Hoje, às 18.30, na FNAC / Colombo, será lançado o meu livro de poemas «Eliot e Outras Observações», editado pela Gótica e apresentado pelo Prof. Fernando Martinho, da FLUL. Os leitores do blog estão naturalmente convidados. Obrigado.
segunda-feira, março 31, 2003
Uma menina do tempo da outra senhora
Luís de Sttau Monteiro, Redacções da Guidinha, Areal Editores, 112 págs.
Luís de Sttau Monteiro nasceu em Lisboa no ano de 1926 e faleceu em 1993. Na adolescência viveu em Londres, licenciando-se depois em Direito na Universidade de Lisboa. Exerceu a advocacia e o jornalismo. As suas obras mais célebres são Angústia para o Jantar (um romance social bastante básico), agora reeditado, e a peça Felizmente Há Luar!, ambos de 1961. Escreveu no suplemento do Diário de Lisboa «A Mosca», onde publicou em 1969 e 1970 as populares Redacções da Guidinha, algumas das quais recolhidas em livro, do qual se faz nova edição. A «irreverência» de Sttau Monteiro, como a «virulência» de outros escritores da sua geração, é uma espécie de negativo dos valores do regime sob o qual escreveram: tristeza contentinha, pensamento a preto e branco, puritanismo disfarçado, obsessão pela mensagem e a edificação, fragilidade do literário. Torga, por exemplo, era como que o negativo de Salazar. E as Redacções da Guidinha são as Lições do Tonecas do antifascismo.
*
Estas Redacções da Guidinha são de um infantilismo impressionante. Por infantilismo não entendo a assunção de um discurso infantil, que é a opção explícita desta obra, mas sim uma visão do mundo que pretendendo ser crítica é de um simplismo verdadeiramente confrangedor. A ideia é esta: pôr uma miúda lisboeta de classe média-baixa a escrever redacções sobre a sua vida quotidiana mas, na verdade, sobre o estado da nação, numa linguagem deliberadamente infantil e sem pontuação. Conhecemos exemplos notáveis de processos semelhantes, desde Zazie dans Le Métro, de Queneau, até ao recente Paddy Clarke Ha Ha Ha, de Roddy Doyle, que usam ambos uma personagem ou um narrador infantil como forma de desmontar e criticar a realidade adulta.
As Redacções da Guidinha são apenas redacções, no sentido mais basicamente escolar do termo: parecem cronicazinhas humorísticas de um jornal de província. Graça? Nenhuma: o humor destas redacções parece residir essencialmente em gente que espeta garfos no rabo, trincadelas no rabo e outras piadas com rabos.
O mundo que a Guidinha retrata é conhecido da literatura portuguesa, e mesmo de alguma da melhor literatura portuguesa: a má-língua de bairro, o tacho de arroz embrulhado na Bola, a noiva grávida, o adultério de olho, o casamento numa pastelaria, férias na Costa da Caparica, Fátima, a repartição, os patos bravos, o besugo, a D. Alzira, a Rainha Santa, os viscondes, as meias-solas, as vizinhas. Lobo Antunes _ sobretudo nas magníficas crónicas _ é o retratista exemplar deste mundo, e antes dele tivemos os poemas de O'Neill (um verso de O'Neill tem mais graça que a obra completa de Sttau Monteiro).
As piscadelas de olho políticas não primam pela subtileza: o Pai que dá tareias (referidas repetidamente como «bumba no toutiço») a casa dos pais como uma «cadeia», os santos nomes de Buíça e Afonso Costa relembrados pela Avó caquética, Ary dos Santos e a Desfolhada, frases como «anda toda a gente com medo», e até uma Carta Aberta ao Presidente da América (trinta anos antes de Mia Couto, e com o mesmo talento). A única graça interessante é a referência às «eleições», quando se pergunta o que ganhará quem ganha eleições. É pouco para estes textos que marcaram uma época.
A Guidinha escreve sobre o Pai Natal, o sótão, as misses, a escola, os brinquedos, ou seja, as instituições que formam, deformam e distraem o povo. A Guidinha preocupa-se com o que os adultos dizem e fazem às crianças, com a doutrinação, a punição e a evasão. Os Pequenos representam, evidentemente , o Povo, enquanto os Grandes são ao mesmo tempo os Governantes e sobretudo a rede de frustrados intermédios que se vingam da sua vida remediada. Os Grandes exigem «respeito» e «obediência» aos Pequenos e pregam-lhes «lamparinas», quando eles são «subversivos».
A moralidade deste livro é transparente, e isso é mau para um livro de crítica social, porque a crítica também se deve criticar a si mesma. E a linguagem supostamente «castiça», sempre «à brocha» com a falta de «pilim», é um pavor de banalidade.
Isto, meus amigos, não é literatura. Sob a capa da invenção formal, estas redacções escondem uma linearidade didáctica. A certa altura, escreve a Guidinha: «(...) quem entende os grandes que os entenda eu não entendo». Quem goste deste livro que goste eu não gosto.
Luís de Sttau Monteiro, Redacções da Guidinha, Areal Editores, 112 págs.
Luís de Sttau Monteiro nasceu em Lisboa no ano de 1926 e faleceu em 1993. Na adolescência viveu em Londres, licenciando-se depois em Direito na Universidade de Lisboa. Exerceu a advocacia e o jornalismo. As suas obras mais célebres são Angústia para o Jantar (um romance social bastante básico), agora reeditado, e a peça Felizmente Há Luar!, ambos de 1961. Escreveu no suplemento do Diário de Lisboa «A Mosca», onde publicou em 1969 e 1970 as populares Redacções da Guidinha, algumas das quais recolhidas em livro, do qual se faz nova edição. A «irreverência» de Sttau Monteiro, como a «virulência» de outros escritores da sua geração, é uma espécie de negativo dos valores do regime sob o qual escreveram: tristeza contentinha, pensamento a preto e branco, puritanismo disfarçado, obsessão pela mensagem e a edificação, fragilidade do literário. Torga, por exemplo, era como que o negativo de Salazar. E as Redacções da Guidinha são as Lições do Tonecas do antifascismo.
*
Estas Redacções da Guidinha são de um infantilismo impressionante. Por infantilismo não entendo a assunção de um discurso infantil, que é a opção explícita desta obra, mas sim uma visão do mundo que pretendendo ser crítica é de um simplismo verdadeiramente confrangedor. A ideia é esta: pôr uma miúda lisboeta de classe média-baixa a escrever redacções sobre a sua vida quotidiana mas, na verdade, sobre o estado da nação, numa linguagem deliberadamente infantil e sem pontuação. Conhecemos exemplos notáveis de processos semelhantes, desde Zazie dans Le Métro, de Queneau, até ao recente Paddy Clarke Ha Ha Ha, de Roddy Doyle, que usam ambos uma personagem ou um narrador infantil como forma de desmontar e criticar a realidade adulta.
As Redacções da Guidinha são apenas redacções, no sentido mais basicamente escolar do termo: parecem cronicazinhas humorísticas de um jornal de província. Graça? Nenhuma: o humor destas redacções parece residir essencialmente em gente que espeta garfos no rabo, trincadelas no rabo e outras piadas com rabos.
O mundo que a Guidinha retrata é conhecido da literatura portuguesa, e mesmo de alguma da melhor literatura portuguesa: a má-língua de bairro, o tacho de arroz embrulhado na Bola, a noiva grávida, o adultério de olho, o casamento numa pastelaria, férias na Costa da Caparica, Fátima, a repartição, os patos bravos, o besugo, a D. Alzira, a Rainha Santa, os viscondes, as meias-solas, as vizinhas. Lobo Antunes _ sobretudo nas magníficas crónicas _ é o retratista exemplar deste mundo, e antes dele tivemos os poemas de O'Neill (um verso de O'Neill tem mais graça que a obra completa de Sttau Monteiro).
As piscadelas de olho políticas não primam pela subtileza: o Pai que dá tareias (referidas repetidamente como «bumba no toutiço») a casa dos pais como uma «cadeia», os santos nomes de Buíça e Afonso Costa relembrados pela Avó caquética, Ary dos Santos e a Desfolhada, frases como «anda toda a gente com medo», e até uma Carta Aberta ao Presidente da América (trinta anos antes de Mia Couto, e com o mesmo talento). A única graça interessante é a referência às «eleições», quando se pergunta o que ganhará quem ganha eleições. É pouco para estes textos que marcaram uma época.
A Guidinha escreve sobre o Pai Natal, o sótão, as misses, a escola, os brinquedos, ou seja, as instituições que formam, deformam e distraem o povo. A Guidinha preocupa-se com o que os adultos dizem e fazem às crianças, com a doutrinação, a punição e a evasão. Os Pequenos representam, evidentemente , o Povo, enquanto os Grandes são ao mesmo tempo os Governantes e sobretudo a rede de frustrados intermédios que se vingam da sua vida remediada. Os Grandes exigem «respeito» e «obediência» aos Pequenos e pregam-lhes «lamparinas», quando eles são «subversivos».
A moralidade deste livro é transparente, e isso é mau para um livro de crítica social, porque a crítica também se deve criticar a si mesma. E a linguagem supostamente «castiça», sempre «à brocha» com a falta de «pilim», é um pavor de banalidade.
Isto, meus amigos, não é literatura. Sob a capa da invenção formal, estas redacções escondem uma linearidade didáctica. A certa altura, escreve a Guidinha: «(...) quem entende os grandes que os entenda eu não entendo». Quem goste deste livro que goste eu não gosto.
sexta-feira, março 21, 2003
Memória lírica da caça e da escrita
Francisco Duarte Mangas, Os Passos por dentro da Casa, Edições Asa, 64 págs.
A colecção Pequeno Formato, das edições Asa, uma das melhores do nosso panorama, tem publicado sobretudo poesia. O catálogo é irregular, talvez demasiado portuense, mas quem tem Manuel António Pina, António Ramos Rosa, João Miguel Fernandes Jorge, Vasco Graça Moura, e Eugénio de Andrade (imenso Eugénio) pode dar-se ao luxo de apostas mais arriscadas e eventualmente menos conseguidas. Até porque a excelência gráfica da Pequeno Formato, da responsabilidade de Armando Alves, torna os livrinhos objectos apetecíveis.
A colecção tem também publicado algumas obras de prosa, no domínio do conto ou do texto mais aproximadamente poético: Fernão Lopes, Luísa Dacosta ou Maria Velho da Costa. Agora deu à estampa um livrinho de Francisco Duarte Mangas, Os Passos por dentro da Casa. Francisco Mangas tem editado sobretudo romance (desigual) e poesia (minimal, quase invisível). Um dos seus livros é essencial: O Diário de Link (1993) que, infelizmente, foi seguido por obras menores; o recente O Coração Transido dos Mouros tem uma ideia _ ligar Lenine e a Reconquista Cristã (!) _ mas não tem mais nada. A importância de Mangas entre os ficcionistas da sua geração tem a ver essencialmente com uma recuperação do imaginário rural, em chave neo-neo-realista mas também lírica, e por vezes etnográfica (como em Link). Nisso, está quase sozinho entre os mais novos, com Abel Neves, José Riço Direitinho e algum José Luís Peixoto, dos quais o crítico e ensaísta Miguel Real disse que reescrevem antigas representações culturais portuguesas. Um país rural, religioso, telúrico, revisitado nos seus mitos e na sua memória, não sem alguma nostalgia. Mangas, é certo, tem alguns defeitos recorrentes, mas cultiva uma linguagem cuidada e um sentido poético impressivo, interessante sempre que evita uma certa tentação para a «mensagem».
As sete brevíssimas ficções deste livro têm como tema não tanto a ruralidade mas um certo entendimento quase rústico (é um elogio) da literatura. Menos enredado do que é costume em elucubrações ideológicas, Francisco Mangas torna aqui a literatura _ em cenário campestre, é certo _ uma espécie de utopia ao alcance de todos, ou mesmo, como no primeiro conto, uma aparição, aliás dentro de um tom desmistificador da religião que lhe é costumeiro. As outras histórias imaginam situações ou personagens literárias, do velho arquivista sem préstimo ao diálogo entre autor e personagem em volta de uma casa, passando pelo «Homem Que Detestava Palavras Grandes», e que morre por excesso destas. O conto em que o jornalista entra dentro de uma foto para entrevistar Lorca (quem havia de ser?) é de um lirismo didáctico e demagógico; mas o quarto e o sétimo textos são bastante bons: o último sobre uma criança e as suas aventuras com o vocabulário e o outro sobre a caça (um momento alto do livro). Francisco Mangas conhece o que descreve, sendo por isso de um realismo verosímil sem abusar de regionalismos linguísticos e temáticos. É bom não se imitar Aquilino quando não se é Aquilino. Mas além disso, este texto estabelece um paralelo excelente entre a caça e a escrita, não apenas do lado de quem caça (bichos ou palavras), mas também de quem é caçado, como se também as palavras vivessem o pavor dos bichos perseguidos e abatidos. «Regresso a casa, volto ao local onde sempre estive: sete ou oito palavras de papo rubro atadas à cartucheira como manda a lei.»
terça-feira, março 18, 2003
Caros leitores de O Real Absoluto: Vai iniciar-se hoje a «Mexia Mini-Tour 2003». Para quem queira e possa, fica o calendário detalhado.
18 Março
18.30
Culturgest
Leitura/debate (Os Livros em Volta)
com Fernando Pinto do Amaral, Luís Quintais, Jorge Gomes Miranda, Jaime Rocha e Clara Rowland
20 Março
17.00
Universidade Católica
Encontro literário
com Agustina Bessa-Luís
21 Março
21.30
FNAC Colombo
Leitura/debate (Dia Internacional da Poesia)
com Pedro Tamen, Luís Represas e Mafalda Veiga
22 Março (data ainda por confirmar)
22.00
Livraria Ler Devagar
Conferência sobre Teixeira de Pascoaes
(leitura de poemas por Joana Seixas)
Prometo que não se farão posters de corpo inteiro.
Finalmente, o meu quarto livro de poemas, «Eliot e Outras Observações» (Gótica) terá o seu lançamento dia
31 Março
18.30
FNAC Colombo
Apresentação do Prof. Fernando J.B. Martinho.
Fica o convite. Obrigado.
18 Março
18.30
Culturgest
Leitura/debate (Os Livros em Volta)
com Fernando Pinto do Amaral, Luís Quintais, Jorge Gomes Miranda, Jaime Rocha e Clara Rowland
20 Março
17.00
Universidade Católica
Encontro literário
com Agustina Bessa-Luís
21 Março
21.30
FNAC Colombo
Leitura/debate (Dia Internacional da Poesia)
com Pedro Tamen, Luís Represas e Mafalda Veiga
22 Março (data ainda por confirmar)
22.00
Livraria Ler Devagar
Conferência sobre Teixeira de Pascoaes
(leitura de poemas por Joana Seixas)
Prometo que não se farão posters de corpo inteiro.
Finalmente, o meu quarto livro de poemas, «Eliot e Outras Observações» (Gótica) terá o seu lançamento dia
31 Março
18.30
FNAC Colombo
Apresentação do Prof. Fernando J.B. Martinho.
Fica o convite. Obrigado.
sexta-feira, março 14, 2003
Tributo ao mestre e elogio do método
Gonçalo M. Tavares, «A Colher de Samuel Beckett e Outros Textos», Campo das Letras, 88 págs.
Gonçalo M. Tavares (1970) estreou-se apenas em finais de 2001, e já publicou cinco livros. Dois de poemas: O Livro de Dança e Investigações. Novalis. Um texto teatral: O Homem ou é Tonto ou é Mulher, levado à cena. E uma «história para crianças»: O Senhor Valéry. Gonçalo Tavares representa um novo paradigma na literatura portuguesa: um autor cerebral, preocupado com o método e com a lógica literária do jogo, um escritor com preparação filosófica, notória em aforismos e frases por vezes brilhantes. Um autor da esfera do literário, óptimo por isso para contrapor aos excessos «vivenciais» e «emocionais» de que enfermam alguns dos novíssimos. A Colher de Beckett e outros Textos continua um estilo de homenagens e citações que definem uma linhagem e uma aproximação lúdica (em Gonçalo Tavares, até o «M.» é lúdico). Mas sabemos que os «Cadernos de Gonçalo M. Tavares» _ como o autor enumera a sua obra _ estão ainda no início, e que podemos estar perante uma verdadeira arca pessoana.
Três destes «textos de teatro» são essencialmente homenagens sabedoras e competentes às obras minimalistas de Beckett. Daí o título. Não apenas o Beckett de Godot mas o das peças curtíssimas dos últimos anos. São por isso monólogos com frases curtas e entrecortadas, pausas e recomeços, repetições, didascálias minuciosas, gestos rituais, tiradas cartesianas sobre o corpo e a consciência, permanentes jogos de linguagem e um ambiente apocalíptico. Gonçalo Tavares leu atentamente Beckett, e conhece os grandes temas e os grandes tiques do irlandês, que aqui copia e parodia: o tema obsessivo da espera, a primazia dos objectos (escadas, espelhos, alçapões, gavetas), o isolamento existencial, o medo dos outros, a escrita e a rasura. Com medo de agir e de sentir, as personagens beckettianas entretêm-se a pensar alto, a contar histórias, para esquecer a desolação, numa perpétua dialéctica entre a verborreia e o silêncio. E sempre, no fundo, como se fosse um grito de ajuda, mesmo se não acreditam na possibilidade de redenção. O mesmo se passa aqui. O maior problema deste livro é, precisamente, levar longe de mais esse conceito de pastiche e não acrescentar muito ao material que reelabora. Além do mais, são textos um pouco cansativos de ler, aliás como os de Beckett.
O melhor, neste livro, são os outros dois textos, um que é um brevíssimo tratado de encenação, na esteira de Brecht e do nosso António Pedro, e o segundo uma reflexão sobre a escrita para teatro e as gerações literárias. No primeiro, Gonçalo Tavares dedica-se em especial aos actores, ecoando um famoso poema de Herberto, até pelo tom deliberadamente poético: os actores, diz, são «ladrões de Deus». Em todos os seus textos, Gonçalo Tavares faz um elogio do método, da importância do «como» em literatura. E também defende uma noção física do teatro. Ou melhor: corporal. Um texto é um corpo e o escritor insiste na forma como a interpretação é um corpo feito texto. Como acontece na pontuação: «porque a voz pode, por exemplo, tremer, e é pontuação». A encenação, por seu lado, é uma coreografia de inteligência emocional, apostada num teatro que provoque. Porque, para Gonçalo Tavares, «o teatro é, deve ser, um bilhete para mudar a vida». Uma espécie de revolucionarismo mental que Brecht, escusado será dizer, não aprovaria.
Gonçalo Tavares, em registo especificamente filosófico, explica que não existe, em rigor, escrita teatral, que um texto de teatro é a promessa de um acto, um acto em potência, para usar linguagem aristotélica. E há belos raciocínios: a ideia como um equilíbrio e a ficção como um desequilíbrio, a matemática como «literatura com números», e a força absorvente do zero. E frases assim: «Para os cães a literatura é mais fácil porque não existe».
Em «Resposta a duas perguntas», Gonçalo Tavares diz que palavras e coisas são dois mundos, e não se cruzam. Por isso, numa frase nunca há acção senão a acção de escrever. Quanto ao problema dos contemporâneos, Goncalo Tavares diz uma coisa muito óbvia de forma original: que há contemporâneos de dentro e de fora, e que por isso a geração cronológica não é tão importante como aquilo a que se costuma chamar famílias espirituais. O que faz todo o sentido para um escritor que aparece relativamente isolado no panorama dos seus contemporâneos. Sobretudo porque se trata, vale a pena sublinhar, de um escritor de ideias. O que é raro em qualquer geração.
segunda-feira, março 03, 2003
Universidade nova
Abel Barros Baptista e Gustavo Rubim, «Importa-se de me Emprestar o Barroco?», Cotovia, 224 págs.
Inquéritos ao mundo literário revelam que cada vez há mais escritores que são também universitários, quer de carreira, quer em postos de professores convidados, honorários, visitantes. É evidente também que a literatura contemporânea se tem vindo a complexificar, mau-grado um passageiro retrocesso «light» em anos recentes, e que a universidade desempenha aí um papel importante, sobretudo do ponto de vista teórico. Além do mais, o trabalho crítico sobre a literatura é crescentemente um pelouro universitário, para o bem e para o mal. Ora se a literatura, de uma forma ou de outra, se enfeudou à universidade, é natural que a própria universidade seja um tema da literatura, em particular da ficção. Um universitário que escreva ficção, tenderá, naturalmente, a espelhar de algum modo o seu quotidiano no que escreve. E porque a universidade é um meio pródigo em quezílias, embirrações, pequenos escândalos, casos e traições, vaidades e segredos, é um bom microcosmos para situar uma obra de ficção. Podemos notar que se há uma constante no romance de pano de fundo universitário é a ironia, a sátira, o sarcasmo. Na tradição anglo-saxónica, a «campus novel» tem uma importância crescente, sendo o maior cultor do género o britânico David Lodge («Changing Places», «Small World», «Nice Work») acompanhado de A. S. Byatt, do mais selvagem Tom Sharpe, do falecido Malcolm Bradbury, e tendo como antecessor, claro, «Lucky Jim», de Kinsgley Amis, um dos mais importantes romances ingleses contemporâneos. Do outro lado do Atlântico, contam-se entre os mais célebres exemplos desta temática «The Groves of Academe» de Mary McCarthy, e «Pictures from an Institution», único romance do poeta Randall Jarrell, havendo elaborados prolongamentos em, por exemplo, John Barth. A lista está longe de ser exaustiva, mas mostra a pujança de um subgénero, ainda por cima na mais importante ficção actual, que é a de língua inglesa.
Em Portugal, David lodge é um autor de sucesso, talvez como révanche de alguns sectores do público leitor face a um domínio francês da universidade portuguesa, visto que os gauleses são um dos alvos de sátira de Lodge (implacável sobretudo com os franceses «americanizados», como Derrida). Mas a universidade, em Portugal, não é uma instituição forte e prestigiada (nada de piadas a Coimbra nesta recensão), e se existe um bom número de poetas e ficcionistas universitários (para não falar de quase todos os ensaístas), o meio académico ainda não é um tema importante da ficção portuguesa. Mas há excepções. Para nos atermos apenas aos últimos anos, tivemos uma tentativa de introdução entre nós do «campus novel»- - romance universitário – por parte de Frederico Lourenço, nos dois volumes já publicados de uma trilogia. Esses livros, muito prejudicados pela trivialidade do enredo e a pobreza dos diálogos, são uma tentativa de retratar o meio, de forma necessariamente irónica, mas não demasiado violenta nem exclusiva (Frederico Lourenço tenta, aliás, conjugar «campus novel» e «gay novel», não sendo bem sucedido em nenhuma das tentativas). Agora temos uma nova ficção universitária, embora bastante distante de um mero realismo irónico.
Já aqui manifestei reiteradamente o meu entusiasmo pelos ensaios (tanto «hardcore» como «softcore») de Abel Barros Baptista. Nem de propósito, acaba de sair a segunda tentativa ficcional do autor, que já tinha publicado com Luísa Costa Gomes o romance epistolar «O Defunto Elegante». Desta vez o livro foi escrito com o seu velho amigo e comparsa Gustavo Rubim. Por isso «Importa-se de me Emprestar o Barroco?» - título deliberadamente faceto - pode ser chamado um divertimento universitário a quatro mãos. O texto abre ao melhor estilo camiliano, dizendo que o livro foi escrito em1984 e o manuscrito se perdeu. É uma daquelas «informações» que tanto podem ser verdadeiras como fictícias, e que, de qualquer modo, se apresenta sobretudo como um dispositivo ficcional. «Importa-se de me Emprestar o Barroco?» constrói-se numa sucessão de «relatos», situados num domínio ambíguo da narração. Há a preparação de uma antologia, a antologia propriamente dita (páginas e páginas com a reprodução de poemas), uma conferência, uma discussão sobre o texto que narra a conferência e uma coda policiesca (o policial parece cada vez mais o supertexto de infinitos subtextos da ficção moderna). Os autores servem-se do barroco como tema metafórico, que permite analisar noções essenciais da escrita literária (poética mais também ficcional) e caracterizar um período da história da cultura. Parece evidente que na maioria dos casos onde está escrito «barroco» se deve ler «pós-modernismo» (ou, como outros preferem, «pós-modernidade»). Daí a citação de Jorge Luis Borges: «Eu diria que o estilo barroco é o estilo que deliberadamente esgota (ou quer esgotar) as suas possibilidades e que atinge os limites da própria caricatura. (...) Eu diria que é barroca a etapa final de toda a arte, quando esta exibe e delapida os seus meios». É por isso que Barros Baptista e Rubim se entregam à analise imensamente erudita e subtil de mecanismos como a reescrita e a influência, bem como a anulação barroca (e de certo modo, pós-moderna) da ideia de plágio e a inexistência da originalidade. Os que os autores defendem é que certos temas – o tema escolhido é o «carpe diem» horaciano e a sua reescrita pelos poetas barrocos – se predispõem precisamente a esses mecanismos, que anunciam o monopólio da metáfora, a flutuação do sentidos, a maquinação que a si mesma se revela. A certa altura, a narração é interrompida por poemas: de Góngora, Camões, Ronsard, Garcilaso e dos barrocos portugueses como Violante do Céu, D. Tomás de Noronha ou Jerónimo Baía, e sabemos que isto não é um livro de ficção «normal» (haja Deus). A análise mais detalhada da reescrita de temas europeus em contexto tropical na obra de Gregório de Matos revela também o domínio que ABB tem da literatura brasileira, coisa rara entre nós. Não é certamente por acaso que uma das personagens se chama Machado (Machado e Camilo foram, depois de Sterne, dos primeiros pós-modernos).
A componente estritamente ficcional deste texto é, no entanto, débil, e nem o Professor Pestana, um «literato caduco» e um «professor decrépito», dá à ficção vida que mereça a designação de romance. Há, além do mais, passagens aborrecidas (no início do livro, sobretudo, com as considerações acerca do herbário). Há também «inside jokes» cansativas. E alguns dos poemas barrocos são intragáveis. Finalmente, o enredo policial de cunho metafísico, devedor de Borges, não chega a ser convincente. Encontramos apenas um bom momento narrativo: a última conferência de Pestana, uma cena de observação a la Jacques Tati; mas mesmo essa passagem parece correr para a apoteose da inteligência que as partes ensaísticas explanam. E se refiro a inteligência é porque este livro é um exercício de inteligência, com grande ênfase na palavra exercício: dois professores de literatura que se divertem. Algumas das análises são brilhantes: por exemplo o tema do «carpe diem» no barroco como uma «máscara para o corpo», revelando uma mutação no entendimento do corpo e da sua historicidade desde os conceitos moralizantes e estéticos até ao prazer barroco, precursor da modernidade. Não exactamente um assunto que interesse ao comum dos mortais? É certo. Aliás, livros como este são um subgénero no subgénero da ficção universitária. E estes autores são o que se chama «escritores para escritores» ou talvez «escritores universitários para escritores universitários». Com grande auto-ironia, Baptista e Rubim chamam a um determinado passo uma «caricatura da problematização», mas a teoria e a literatura pós-modernas (pós-desconstrucionistas) não têm sido senão caricaturas de problematizações, razão pelas qual alguns as acham um caminho estéril na literatura, sem perceberem que são apenas os últimos e inevitáveis pregos no caixão do romantismo.
«Importa-se de me Emprestar o Barroco?» é essencialmente, como fica dito, um ensaio ficcionalizado (com excursos por Thomas Mann, Barthes ou Walter Benjamin) composto por dois brilhantes ensaístas, numa escrita fragmentária que se dedica à problematização da narração (um texto questiona sempre o anterior), da efabulação (conceito essencial no pós-modernismo), da autoria (quer dizer, da identidade), e da ficção (se é que tudo não é ficção). Um excerto estranhamente explicativo, mas clarificador: «Importa sobretudo repartir a responsabilidade do discurso e engendrar modalidades discursivas que o permitam, caracterizando cada um dos falsos sujeitos que vai assumindo a palavra. Assim, procuro obter o efeito essencial, que é deslocar os critérios de recepção. Atribuindo o discurso a alguém que não constitui instância de autoridade, a leitura não deverá ser dominada por uma instancia de verdade ou por um critério de pertinência. Menos ainda da responsabilidade. É preciso que cada leitura formule a verdade lúdica capaz de constituir a história». (pág. 175). Mas este é também um livro divertido - que traduz «carpe diem» por «curtir o dia», por exemplo - na linha provocadora do primeiro «ensaio» publicado por ABB, e que se chamava «O Professor e o Cemitério». Um livro intrincado e por vezes labiríntico, que decepcionará os leitores incautos. Mas não desespereis, almas simples: acaba de sair uma reedição das «Minas de S. Francisco», de Namora.
