze anos produz os seus primeiros romances, não publicados, «Ídolo de Barro» e «Água da Contradição» (título magnífico e elucidativo). Lê os franceses, e em especial «Madame Bovary», e mais tarde os romancistas russos, dos quais diz serem todos dignos de serem convidados de sua casa, e finalmente os grandes alemães, de Jean Paul e Musil e Broch. Entretanto peregrina pelas terras do Norte: Amarante, Gaia, Maia, Póvoa, Vila do Conde, e também por Coimbra, onde decide casar, diz, para evitar distracções (far-se-á justiça ao marido dedicado que tem sido Alberto Luís, uma vida dedicada «ad maiorem Dei gloriam») e finalmente o Porto. A filha, Mónica, também merece uma referência «en passant», como se Agustina reproduzisse a «frieza meio arrependida» com que se refere à sua própria mãe. A partir de certo momento, e foi bem cedo, tornou-se claro: «sou uma escritora». E isso prevalece sobre tudo o mais. Escreve «Mundo Fechado» (1948) e envia exemplares para os quatro grandes: Ferreira de Castro e Aquilino, que lhe respondem cordialmente e que ficarão sues amigos; Pascoaes, cuja carta de resposta lhe chega já dois anos depois da morte do autor de «Marânus»; e Torga, que, como era previsível, é pouco expressivo, o que irrita a autora, já então segura do seu génio. Coimbra, como não podia deixar de ser, não é para o seu feitio, embora se entretenha a ganhar prémios em jogos florais e à sátira em «Os Super-Homens» (1950). Reconhecendo o seu talento, muito leitoras acham-na «iconoclasta», bem como «cruel» e «perversa«, o que explicitamente recusa, embora mais à frente no texto afirme: «posso ser cruel, mas não hostil». Está consciente dos seus «admiradores», quer não o sucesso mas a glória. Escreve: «A Sibila» abriu-me as portas das letras, com a sua família sacerdotal, com os seus provincianos de carreira, os amigos da fraternidade e os amigos da onça. Fiz amigos e inimigos, comecei a viajar, a interpretar os sinais de esquerda e os valores simbólicos de direita. D’ Annunzio estava mal enterrado, Becket aparecia na forma inovadora duma estrela fixa, eu continuava a comportar-me como filha de Deus (...). Tinha a inibição do mal, que é própria do narcisismo profundo» (pág. 113).
Se há um aspecto algo surpreendente em Agustina é o seu gosto, ao menos em certa fase da sua vida, por encontros internacionais de escritores: É verdade que isso estava no espírito de «reconstrução« do pós-guerra, e que, convenhamos, o número de grandes escritores era mais elevado na Europa do que actualmente. Para Agustina esses fóruns representavam uma «Europa do Espírito», o que anda na linha da «Partido da Inteligência» proposto por um conhecido intelectual francês. Mas tem sobretudo a ver (e sei que estou a ser maldoso) com dois gostos muito concretos de Agustina: viajar e provocar. Por isso nos conta as viagens à Grécia (de que vem um pouco desiludida), a Itália (na peugada de Santo António) e ao Brasil (sociedade que só a pode encantar e, freudianamente, espaço paterno). Quanto à provocação, temos o episódio com Anna Akmatova, em que, à pergunta feita pela grande poeta russa sobre como era mais ou menos o seu estilo, Agustina respondeu «é mais ou menos como Dostoiveski». O topete desta senhora é uma maravilha. Esse episódio não vem nesta fotobiografia, mas há referência a outros escritores, algumas acompanhados de fotos: Camilo Jose Cela, Julian Marias, Alain Bosquet, Borges e Yourcenar (com quem a têm comparado os que não vivem sem comparações). E há os sempre proveitosos aforismos, como «a tentação tem sempre um carácter sacerdotal» ou a arte poética «o que me interessa não é o que eu gosto». Bem como pequenos achados, por exemplo a consideração de um «erotismo da infelicidade», a concepção da liberdade como uma forma de epilepsia ou a definição dos amigos como «convidados celestes». É pena o enfoque excessivo em «A Sibila», que não é o seu maior romance, e referências quase inexistentes a Manoel de Oliveira ou à Revolução, embora sobre um e outra saibamos o suficiente de outros textos.
Há sempre um «eu» nas obras de Agustina, que apresenta a soberania total do escritor sobre todos os outros papéis narrativos ou lógicos, como o narrador; mas neste livro o «eu» é mais modesto e concreto, recordando a «idade de prata» na Póvoa (a praia, o casino) ou a vivência proveitosa da pasmaceira em Esposende, sozinha a escrever. É também curioso que de si mesma em nova diga que era antipática e demasiado séria, o que talvez fosse um truque, e bonita, o que as fotos desmentem. Há sempre artifícios na escrita, e a escrita mais artificiosa é a autobiográfica, e é curioso deslindar as pistas do que fica quase por falar: o «Douro hierárquico» e das flutuações económicas que introduz nos seus romance uma variação pessoalíssima da luta de classes; ou o meio literário que a atrai e repele, mas com o qual ajusta contas em, por exemplo, «Ordens Menores». Para Agustina existe uma moral, a moral da literatura, e apesar de ser, exteriormente, apenas uma burguesa irónica e nada indiferente aos interesses seculares, é na verdade uma grande solitária. Há talvez por isso uma espécie de tom ausente, contrariado, nalgumas passagens deste livro, que raramente admite uma qualquer intimidade, embora convoque episódios menos conhecidas, como a vocação da pintura, ou confesse que considera o conto «Um Inverno Frio» uma das usas obras mais perfeitas. Agustina tem, como explicitamente escreve, um amor pela vida «forte e generoso», mas é uma escritora de «sal e vinagre», e não do lado doce e amável da existência, razão pela qual tantos professam dificuldade em lê-la. Só em raros momentos, como no texto chamado «O Castanheiro do Gólgota» (recolhido em «Contemplação Carinhosa da Angústia», de 2000), abandona a distância para aceitar a pura emoção das grandes feridas. Nas outras vezes, é de preferência uma pitonisa divertida, rodeada de gatos, na sua casa impecavelmente mobilada. O que aos oitenta anos é mais do que merecido. Agustina conta, a certo passo, que na infância a chamaram para fazer parte de um «quadro vivo» do episódio bíblico da escada de Jacob, mas que se revoltou contra a impostura da teatralidade. Quando uma personalidade se exprime, mesmo Deus cede o lugar. Ainda hoje, como se disse, há várias correntes subterrâneas neste obra, feita, como a autora confessa, de palpites, embora palpites gloriosos e da consciência de que o mundo é um lugar extraordinário, propício ao sofrimento e à profecia. Não só do que está à vista vive a literatura. E depois é fantástico uma autora de oitenta anos dizer, a propósito de um qualquer assunto, que «qualquer dia» há-de escrever um livro sobre isso. A esta hora, aliás, já o deve ter escrito.