A Escada de Jacob
Agustina Bessa-Luís, «O Livro de Agustina», Três Sinais, 160 págs.
Agustina não pára. Com oitenta anos feitos há poucos meses, lançou dois romances (partes um e dois da deliciosa trilogia «A Alma dos Ricos»), mais um livro sobre azulejos, outro sobre viagens e aeroportos e uma fotobiografia. Para a mente criativa e com saúde a velhice é apenas um ponto da existência, e não um martírio. Mas parece blasfémia falar de «velhice» a propósito de alguém que é capaz de, não apenas na obra mas em entrevistas ou na conversa privada, dar a resposta ou dizer a frase mais original e indisciplinada da pequena ou grande plateia. «O Livro de Agustina» é essencialmente uma fotobiografia comentada, visto que o texto é demasiado breve para ser considerado uma autobiografia. Trata-se, desde logo, de um objecto magnífico, na linha do que a editora Três Sinais nos tem habituado: lembremos um outro livro de Agustina, sobre Paula Rego, ou a versão comentada dos vários livros da Bíblia. O responsável gráfico por estes edições é Luís Miguel Castro, cujo trabalho conhecemos dos catálogos da Cinemateca (convém lembrar que um dos sócios da editora, Manuel S. Fonseca, foi crítico de cinema, e com a Três Sinais procura certamente redimir os seus actuais e gravíssimos pecados como programador de telelixo). Às fotos de Agustina, familiares e amigos ao longo dos anos, juntam-se também imagens de lugares importantes biograficamente (as terras do Douro), capas de livros e traduções («A Sibila»), de quadros (Vieira da Silva), de cartas (Pascoaes, Mário Botas) e outros documentos, fotos de outro escritores (Sophia e Eugénio), de recordações (uma boneca), dactiloscritos e manuscritos (impressionantes) e também ilustrações mais poetizadas (folhas, um pião). As fotos são de Luísa Ferreira e do espólio da família. Desta obra, proibitivamente cara, fizeram-se três mil exemplares, todos assinados pela autora, o que faz do livro uma preciosidade. O meu, a propósito, é o 1172.
O texto de Agustina desdobra-se entre fragmentos memorialísticos, as imprescindíveis divagações e comentários às fotos. Alguns destes últimos são particularmente brilhantes, e lembram os textos curtíssimos que escrevia há uns anos para «O Independente» (na legenda de uma foto com umas escadas antigas: «as escadas são mastros de solidão»). Há no entanto um caso em que a legenda identifica uma das personagens, factualmente, como «Agustina», dando ideia portanto de ter sido escrito por mão de terceiro, o que é um pouco confuso. Há também algumas descontinuidades e repetições, mas nada de anormal na autora. O texto começa por recordar a família, os avós, envoltos na bruma de um passado nortenho. O pai é uma personagem central de afectos e fascinações: «brasileiro» torna-viagem, jogador inveterado, republicano, personagem romântica por excelência. A mãe aparece como uma figura mais apagada, e é mesmo comparada à esposa de «Casa da Boneca», de Ibsen. Mas há também uma tia em que inspirou a «sibila», e uma galeria de outros secundários. Agustina sente que faz parte desta «gente do Douro», afirmando: «o Douro é a província capaz de paixões governadas e desgovernadas que há em Portugal». Camilo concordaria. O segredo da sua arte, alvitra, estará nessa Amarante onde «tudo se aprende e nada se condena», e por isso a sua literatura é um genuíno produto da terra em que nasceu, como o vinho verde «que embriaga mas não alegra». Criança, Agustina isola-se nos livros, num cinema que o pai explorava, no exemplo de uma professora. Sente-se com vocação para a escrita, e o pai apoia a sua carreira literária, por puro instinto de jogador. Escreve historinhas e aos quinze anos produz os seus primeiros romances, não publicados, «Ídolo de Barro» e «Água da Contradição» (título magnífico e elucidativo). Lê os franceses, e em especial «Madame Bovary», e mais tarde os romancistas russos, dos quais diz serem todos dignos de serem convidados de sua casa, e finalmente os grandes alemães, de Jean Paul e Musil e Broch. Entretanto peregrina pelas terras do Norte: Amarante, Gaia, Maia, Póvoa, Vila do Conde, e também por Coimbra, onde decide casar, diz, para evitar distracções (far-se-á justiça ao marido dedicado que tem sido Alberto Luís, uma vida dedicada «ad maiorem Dei gloriam») e finalmente o Porto. A filha, Mónica, também merece uma referência «en passant», como se Agustina reproduzisse a «frieza meio arrependida» com que se refere à sua própria mãe. A partir de certo momento, e foi bem cedo, tornou-se claro: «sou uma escritora». E isso prevalece sobre tudo o mais. Escreve «Mundo Fechado» (1948) e envia exemplares para os quatro grandes: Ferreira de Castro e Aquilino, que lhe respondem cordialmente e que ficarão sues amigos; Pascoaes, cuja carta de resposta lhe chega já dois anos depois da morte do autor de «Marânus»; e Torga, que, como era previsível, é pouco expressivo, o que irrita a autora, já então segura do seu génio. Coimbra, como não podia deixar de ser, não é para o seu feitio, embora se entretenha a ganhar prémios em jogos florais e à sátira em «Os Super-Homens» (1950). Reconhecendo o seu talento, muito leitoras acham-na «iconoclasta», bem como «cruel» e «perversa«, o que explicitamente recusa, embora mais à frente no texto afirme: «posso ser cruel, mas não hostil». Está consciente dos seus «admiradores», quer não o sucesso mas a glória. Escreve: «A Sibila» abriu-me as portas das letras, com a sua família sacerdotal, com os seus provincianos de carreira, os amigos da fraternidade e os amigos da onça. Fiz amigos e inimigos, comecei a viajar, a interpretar os sinais de esquerda e os valores simbólicos de direita. D’ Annunzio estava mal enterrado, Becket aparecia na forma inovadora duma estrela fixa, eu continuava a comportar-me como filha de Deus (...). Tinha a inibição do mal, que é própria do narcisismo profundo» (pág. 113).
Se há um aspecto algo surpreendente em Agustina é o seu gosto, ao menos em certa fase da sua vida, por encontros internacionais de escritores: É verdade que isso estava no espírito de «reconstrução« do pós-guerra, e que, convenhamos, o número de grandes escritores era mais elevado na Europa do que actualmente. Para Agustina esses fóruns representavam uma «Europa do Espírito», o que anda na linha da «Partido da Inteligência» proposto por um conhecido intelectual francês. Mas tem sobretudo a ver (e sei que estou a ser maldoso) com dois gostos muito concretos de Agustina: viajar e provocar. Por isso nos conta as viagens à Grécia (de que vem um pouco desiludida), a Itália (na peugada de Santo António) e ao Brasil (sociedade que só a pode encantar e, freudianamente, espaço paterno). Quanto à provocação, temos o episódio com Anna Akmatova, em que, à pergunta feita pela grande poeta russa sobre como era mais ou menos o seu estilo, Agustina respondeu «é mais ou menos como Dostoiveski». O topete desta senhora é uma maravilha. Esse episódio não vem nesta fotobiografia, mas há referência a outros escritores, algumas acompanhados de fotos: Camilo Jose Cela, Julian Marias, Alain Bosquet, Borges e Yourcenar (com quem a têm comparado os que não vivem sem comparações). E há os sempre proveitosos aforismos, como «a tentação tem sempre um carácter sacerdotal» ou a arte poética «o que me interessa não é o que eu gosto». Bem como pequenos achados, por exemplo a consideração de um «erotismo da infelicidade», a concepção da liberdade como uma forma de epilepsia ou a definição dos amigos como «convidados celestes». É pena o enfoque excessivo em «A Sibila», que não é o seu maior romance, e referências quase inexistentes a Manoel de Oliveira ou à Revolução, embora sobre um e outra saibamos o suficiente de outros textos.
Há sempre um «eu» nas obras de Agustina, que apresenta a soberania total do escritor sobre todos os outros papéis narrativos ou lógicos, como o narrador; mas neste livro o «eu» é mais modesto e concreto, recordando a «idade de prata» na Póvoa (a praia, o casino) ou a vivência proveitosa da pasmaceira em Esposende, sozinha a escrever. É também curioso que de si mesma em nova diga que era antipática e demasiado séria, o que talvez fosse um truque, e bonita, o que as fotos desmentem. Há sempre artifícios na escrita, e a escrita mais artificiosa é a autobiográfica, e é curioso deslindar as pistas do que fica quase por falar: o «Douro hierárquico» e das flutuações económicas que introduz nos seus romance uma variação pessoalíssima da luta de classes; ou o meio literário que a atrai e repele, mas com o qual ajusta contas em, por exemplo, «Ordens Menores». Para Agustina existe uma moral, a moral da literatura, e apesar de ser, exteriormente, apenas uma burguesa irónica e nada indiferente aos interesses seculares, é na verdade uma grande solitária. Há talvez por isso uma espécie de tom ausente, contrariado, nalgumas passagens deste livro, que raramente admite uma qualquer intimidade, embora convoque episódios menos conhecidas, como a vocação da pintura, ou confesse que considera o conto «Um Inverno Frio» uma das usas obras mais perfeitas. Agustina tem, como explicitamente escreve, um amor pela vida «forte e generoso», mas é uma escritora de «sal e vinagre», e não do lado doce e amável da existência, razão pela qual tantos professam dificuldade em lê-la. Só em raros momentos, como no texto chamado «O Castanheiro do Gólgota» (recolhido em «Contemplação Carinhosa da Angústia», de 2000), abandona a distância para aceitar a pura emoção das grandes feridas. Nas outras vezes, é de preferência uma pitonisa divertida, rodeada de gatos, na sua casa impecavelmente mobilada. O que aos oitenta anos é mais do que merecido. Agustina conta, a certo passo, que na infância a chamaram para fazer parte de um «quadro vivo» do episódio bíblico da escada de Jacob, mas que se revoltou contra a impostura da teatralidade. Quando uma personalidade se exprime, mesmo Deus cede o lugar. Ainda hoje, como se disse, há várias correntes subterrâneas neste obra, feita, como a autora confessa, de palpites, embora palpites gloriosos e da consciência de que o mundo é um lugar extraordinário, propício ao sofrimento e à profecia. Não só do que está à vista vive a literatura. E depois é fantástico uma autora de oitenta anos dizer, a propósito de um qualquer assunto, que «qualquer dia» há-de escrever um livro sobre isso. A esta hora, aliás, já o deve ter escrito.