<?xml version='1.0' encoding='UTF-8'?><?xml-stylesheet href="http://www.blogger.com/styles/atom.css" type="text/css"?><feed xmlns='http://www.w3.org/2005/Atom' xmlns:openSearch='http://a9.com/-/spec/opensearchrss/1.0/' xmlns:georss='http://www.georss.org/georss' xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'><id>tag:blogger.com,1999:blog-3881353</id><updated>2011-04-21T19:05:30.710Z</updated><title type='text'>O Real Absoluto</title><subtitle type='html'>Crítica literária, recensões, polémicas.
Os textos são da autoria de Pedro Mexia e, salvo menção em contrário, foram publicados no DN ou no DNa. Comentários são bem-vindos: escreva para pedro_mexia@hotmail.com</subtitle><link rel='http://schemas.google.com/g/2005#feed' type='application/atom+xml' href='http://realabsoluto.blogspot.com/feeds/posts/default'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3881353/posts/default?max-results=100'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://realabsoluto.blogspot.com/'/><link rel='hub' href='http://pubsubhubbub.appspot.com/'/><author><name>Pedro Mexia</name><uri>http://www.blogger.com/profile/12661143521613281659</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><generator version='7.00' uri='http://www.blogger.com'>Blogger</generator><openSearch:totalResults>27</openSearch:totalResults><openSearch:startIndex>1</openSearch:startIndex><openSearch:itemsPerPage>100</openSearch:itemsPerPage><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3881353.post-92409141</id><published>2003-04-11T05:09:00.000Z</published><updated>2003-04-11T05:09:37.233Z</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;b&gt;Hoje, 11 de Abril, às 18.30, decorre na FNAC do Chiado uma apresentação / conversa / projecção a propósito de Oscar Wilde. Serão dados a conhecer ao público os poemas em prosa de Wilde, traduzidos por Possidónio Cachapa para a nova editora Cavalo de Ferro. O debate será entre o Possidónio e &lt;i&gt;moi-même&lt;/i&gt;, e laracharemos sobre o tio Oscar, a arte pela arte, o decadentismo e a posteridade dos homens feios. Finalmente, será projectado filme &lt;i&gt;Wilde&lt;/i&gt;, com o impagável Stephen Fry. Apareçam. &lt;/b&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3881353-92409141?l=realabsoluto.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3881353/posts/default/92409141'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3881353/posts/default/92409141'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://realabsoluto.blogspot.com/2003_04_01_archive.html#92409141' title=''/><author><name>Pedro Mexia</name><uri>http://www.blogger.com/profile/12661143521613281659</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3881353.post-92408812</id><published>2003-04-11T05:03:00.000Z</published><updated>2003-04-11T05:03:00.983Z</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;br /&gt;&lt;b&gt;Salto sobre os altos abismos da poesia &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fernando Guerreiro, «Caminhos de Guia», Black Son, 88 págs.&lt;/b&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fernando Guerreiro (n. 1950) foi acumulando, desde final dos anos 70, uma volumosa obra poética marginal, para além de ensaios sobre arte e literatura. Recentemente descoberto pela crítica, recusou o prémio de poesia do PEN. Publicou quase sempre na Black Son, que dirige, em edições muito toscas, de 350 exemplares, e sem nome do autor. Nos seus textos, tanto cita o universo de Andy Warhol, como os românticos franceses e alemães, centra-se obsessivamente na pintura oitocentista e novecentista, mas também cultiva referências pop e cinéfilas. Uma espécie de Frank O'Hara português. Caminhos de Guia (2002) encerra um ciclo formado por Teoria da Literatura (1997, o melhor livro de F. G.), Outono (1998), Gótico (1999) e Grotesco (2000). De certo modo, trata-se de uma só obra em vários volumes, de tal modo os poemas podiam transitar de um para o outro. O ciclo estava claramente esgotado, a ficar cansativo, sendo este último conjunto, aliás, o menos interessante.     &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A poesia de Fernando Guerreiro tem-se constituído como uma metapoética: interrogar a poesia a partir da própria poesia. As imagens a que o poeta recorre são tributárias do romantismo alemão, nomeadamente da pintura de Caspar David Friederich: abismos, rochedos, precipícios, crateras, urze, crepúsculos, uma paisagem terrível e sublime que é aqui menos descritiva que intelectualizada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas há sobretudo nestes poemas ecos do romantismo filosófico alemão _ o idealismo _ aliás, o romantismo no qual mais se fazia notar a influência de uma teoria da literatura: conceitos como o «real» ou o «absoluto» (e mesmo o «real absoluto» de Novalis) são aqui retomados frequentemente, numa espécie de pós-modernismo «retro».&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em vários poemas se faz eco de uma desconfiança (é o menos que se pode dizer) face à metáfora, e um verso refere mesmo o «pesadelo de metáforas em que se convertera a literatura». Não é caso único entre nós: João Miguel Fernandes Jorge, por exemplo, recusa por vezes a metáfora em favor da metonímia, e é curioso como também é um autor com preocupações filosóficas, como se as metáforas fossem uma excrescência do pensamento.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O essencial em Caminhos de Guia não é a filosofia mas aquilo que na «teoria da literatura» é da ordem do filosófico. Aqui não se problematiza o «poema» (Mallarmé), como por exemplo em Nuno Júdice, mas «a poesia» (o termo mais recorrente). O que está permanentemente em causa é não tanto a utilidade da poesia, mas sobretudo o seu sentido, e a questão do sentido em todas as vertentes, bem como o peso das palavras, o fantasma da linguagem e, em geral, a reflexão sobre «a literatura» (constantemente usada como equivalente a «poesia», como no romantismo). Os poemas procedem por associação de ideias, entre abismos, cumes e clareiras, e muitas vezes assumem forma interrogativa, porque há sempre interrogações numa poesia que se assume como de certezas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fernando Guerreiro, dir-se-ia, é um poeta de ideias, não de sentimentos, um poeta na linha heideggeriana que dominou a poesia portuguesa dos anos 50, embora não em chave de transparência, mas pelo contrário de elaboração teórica densa. Mas não é por acaso que Guerreiro cita Rilke, poeta onde essa dimensão convivia com uma faceta quase sussurrada, que salta sobre a biografia para se dirigir directamente ao cerne da nossa existência.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A poesia, diz-nos Fernando Guerreiro, é como um jogo que se dá por perdido antes sequer de começar a partida, mas essa atitude céptica e derrotada nunca impede o autor de escrever, porque escrever é aqui respirar o ar puro e raro de uma poesia entendida de uma forma imensamente exigente. É verdade que os poemas são, como de costume, formalmente desleixados, todos de uma só estrofe, e cansativos. Mas pouco importa, porque não é nisso que aposta esta poesia, que, para ir buscar uma imagem cara ao poeta, empreende uma escalada, como se fosse uma montanha. E assim se vai saltando, mortalmente, sobre os altos abismos da poesia. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Uma nota final: das coisas mais curiosas deste livro é que o exemplar que li está emendado à mão, a lápis, e as emendas são erratas irónicas (propositadas?), visto que onde está «descida» se riscou e se escreveu «certeza» e onde se escreveu «subida» se rasurou e acrescentou «descida». Teoria, ironia e artesanato num só expediente.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3881353-92408812?l=realabsoluto.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3881353/posts/default/92408812'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3881353/posts/default/92408812'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://realabsoluto.blogspot.com/2003_04_01_archive.html#92408812' title=''/><author><name>Pedro Mexia</name><uri>http://www.blogger.com/profile/12661143521613281659</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3881353.post-92108491</id><published>2003-04-06T22:03:00.000Z</published><updated>2003-04-06T22:03:17.390Z</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;b&gt;LIVROS, POLÉMICA, HUMOR: No próximo dia 9 de Abril, quarta-feira, pelas 18.30, tem lugar no Jardim de Inverno do Teatro S. Luiz, a primeira sessão dos encontros É a Cultura, Estúpido. Organizados pelas Produções Fictícias, os encontros serão realizados mensalmente, e têm uma entrevista, críticas sobre livros, polémica política e humor, em rubricas como Leitura Obrigatória e O Que Não Ando a Ler. As sessões serão apresentadas por Anabela Mota Ribeiro, e terão como participantes os críticos literários José Mário Silva e Pedro Mexia, os jornalistas João Miguel Tavares e Nuno Costa Santos e os colunistas Daniel Oliveira e João Pereira Coutinho (este últimos realizarão um debate que, nesta primeira edição, será sobre Chomsky e a guerra no Iraque), além de um artista convidado para falar (finalmente) a sério num sketch final. O autor do mês será Pedro Rosa Mendes, que estará presente com o fotografo João Francisco Vilhena, a propósito de "Atlântico", obra da autoria de ambos, a ser lançada no dia 10 de Abril. Há livro de reclamações.&lt;/b&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3881353-92108491?l=realabsoluto.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3881353/posts/default/92108491'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3881353/posts/default/92108491'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://realabsoluto.blogspot.com/2003_04_01_archive.html#92108491' title=''/><author><name>Pedro Mexia</name><uri>http://www.blogger.com/profile/12661143521613281659</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3881353.post-92108472</id><published>2003-04-06T22:02:00.000Z</published><updated>2003-04-06T22:04:27.000Z</updated><title type='text'></title><content type='html'>AFA&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3881353-92108472?l=realabsoluto.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3881353/posts/default/92108472'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3881353/posts/default/92108472'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://realabsoluto.blogspot.com/2003_04_01_archive.html#92108472' title=''/><author><name>Pedro Mexia</name><uri>http://www.blogger.com/profile/12661143521613281659</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3881353.post-91701086</id><published>2003-03-31T10:57:00.000Z</published><updated>2003-03-31T10:57:21.216Z</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;b&gt;Hoje, às 18.30, na FNAC / Colombo, será lançado o meu livro de poemas «Eliot e Outras Observações», editado pela Gótica e apresentado pelo Prof. Fernando Martinho, da FLUL. Os leitores do blog estão naturalmente convidados. Obrigado. &lt;/b&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3881353-91701086?l=realabsoluto.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3881353/posts/default/91701086'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3881353/posts/default/91701086'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://realabsoluto.blogspot.com/2003_03_01_archive.html#91701086' title=''/><author><name>Pedro Mexia</name><uri>http://www.blogger.com/profile/12661143521613281659</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3881353.post-91679598</id><published>2003-03-31T02:27:00.000Z</published><updated>2003-03-31T11:06:01.000Z</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;b&gt;Uma menina do tempo da outra senhora&lt;br /&gt;Luís de Sttau Monteiro, Redacções da Guidinha, Areal Editores, 112 págs.&lt;/b&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Luís de Sttau Monteiro nasceu em Lisboa no ano de 1926 e faleceu em 1993. Na adolescência viveu em Londres, licenciando-se depois em Direito na Universidade de Lisboa. Exerceu a advocacia e o jornalismo. As suas obras mais célebres são Angústia para o Jantar (um romance social bastante básico), agora reeditado, e a peça Felizmente Há Luar!, ambos de 1961. Escreveu no suplemento do Diário de Lisboa «A Mosca», onde publicou em 1969 e 1970 as populares Redacções da Guidinha, algumas das quais recolhidas em livro, do qual se faz nova edição. A «irreverência» de Sttau Monteiro, como a «virulência» de outros escritores da sua geração, é uma espécie de negativo dos valores do regime sob o qual escreveram: tristeza contentinha, pensamento a preto e branco, puritanismo disfarçado, obsessão pela mensagem e a edificação, fragilidade do literário. Torga, por exemplo, era como que o negativo de Salazar. E as Redacções da Guidinha são as Lições do Tonecas do antifascismo.     &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;                                                                                        *&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estas Redacções da Guidinha são de um infantilismo impressionante. Por infantilismo não entendo a assunção de um discurso infantil, que é a opção explícita desta obra, mas sim uma visão do mundo que pretendendo ser crítica é de um simplismo verdadeiramente confrangedor. A ideia é esta: pôr uma miúda lisboeta de classe média-baixa a escrever redacções sobre a sua vida quotidiana mas, na verdade, sobre o estado da nação, numa linguagem deliberadamente infantil e sem pontuação. Conhecemos exemplos notáveis de processos semelhantes, desde Zazie dans Le Métro, de Queneau, até ao recente Paddy Clarke Ha Ha Ha, de Roddy Doyle, que usam ambos uma personagem ou um narrador infantil como forma de desmontar e criticar a realidade adulta. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As Redacções da Guidinha são apenas redacções, no sentido mais basicamente escolar do termo: parecem cronicazinhas humorísticas de um jornal de província. Graça? Nenhuma: o humor destas redacções parece residir essencialmente em gente que espeta garfos no rabo, trincadelas no rabo e outras piadas com rabos. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O mundo que a Guidinha retrata é conhecido da literatura portuguesa, e mesmo de alguma da melhor literatura portuguesa: a má-língua de bairro, o tacho de arroz embrulhado na Bola, a noiva grávida, o adultério de olho, o casamento numa pastelaria, férias na Costa da Caparica, Fátima, a repartição, os patos bravos, o besugo, a D. Alzira, a Rainha Santa, os viscondes, as meias-solas, as vizinhas. Lobo Antunes _ sobretudo nas magníficas crónicas _ é o retratista exemplar deste mundo, e antes dele tivemos os poemas de O'Neill (um verso de O'Neill tem mais graça que a obra completa de Sttau Monteiro). &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As piscadelas de olho políticas não primam pela subtileza: o Pai que dá tareias (referidas repetidamente como «bumba no toutiço») a casa dos pais como uma «cadeia», os santos nomes de Buíça e Afonso Costa relembrados pela Avó caquética, Ary dos Santos e a Desfolhada, frases como «anda toda a gente com medo», e até uma Carta Aberta ao Presidente da América (trinta anos antes de Mia Couto, e com o mesmo talento). A única graça interessante é a referência às «eleições», quando se pergunta o que ganhará quem ganha eleições. É pouco para estes textos que marcaram uma época.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A Guidinha escreve sobre o Pai Natal, o sótão, as misses, a escola, os brinquedos, ou seja, as instituições que formam, deformam e distraem o povo. A Guidinha preocupa-se com o que os adultos dizem e fazem às crianças, com a doutrinação, a punição e a evasão. Os Pequenos representam, evidentemente , o Povo, enquanto os Grandes são ao mesmo tempo os Governantes e sobretudo a rede de frustrados intermédios que se vingam da sua vida remediada. Os Grandes exigem «respeito» e «obediência» aos Pequenos e pregam-lhes «lamparinas», quando eles são «subversivos». &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A moralidade deste livro é transparente, e isso é mau para um livro de crítica social, porque a crítica também se deve criticar a si mesma. E a linguagem supostamente «castiça», sempre «à brocha» com a falta de «pilim», é um pavor de banalidade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Isto, meus amigos, não é literatura. Sob a capa da invenção formal, estas redacções escondem uma linearidade didáctica. A certa altura, escreve a Guidinha: «(...) quem entende os grandes que os entenda eu não entendo». Quem goste deste livro que goste eu não gosto.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3881353-91679598?l=realabsoluto.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3881353/posts/default/91679598'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3881353/posts/default/91679598'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://realabsoluto.blogspot.com/2003_03_01_archive.html#91679598' title=''/><author><name>Pedro Mexia</name><uri>http://www.blogger.com/profile/12661143521613281659</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3881353.post-91098407</id><published>2003-03-21T02:46:00.000Z</published><updated>2003-03-21T02:46:33.293Z</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;br /&gt;&lt;b&gt;Memória lírica da caça e da escrita &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Francisco Duarte Mangas, Os Passos por dentro da Casa, Edições Asa,  64 págs.&lt;/b&gt; &lt;br /&gt; &lt;br /&gt;A colecção Pequeno Formato, das edições Asa, uma das melhores do nosso panorama, tem publicado sobretudo poesia. O catálogo é irregular, talvez demasiado portuense, mas quem tem Manuel António Pina, António Ramos Rosa, João Miguel Fernandes Jorge, Vasco Graça Moura, e Eugénio de Andrade (imenso Eugénio) pode dar-se ao luxo de apostas mais arriscadas e eventualmente menos conseguidas. Até porque a excelência gráfica da Pequeno Formato, da responsabilidade de Armando Alves, torna os livrinhos objectos apetecíveis.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A colecção tem também publicado algumas obras de prosa, no domínio do conto ou do texto mais aproximadamente poético: Fernão Lopes, Luísa Dacosta ou Maria Velho da Costa. Agora deu à estampa um livrinho de Francisco Duarte Mangas, Os Passos por dentro da Casa. Francisco Mangas tem editado sobretudo romance (desigual) e poesia (minimal, quase invisível). Um dos seus livros é essencial: O Diário de Link (1993) que, infelizmente, foi seguido por obras menores; o recente O Coração Transido dos Mouros tem uma ideia _ ligar Lenine e a Reconquista Cristã (!) _ mas não tem mais nada. A importância de Mangas entre os ficcionistas da sua geração tem a ver essencialmente com uma recuperação do imaginário rural, em chave neo-neo-realista mas também lírica, e por vezes etnográfica (como em Link). Nisso, está quase sozinho entre os mais novos, com Abel Neves, José Riço Direitinho e algum José Luís Peixoto, dos quais o crítico e ensaísta Miguel Real disse que reescrevem antigas representações culturais portuguesas. Um país rural, religioso, telúrico, revisitado nos seus mitos e na sua memória, não sem alguma nostalgia. Mangas, é certo, tem alguns defeitos recorrentes, mas cultiva uma linguagem cuidada e um sentido poético impressivo, interessante sempre que evita uma certa tentação para a «mensagem».&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As sete brevíssimas ficções deste livro têm como tema não tanto a ruralidade mas um certo entendimento quase rústico (é um elogio) da literatura. Menos enredado do que é costume em elucubrações ideológicas, Francisco Mangas torna aqui a literatura _ em cenário campestre, é certo _ uma espécie de utopia ao alcance de todos, ou mesmo, como no primeiro conto, uma aparição, aliás dentro de um tom desmistificador da religião que lhe é costumeiro. As outras histórias imaginam situações ou personagens literárias, do velho arquivista sem préstimo ao diálogo entre autor e personagem em volta de uma casa, passando pelo «Homem Que Detestava Palavras Grandes», e que morre por excesso destas. O conto em que o jornalista entra dentro de uma foto para entrevistar Lorca (quem havia de ser?) é de um lirismo didáctico e demagógico; mas o quarto e o sétimo textos são bastante bons: o último sobre uma criança e as suas aventuras com o vocabulário e o outro sobre a caça (um momento alto do livro). Francisco Mangas conhece o que descreve, sendo por isso de um realismo verosímil sem abusar de regionalismos linguísticos e temáticos. É bom não se imitar Aquilino quando não se é Aquilino. Mas além disso, este texto estabelece um paralelo excelente entre a caça e a escrita, não apenas do lado de quem caça (bichos ou palavras), mas também de quem é caçado, como se também as palavras vivessem o pavor dos bichos perseguidos e abatidos. «Regresso a casa, volto ao local onde sempre estive: sete ou oito palavras de papo rubro atadas à cartucheira como manda a lei.»&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3881353-91098407?l=realabsoluto.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3881353/posts/default/91098407'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3881353/posts/default/91098407'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://realabsoluto.blogspot.com/2003_03_01_archive.html#91098407' title=''/><author><name>Pedro Mexia</name><uri>http://www.blogger.com/profile/12661143521613281659</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3881353.post-91098232</id><published>2003-03-21T02:43:00.000Z</published><updated>2003-04-06T22:04:58.000Z</updated><title type='text'></title><content type='html'>Antologias&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3881353-91098232?l=realabsoluto.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3881353/posts/default/91098232'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3881353/posts/default/91098232'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://realabsoluto.blogspot.com/2003_03_01_archive.html#91098232' title=''/><author><name>Pedro Mexia</name><uri>http://www.blogger.com/profile/12661143521613281659</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3881353.post-90898623</id><published>2003-03-18T03:34:00.000Z</published><updated>2003-03-18T03:34:43.483Z</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;b&gt;Caros leitores de O Real Absoluto: Vai iniciar-se hoje a «Mexia Mini-Tour 2003». Para quem queira e possa, fica o calendário detalhado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;18 Março&lt;br /&gt;18.30 &lt;br /&gt;Culturgest &lt;br /&gt;Leitura/debate (Os Livros em Volta)&lt;br /&gt;com Fernando Pinto do Amaral, Luís Quintais, Jorge Gomes Miranda, Jaime Rocha e Clara Rowland&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;20 Março&lt;br /&gt;17.00&lt;br /&gt;Universidade Católica&lt;br /&gt;Encontro literário&lt;br /&gt;com Agustina Bessa-Luís&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;21 Março &lt;br /&gt;21.30&lt;br /&gt;FNAC Colombo&lt;br /&gt;Leitura/debate (Dia Internacional da Poesia) &lt;br /&gt;com Pedro Tamen, Luís Represas e Mafalda Veiga&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;22 Março (data ainda por confirmar)&lt;br /&gt;22.00&lt;br /&gt;Livraria Ler Devagar &lt;br /&gt;Conferência sobre Teixeira de Pascoaes&lt;br /&gt;(leitura de poemas por Joana Seixas) &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Prometo que não se farão posters de corpo inteiro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Finalmente, o meu quarto livro de poemas, «Eliot e Outras Observações» (Gótica) terá o seu lançamento dia&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;31 Março&lt;br /&gt;18.30&lt;br /&gt;FNAC Colombo&lt;br /&gt;Apresentação do Prof. Fernando J.B. Martinho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fica o convite. Obrigado. &lt;/b&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3881353-90898623?l=realabsoluto.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3881353/posts/default/90898623'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3881353/posts/default/90898623'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://realabsoluto.blogspot.com/2003_03_01_archive.html#90898623' title=''/><author><name>Pedro Mexia</name><uri>http://www.blogger.com/profile/12661143521613281659</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3881353.post-90687659</id><published>2003-03-14T03:47:00.000Z</published><updated>2003-03-14T03:49:09.000Z</updated><title type='text'></title><content type='html'> &lt;br /&gt;&lt;b&gt;Tributo ao mestre e elogio do método &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Gonçalo M. Tavares, «A Colher de Samuel Beckett e Outros Textos», Campo das Letras, 88 págs. &lt;/b&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Gonçalo M. Tavares (1970) estreou-se apenas em finais de 2001, e já publicou cinco livros. Dois de poemas: O Livro de Dança e Investigações. Novalis. Um texto teatral: O Homem ou é Tonto ou é Mulher, levado à cena. E uma «história para crianças»: O Senhor Valéry. Gonçalo Tavares representa um novo paradigma na literatura portuguesa: um autor cerebral, preocupado com o método e com a lógica literária do jogo, um escritor com preparação filosófica, notória em aforismos e frases por vezes brilhantes. Um autor da esfera do literário, óptimo por isso para contrapor aos excessos «vivenciais» e «emocionais» de que enfermam alguns dos novíssimos. A Colher de Beckett e outros Textos continua um estilo de homenagens e citações que definem uma linhagem e uma aproximação lúdica (em Gonçalo Tavares, até o «M.» é lúdico). Mas sabemos que os «Cadernos de Gonçalo M. Tavares» _ como o autor enumera a sua obra _ estão ainda no início, e que podemos estar perante uma verdadeira arca pessoana. &lt;br /&gt;Três destes «textos de teatro» são essencialmente homenagens sabedoras e competentes às obras minimalistas de Beckett. Daí o título. Não apenas o Beckett de Godot mas o das peças curtíssimas dos últimos anos. São por isso monólogos com frases curtas e entrecortadas, pausas e recomeços, repetições, didascálias minuciosas, gestos rituais, tiradas cartesianas sobre o corpo e a consciência, permanentes jogos de linguagem e um ambiente apocalíptico. Gonçalo Tavares leu atentamente Beckett, e conhece os grandes temas e os grandes tiques do irlandês, que aqui copia e parodia: o tema obsessivo da espera, a primazia dos objectos (escadas, espelhos, alçapões, gavetas), o isolamento existencial, o medo dos outros, a escrita e a rasura. Com medo de agir e de sentir, as personagens beckettianas entretêm-se a pensar alto, a contar histórias, para esquecer a desolação, numa perpétua dialéctica entre a verborreia e o silêncio. E sempre, no fundo, como se fosse um grito de ajuda, mesmo se não acreditam na possibilidade de redenção. O mesmo se passa aqui. O maior problema deste livro é, precisamente, levar longe de mais esse conceito de pastiche e não acrescentar muito ao material que reelabora. Além do mais, são textos um pouco cansativos de ler, aliás como os de Beckett.&lt;br /&gt;O melhor, neste livro, são os outros dois textos, um que é um brevíssimo tratado de encenação, na esteira de Brecht e do nosso António Pedro, e o segundo uma reflexão sobre a escrita para teatro e as gerações literárias. No primeiro, Gonçalo Tavares dedica-se em especial aos actores, ecoando um famoso poema de Herberto, até pelo tom deliberadamente poético: os actores, diz, são «ladrões de Deus». Em todos os seus textos, Gonçalo Tavares faz um elogio do método, da importância do «como» em literatura. E também defende uma noção física do teatro. Ou melhor: corporal. Um texto é um corpo e o escritor insiste na forma como a interpretação é um corpo feito texto. Como acontece na pontuação: «porque a voz pode, por exemplo, tremer, e é pontuação». A encenação, por seu lado, é uma coreografia de inteligência emocional, apostada num teatro que provoque. Porque, para Gonçalo Tavares, «o teatro é, deve ser, um bilhete para mudar a vida». Uma espécie de revolucionarismo mental que Brecht, escusado será dizer, não aprovaria. &lt;br /&gt;Gonçalo Tavares, em registo especificamente filosófico, explica que não existe, em rigor, escrita teatral, que um texto de teatro é a promessa de um acto, um acto em potência, para usar linguagem aristotélica. E há belos raciocínios: a ideia como um equilíbrio e a ficção como um desequilíbrio, a matemática como «literatura com números», e a força absorvente do zero. E frases assim: «Para os cães a literatura é mais fácil porque não existe». &lt;br /&gt;Em «Resposta a duas perguntas», Gonçalo Tavares diz que palavras e coisas são dois mundos, e não se cruzam. Por isso, numa frase nunca há acção senão a acção de escrever. Quanto ao problema dos contemporâneos, Goncalo Tavares diz uma coisa muito óbvia de forma original: que há contemporâneos de dentro e de fora, e que por isso a geração cronológica não é tão importante como aquilo a que se costuma chamar famílias espirituais. O que faz todo o sentido para um escritor que aparece relativamente isolado no panorama dos seus contemporâneos. Sobretudo porque se trata, vale a pena sublinhar, de um escritor de ideias. O que é raro em qualquer geração.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3881353-90687659?l=realabsoluto.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3881353/posts/default/90687659'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3881353/posts/default/90687659'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://realabsoluto.blogspot.com/2003_03_01_archive.html#90687659' title=''/><author><name>Pedro Mexia</name><uri>http://www.blogger.com/profile/12661143521613281659</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3881353.post-90020182</id><published>2003-03-03T00:15:00.000Z</published><updated>2003-03-03T00:15:33.436Z</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;br /&gt;&lt;b&gt;Universidade nova&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Abel Barros Baptista e Gustavo Rubim, «Importa-se de me Emprestar o Barroco?», Cotovia, 224 págs.&lt;/b&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Inquéritos ao mundo literário revelam que cada vez há mais escritores que são também universitários, quer de carreira, quer em postos de professores convidados, honorários, visitantes. É evidente também que a literatura contemporânea se tem vindo a complexificar, mau-grado um passageiro retrocesso «light» em anos recentes, e que a universidade desempenha aí um papel importante, sobretudo do ponto de vista teórico. Além do mais, o trabalho crítico sobre a literatura é crescentemente um pelouro universitário, para o bem e para o mal. Ora se a literatura, de uma forma ou de outra, se enfeudou à universidade, é natural que a própria universidade seja um tema da literatura, em particular da ficção. Um universitário que escreva ficção, tenderá, naturalmente, a espelhar de algum modo o seu quotidiano no que escreve. E porque a universidade é um meio pródigo em quezílias, embirrações, pequenos escândalos, casos e traições, vaidades e segredos, é um bom microcosmos para situar uma obra de ficção. Podemos notar que se há uma constante no romance de pano de fundo universitário é a ironia, a sátira, o sarcasmo. Na tradição anglo-saxónica, a «campus novel» tem uma importância crescente, sendo o maior cultor do género o britânico David Lodge («Changing Places», «Small World», «Nice Work») acompanhado de A. S. Byatt, do mais selvagem Tom Sharpe, do falecido Malcolm Bradbury, e tendo como antecessor, claro, «Lucky Jim», de Kinsgley Amis, um dos mais importantes romances ingleses contemporâneos. Do outro lado do Atlântico, contam-se entre os mais célebres exemplos desta temática «The Groves of Academe» de Mary McCarthy, e «Pictures from an Institution», único romance do poeta Randall Jarrell, havendo elaborados prolongamentos em, por exemplo, John Barth. A lista está longe de ser exaustiva, mas mostra a pujança de um subgénero, ainda por cima na mais importante ficção actual, que é a de língua inglesa.&lt;br /&gt;Em Portugal, David lodge é um autor de sucesso, talvez como révanche de alguns sectores do público leitor face a um domínio francês da universidade portuguesa, visto que os gauleses são um dos alvos de sátira de Lodge (implacável sobretudo com os franceses «americanizados», como Derrida). Mas a universidade, em Portugal, não é uma instituição forte e prestigiada (nada de piadas a Coimbra nesta recensão), e se existe um bom número de poetas e ficcionistas universitários (para não falar de quase todos os ensaístas), o meio académico ainda não é um tema importante da ficção portuguesa. Mas há excepções. Para nos atermos apenas aos últimos anos, tivemos uma tentativa de introdução entre nós do «campus novel»- - romance universitário – por parte de Frederico Lourenço, nos dois volumes já publicados de uma trilogia. Esses livros, muito prejudicados pela trivialidade do enredo e a pobreza dos diálogos, são uma tentativa de retratar o meio, de forma necessariamente irónica, mas não demasiado violenta nem exclusiva (Frederico Lourenço tenta, aliás, conjugar «campus novel» e «gay novel», não sendo bem sucedido em nenhuma das tentativas). Agora temos uma nova ficção universitária, embora bastante distante de um mero realismo irónico.&lt;br /&gt;Já aqui manifestei reiteradamente o meu entusiasmo pelos ensaios (tanto «hardcore» como «softcore») de Abel Barros Baptista. Nem de propósito, acaba de sair a segunda tentativa ficcional do autor, que já tinha publicado com Luísa Costa Gomes o romance epistolar «O Defunto Elegante». Desta vez o livro foi escrito com o seu velho amigo e comparsa Gustavo Rubim. Por isso «Importa-se de me Emprestar o Barroco?» - título deliberadamente faceto - pode ser chamado um divertimento universitário a quatro mãos. O texto abre ao melhor estilo camiliano, dizendo que o livro foi escrito em1984 e o manuscrito se perdeu. É uma daquelas «informações» que tanto podem ser verdadeiras como fictícias, e que, de qualquer modo, se apresenta sobretudo como um dispositivo ficcional. «Importa-se de me Emprestar o Barroco?» constrói-se numa sucessão de «relatos», situados num domínio ambíguo da narração. Há a preparação de uma antologia, a antologia propriamente dita (páginas e páginas com a reprodução de poemas), uma conferência, uma discussão sobre o texto que narra a conferência e uma coda policiesca (o policial parece cada vez mais o supertexto de infinitos subtextos da ficção moderna). Os autores servem-se do barroco como tema metafórico, que permite analisar noções essenciais da escrita literária (poética mais também ficcional) e caracterizar um período da história da cultura. Parece evidente que na maioria dos casos onde está escrito «barroco» se deve ler «pós-modernismo» (ou, como outros preferem, «pós-modernidade»). Daí a citação de Jorge Luis Borges: «Eu diria que o estilo barroco é o estilo que deliberadamente esgota (ou quer esgotar) as suas possibilidades e que atinge os limites da própria caricatura. (...) Eu diria que é barroca a etapa final de toda a arte, quando esta exibe e delapida os seus meios». É por isso que Barros Baptista e Rubim se entregam à analise imensamente erudita e subtil de mecanismos como a reescrita e a influência, bem como a anulação barroca (e de certo modo, pós-moderna) da ideia de plágio e a inexistência da originalidade. Os que os autores defendem é que certos temas – o tema escolhido é o «carpe diem» horaciano e a sua reescrita pelos poetas barrocos – se predispõem precisamente a esses mecanismos, que anunciam o monopólio da metáfora, a flutuação do sentidos, a maquinação que a si mesma se revela. A certa altura, a narração é interrompida por poemas: de Góngora, Camões, Ronsard, Garcilaso e dos barrocos portugueses como Violante do Céu, D. Tomás de Noronha ou Jerónimo Baía, e sabemos que isto não é um livro de ficção «normal» (haja Deus). A análise mais detalhada da reescrita de temas europeus em contexto tropical na obra de Gregório de Matos revela também o domínio que ABB tem da literatura brasileira, coisa rara entre nós. Não é certamente por acaso que uma das personagens se chama Machado (Machado e Camilo foram, depois de Sterne, dos primeiros pós-modernos).&lt;br /&gt;A componente estritamente ficcional deste texto é, no entanto, débil, e nem o Professor Pestana, um «literato caduco» e um «professor decrépito», dá à ficção vida que mereça a designação de romance. Há, além do mais, passagens aborrecidas (no início do livro, sobretudo, com as considerações acerca do herbário). Há também «inside jokes» cansativas. E alguns dos poemas barrocos são intragáveis. Finalmente, o enredo policial de cunho metafísico, devedor de Borges, não chega a ser convincente. Encontramos apenas um bom momento narrativo: a última conferência de Pestana, uma cena de observação a la Jacques Tati; mas mesmo essa passagem parece correr para a apoteose da inteligência que as partes ensaísticas explanam. E se refiro a inteligência é porque este livro é um exercício de inteligência, com grande ênfase na palavra exercício: dois professores de literatura que se divertem. Algumas das análises são brilhantes: por exemplo o tema do «carpe diem» no barroco como uma «máscara para o corpo», revelando uma mutação no entendimento do corpo e da sua historicidade desde os conceitos moralizantes e estéticos até ao prazer barroco, precursor da modernidade. Não exactamente um assunto que interesse ao comum dos mortais? É certo. Aliás, livros como este são um subgénero no subgénero da ficção universitária. E estes autores são o que se chama «escritores para escritores» ou talvez «escritores universitários para escritores universitários». Com grande auto-ironia, Baptista e Rubim chamam a um determinado passo uma «caricatura da problematização», mas a teoria e a literatura pós-modernas (pós-desconstrucionistas) não têm sido senão caricaturas de problematizações, razão pelas qual alguns as acham um caminho estéril na literatura, sem perceberem que são apenas os últimos e inevitáveis pregos no caixão do romantismo.&lt;br /&gt;«Importa-se de me Emprestar o Barroco?» é essencialmente, como fica dito, um ensaio ficcionalizado (com excursos por Thomas Mann, Barthes ou Walter Benjamin) composto por dois brilhantes ensaístas, numa escrita fragmentária que se dedica à problematização da narração (um texto questiona sempre o anterior), da efabulação (conceito essencial no pós-modernismo), da autoria (quer dizer, da identidade), e da ficção (se é que tudo não é ficção). Um excerto estranhamente explicativo, mas clarificador: «Importa sobretudo repartir a responsabilidade do discurso e engendrar modalidades discursivas que o permitam, caracterizando cada um dos falsos sujeitos que vai assumindo a palavra. Assim, procuro obter o efeito essencial, que é deslocar os critérios de recepção. Atribuindo o discurso a alguém que não constitui instância de autoridade, a leitura não deverá ser dominada por uma instancia de verdade ou por um critério de pertinência. Menos ainda da responsabilidade. É preciso que cada leitura formule a verdade lúdica capaz de constituir a história». (pág. 175). Mas este é também um livro divertido - que traduz «carpe diem» por «curtir o dia», por exemplo - na linha provocadora do primeiro «ensaio» publicado por ABB, e que se chamava «O Professor e o Cemitério». Um livro intrincado e por vezes labiríntico, que decepcionará os leitores incautos. Mas não desespereis, almas simples: acaba de sair uma reedição das «Minas de S. Francisco», de Namora.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3881353-90020182?l=realabsoluto.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3881353/posts/default/90020182'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3881353/posts/default/90020182'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://realabsoluto.blogspot.com/2003_03_01_archive.html#90020182' title=''/><author><name>Pedro Mexia</name><uri>http://www.blogger.com/profile/12661143521613281659</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3881353.post-89807361</id><published>2003-02-27T01:12:00.000Z</published><updated>2003-02-27T01:12:00.233Z</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;br /&gt;&lt;b&gt;Longínquo purgatório das recordações &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;António Mega Ferreira, «As Caixas Chinesas», Assírio &amp; Alvim, 160 págs&lt;/b&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;António Mega Ferreira é bom em tudo o que faz. Na literatura, um dos seus muitos ofícios, foi autor de modelares crónicas e ensaios, de poemas bissextos mas fascinantes, e de ficções marcadas por uma grande atenção à escrita. O seu imaginário é de sofisticação mas também de tom emotivo. São cinco os seus livros de ficção, contando com os recentes A Expressão dos Afectos (uma colectânea virtuosa de contos e pastiches) e Amor (novela de grande intensidade mas que me parece insuficientemente trabalhada). Os livros anteriores são O Heliventilador de Resende, As Palavras Difíceis e este As Caixas Chinesas, cuja primeira edição saiu em 1988 e que foi agora reeditado. Na reedição, diga-se de passagem, caíram as dedicatórias. Coisas da vida. Mega usa um tom literário, formalmente cuidado e com evidente leituras, e consegue uma escrita quase intimista sem passar por um biografismo evidente. O que se persegue nestes contos é o território a que o autor chama o «longínquo purgatório das recordações». &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O tema recorrente dos contos de As Caixas Chinesas é o regresso. Regresso físico que é também regresso afectivo: os protagonistas voltam a lugares que abandonaram e, no mesmo passo, revisitam o passado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O primeiro texto, que dá nome ao livro, é uma narrativa proustiana de travo fantástico. As caixas chinesas são o enigma da infância e, em última análise, da própria existência. Há uma mãe possessiva e um pai indiferente, uma vida familiar feita de silêncios e não-ditos, um sentido miniatural dos interiores e do quotidiano, uma fragilidade receosa. Guardadas numa vitrina, as três caixas exalam um fascínio todo oriental, com histórias de dragões e imperadores; ficaram anos e anos sem nunca serem abertas, e o regresso a casa da personagem do conto é a tentativa de, ao fim de décadas, descobrir o segredo que essas caixas encerram. Como se fosse o Rosebud do filme de Orson Welles. Enigmas e recordações são uma só substância, a metaforização objectivizada dos mistérios da vida, e uma impossibilidade que o autor resolve em chave de maravilhoso. Assim como a mãe _ personagem dominadora _ contava imaginadas moralidades chinesas , o interior das caixas nunca será realmente desvendado, porque isso seria conhecer mais mistérios do que é permitido, e a fantasmagoria final acaba por parecer uma fantasia infantil sobre a impenetrabilidade do sentido. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sobre o Vulcão apresenta-se essencialmente devedor de Yourcenar, um dos autores que Mega Ferreira mais cultiva. Há uma sofisticação culta que também não seria estranha a Colette: uma mulher sábia e mais velha, dona de gatos, ouvindo discos, bebendo chá e vinho do Porto, e dissertando sobre as paixões. Entre um vulcão, a solidão e o tédio, esta coquete trágica e operática ocupa-se da educação sentimental de um jovem, enquanto o marido não regressa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A história mais banal do livro é a terceira, sobre «o maior espectáculo do mundo». Mais uma vez, temos um regresso: uma herdeira de província volta à quinta que abandonou quando era adolescente. Aos dezasseis anos fugiu com um trapezista de circo, com quem partiu para uma vida supostamente excitante, na verdade apenas nómada e marginal. Mas as coisas mudam, mudaram, e as reminiscências fazem-se reincidências, as vidas repetindo-se em terceiros. É, nesse sentido, a história mais portuguesa do conjunto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O último conto, A Carta Azul, mantém o jogo de espelhos e de recorrências, desta vez em estilo cinematográfico cool. Martinho Dante é um vigarista que se aproveita dos descaminhos da História e dos sonhos das pessoas e das populações, mas que acaba um intrujão intrujado. É um jogo de recordações de infância, de dores biográficas e, como sempre, de mulheres fatais. O passado não parece verdade, é um palco de situações idênticas e identicamente perigosas: «A memória não é uma caixa de imagens (...). A memória (...) é apenas uma moldura que delimita o espaço de um quadro, mas que lhe ignora o tempo, que mistura as cores e as formas numa espécie de cadinho adormecido sobre o aparador da infância. E depois, um dia, a necessidade ou a imaginação despertam-na, e ela transforma-se em fábrica de sonhos e de ilusões (...), bruscamente as imagens todas rodopiam sobre si próprias e, quando de novo se aquietam (...) quem se atreve a garantir que tudo se passou assim mesmo (...)».&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quatro histórias tristes de um esteta com angústias.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3881353-89807361?l=realabsoluto.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3881353/posts/default/89807361'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3881353/posts/default/89807361'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://realabsoluto.blogspot.com/2003_02_01_archive.html#89807361' title=''/><author><name>Pedro Mexia</name><uri>http://www.blogger.com/profile/12661143521613281659</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3881353.post-89704810</id><published>2003-02-25T11:08:00.000Z</published><updated>2003-02-25T11:10:18.000Z</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;b&gt;Resposta ao inquérito do DN: Seria possível hoje um João Gaspar Simões? (versão integral)&lt;/b&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;1. Penso que João Gaspar Simões (ou, como se diz por vezes, «um João Gaspar Simões») não seria possível hoje. Desde logo, pela desvalorização progressiva do estatuto da actividade crítica: um crítico hoje, mesmo se publicar regularmente e for lido pelos do costume, não tem (felizmente) o poder de outras décadas. Com uma ou duas excepções, os críticos literários actuais não fazem e desfazem carreiras, e não creio que fazer e desfazer carreiras seja a tarefa da crítica. É impossível hoje a autoridade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;2. Não é hoje realista pretender acompanhar tudo o que vai sendo editado, como Gaspar Simões fazia (já então de modo impressionante), tendo em conta o enorme aumento do número de livros publicados. É impossível hoje a exaustividade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;3. Não existe hoje uma vida literária intensa (em termos de grupos, revistas, suplementos, tertúlias, polémicas), porque a própria literatura é apenas um produto, e não uma vivência. Ao crítico substituiu-se o comissário, isto é, o agente de marketing. É impossível hoje a intensidade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;4. Mas será que Gaspar Simões seria necessário hoje? Tenho conhecido quem detestasse Gaspar Simões, assim como tenho conhecido que ache que «faz falta um Gaspar Simões» (escusado será dizer quem é que também «faz falta»). Não tendo sido seu contemporâneo – enquanto leitor –, a minha visão do crítico pode ser ao mesmo tempo mais serena e mais injusta. Mais serena porque já o vejo historicamente, e não no campo das discussões e paixões do momento. Mais injusta, porque conheço essencialmente os seus textos dos livros (os vários volumes da Crítica, editados pela Imprensa Nacional), e em livro os textos de Gaspar Simões aguentam-se relativamente mal. Sou capaz de recorrer a essas compilações de artigos para identificar um autor hoje esquecido (e isso é importante como documento), mas raramente me serve como bibliografia passiva útil. Por um lado, a pressa jornalística nota-se terrivelmente no estilo, e o estilo é o que mais interessa em literatura. Por outro lado, se reconheço que JGS tinha a sua dose de «intuições» e de «premonições», raramente encontro nos seus textos a subtileza e a fulgurância que espero de um grande crítico (mas raramente encontro essas qualidades na crítica portuguesa em geral). Sobre Pessoa, por exemplo, foi pioneiro mas no fim de contas frustrante, até porque enveredou por um perigoso biografismo, no que realmente me aprece ser o engano mais grave do seu magistério. Não só aquilo que chamamos «João Gaspar Simões» se tornou desnecessário (não importa se bem ou mal), como o próprio trabalho do João Gaspar Simões 1903-1987 é em grande medida uma referência histórica, de uma necessidade portanto relativa e localizada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;5. Gaspar Simões teve aquilo que se chama o mérito objectivo: mais de cinquenta anos a pontificar, a ler tudo e a escrever sobre tudo. Tinha também assinaláveis virtudes pessoais para um crítico, como a honestidade e a independência (a coerência na crítica, francamente, parece-me uma virtude sobrevalorizada). Se me agrada alguma veemência na escrita, creio que a partir dos anos 60 essa veemência se tornou apenas ressentimento contra as novas correntes, estruturalistas na crítica e textualistas na poesia, o que torna muitas vezes penosos os textos desse período (os que conheço melhor, por sinal).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;6. Tenho que admitir, porém, que não me são antipáticos os epítetos negativos que se colaram a JGS: pode ser importante uma abordagem «psicologista» se a obra sobre a qual se escreve for psicologista (como tantas ainda são); não me incomoda nada o «impressionismo», porque julgo ser característica mesma do textos jornalísticos sobre literatura (por oposição à crítica universitária); finalmente, o «juízo de valor» sobre a obra criticada parece-me um mecanismo útil, sobretudo se estivermos a falar da prática crítica de quem, como Gaspar Simões, tinha também uma obra «de criação» (como se diz).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;7. Julgo que neste centenário devemos reconhecer o papel importante que João Gaspar Simões desempenhou, sem nostalgias nem azedumes. A cada época os seus críticos.&lt;br /&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3881353-89704810?l=realabsoluto.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3881353/posts/default/89704810'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3881353/posts/default/89704810'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://realabsoluto.blogspot.com/2003_02_01_archive.html#89704810' title=''/><author><name>Pedro Mexia</name><uri>http://www.blogger.com/profile/12661143521613281659</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3881353.post-89573560</id><published>2003-02-23T00:43:00.000Z</published><updated>2003-02-23T00:43:14.046Z</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;br /&gt;&lt;b&gt;Literatura e fantasma&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Miguel Tamen, «Artigos Portugueses», Assírio &amp; Alvim, 160 págs., 14 €&lt;/b&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se tivesse que escolher dois ensaístas portugueses mais novos (com menos de cinquenta anos) não hesitaria: Abel Barros Baptista e Miguel Tamen. Sobre o primeiro, já escrevi nestas páginas. O segundo publicou agora «Artigos Portugueses», o mais acessível dos seus livros&lt;br /&gt;O interesse de Miguel Tamen pela literatura portuguesa é, como nos diz o autor, «selectivo, ocasional e privado», não fazendo dessa actividade uma ocupação usual. Este livro recolhe dez textos sobre autores portugueses, publicados em revistas portuguesas e americanas, em obras colectivas, que serviram de prefácios ou foram conferências, e inclui também inéditos. Miguel Tamen é especialista em teoria literária, área em que publicou dois livros importantes, mas para iniciados: «Hermenêutica e Mal-Estar» (1987) «Maneiras da Interpretação» (1994), havendo duas obras mais recentes escritas em inglês (o autor é professor em Chicago).&lt;br /&gt;Os textos são apresentados sem grande aparato académico (mas com notas e um índice onomástico e temático no final do volume) e por isso são de certo modo «dialécticas aplicadas de literatura», por oposição a «dialécticas teóricas da literatura» (cito, claro, Jorge de Sena). O fio condutor deste livro é uma visão da história literária portuguesa – do cânone – como uma entidade fantasmática, toldada por equívocos, deturpações, «misreadings». Há nesta obra, como nos é explicado num dos primeiros textos, dois tipos de fantasma: a teoria e a revisão. Numa «démarche» que deve alguma coisa a Harold Bloom e Paul de Man (que Tamen já traduziu), procura-se, através de uma boa base teórica – largamente implícita – fazer uma revisão da literatura portuguesa que não tenha muito a ver com os temas tradicionalmente sublinhados (a identidade, a História), e mais com a própria literatura. Estamos em plena geração do prazer do texto, exemplificada por ABB e Tamen, mas também por Luísa Costa Gomes na ficção (na poesia a questão é menos evidente). Tamen interessa-se pelo «excepcionalismo português», ideia mítica que ensombra desde logo a leitura canónica de Camões, mas que tem curiosos prolongamentos para autores mais recentes.&lt;br /&gt;Autor de selecta, de estudo obrigatório, mas também autor oficial porque sempre na boca do Poder, Camões tem de ser de certo modo resgatado pela e para a literatura. Não precisamos de insistir nos núcleos temáticos «patrióticos», não apenas porque sofrem ao mesmo tempo de evidência e equívoco, mas sobretudo porque há leituras muito mais proveitosas do poeta, longe da hipérbole e do panegírico, de cunho aliás marcadamente extra-literário. Camões, e a sua épica em particular, não é documento de nada, diz-nos Miguel Tamen. A sua Musa não é a pátria ou o Gama, mas a Literatura (perdão pela maiúscula), como comprovamos neste magníficos versos: «Aqui, minha Calíope, te invoco / Neste trabalho extremo, por que em pago / Me tornes do que escrevo, e em vão pretendo, / O gosto de escrever, que vou perdendo». Haverá depois reverberações de Camões, e da ambiguidade que causa nos poetas, em autores como Cesário e Pessoa, que Tamen escalpeliza com finura. É por isso que um «mal entendido filológico» fará da frase pessoana «a minha pátria é a língua portuguesa» um prolongamento pateta da desastrada leitura camoniana. Pessoa, aliás, gera imensos equívocos, como fica demonstrado numa desmontagem da carta sobre a origem dos heterónimos.&lt;br /&gt;Tamen – como Abel Barros Baptista, de resto – adora análises atinentes a figuras de estilo e outros truques da linguagem, entretém-se a desvendar analepses, prosopopeias e quiasmos, não se ficando pela paráfrase, mas investigando, com desarmante precisão, o miolo dos textos. Na prosa narrativa, ensaia sobretudo aproximações de narratologia, estudando o estatuto polimorfo do narrador. É por isso normal que comece pelas «Viagens», de Garrett, que caracteriza como «literatura de quarto» e um livro com «muito pouca terra». Ou seja: esqueçam a Joaninha dos olhos verdes, esqueçam Santarém, esqueçam os barões; as «Viagens» é um exercício de narração que tem pouca ligação à «realidade», noção que neste livro acertadamente se contesta a cada passo. Assim também «A Cidade e as Serras» (obra muito bem analisada por Ana Nascimento Piedade em «Ironia e Socratismo em A Cidade e as Serras); o semi-póstumo de Eça não é um livro sobre «o campo» e «a cidade», oposição dual, simplista, mas um jogo sobre as suas personagens principais, e uma intrincada rede de ironias e cepticismos. Tamen introduz conceitos decisivos como «catástrofe» ou «monumento-caricatura», sobre os quais não posso aqui discorrer mas que nunca são conceptualizações estéreis, antes enormes contributos para a compreensão do texto. Digamos que essa é a grande novidade deste ensaísta, um pós-derrideano assumido mas que usa a desconstrução com descontracção.&lt;br /&gt;Na verdade, Miguel Tamen consegue conjugar humor e erudição em textos que são um prazer intelectual raro na ensaística portuguesa, em geral vinda de recenseadores hebdomadários como este que aqui escreve e de mestres e doutores enfadonhos e inimigos de língua portuguesa. Há uma dimensão evidente de «aventuras da interpretação» neste livro, feito de leituras muito sabedoras e subtis de textos já muito estudados. A interpretação é, com certeza, o interesse maior deste livro, mas porque serem também pequenas aventuras é que temos tanto gosto em ler os textos. O autor dedica um texto a M. S. Lourenço, exemplo de um espírito distinto e sofisticado, mas Tamen, ao contrário deste e doutros respeitabilíssimos ensaístas, tem também uma faceta irónica - talvez de origem genética - que nestes textos é uma particular delícia. Não espanta por isso que se meta, provocatoriamente, com as «almas frágeis que frequentam a universidade», e a quem não recomendamos, em geral, este livro.&lt;br /&gt;Há um texto de «Artigos Portugueses» que me parece uma obra-prima, e faz parte dos melhores ensaios da última década, com, digamos, o texto de Helder Macedo sobre o (falso) platonismo em Camões ou o de João Barrento sobre a melancolia na poesia portuguesa recente. Nem por acaso, é um texto sobre o qual escreveu o já citado Abel Barros Baptista, defendendo-o das naturais incompreensões que gerou. Esse texto – «A Poesia» – foi prefácio às obras completas de Alexandre O’Neill, na Assírio &amp; Alvim. O prefácio mais «sui generis» que li nos últimos anos. Fiel ao seu título, é da poesia que se trata nesse texto, que mais uma fez liberta a literatura de uma vocação redundante, descritiva, tendo em vista a «vida real», e a faz matéria muito mais interessante: palavras (apenas palavras), alguns versos, aptos para fazerem sentido para nós, como as adivinhações para quem nelas acredita. Perante umas obras completas, mais fica a ideia que só lembramos uns versos de cada poeta, um pouco ao acaso, até porque a maioria dos versos de qualquer poeta «nem para atacadores», como diz brilhantemente O’Neill. Partindo de um poema em concreto, um que se refere supostamente à Avenida. da Liberdade (e que diz muito a Tamen), demonstra-se que o poema não diz respeito à «Avenida da liberdade», não é uma injunção (nem autor nem leitor são parvos), não se refere afinal ao mundo mas limita-se a um astucioso alinhamento de frases. A poesia «diz coisas», mas num sentido tão especial que Tamen duvida mesmo que se trate do que habitualmente designamos por «linguagem». Em resumo: um desmancha-prazeres, este ensaísta. Os poemas de O’Neill, diz-nos parafraseando o vate lisboeta, são uma questão que o poema tem consigo próprio, assim como, por exemplo, certos sonetos tratam sobretudo da forma soneto. A poesia «pobre» de O’Neill trabalha com clichés, um dos quais é a ilusória e frustrante relação com o mundo. Fugindo daquilo que Tamen chama «assuntos gerais da poesia» (ou seja: «raivas, amores e a identidade nacional»), essa poesia é bem mais rica do que a praticada por aqueles a quem o nosso ensaísta chama «baladeiros audazes» (estará a pensar nos mesmos que eu?).&lt;br /&gt;«Artigos Portugueses» é por isso uma espécie de dicionário das ideias recebidas (dos clichés) como o que Flaubert escreveu, apostado a «desmistificar» certas ideias da literatura portuguesa, mas sabendo que «desmistificar» é também um cliché. Um livro divertido, imensamente inteligente e absolutamente necessário. E também uma desmontagem de recepção romântica da literatura: «É sabido que no pior dos casos, um crítico é alguém que lembra dolorosamente a terceiros que um casaco que viram de passagem numa montra e por que se apaixonaram sem remédio é afinal feito de um material pouco nobre» (pág. 114). Teoria literária «ad usum delphini»? Com certeza, mas para crianças de muito alimento.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3881353-89573560?l=realabsoluto.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3881353/posts/default/89573560'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3881353/posts/default/89573560'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://realabsoluto.blogspot.com/2003_02_01_archive.html#89573560' title=''/><author><name>Pedro Mexia</name><uri>http://www.blogger.com/profile/12661143521613281659</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3881353.post-89573536</id><published>2003-02-23T00:42:00.000Z</published><updated>2003-02-27T00:55:05.000Z</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;br /&gt;&lt;b&gt;Acontece: a megera com quem casámos&lt;/b&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;1. O senhor Ministro da Presidência – não exactamente a mais subtil das criaturas – dedicou as suas mais recentes declarações fogosas e insensatas ao programa Acontece, da RTP 2. Não vale a pena recordar os exactos termos do disparate ministerial. Mas vale a pena meditar sobre a reacção a essas palavras. O país cultural, como seria de prever, rasgou as vestes. Eis a «direita» contra a «cultura», proclamaram, e não faltaram indignações, solidariedades, e promessas de abaixo-assinados. Esclareço que não sou contra a existência de um canal público; não sou contra a existência de um programa cultural num canal público; não sou contra a existência do Acontece. Mas trata-se de um programa com imensas fragilidades, que não podem ser branqueadas com solidariedades corporativas e ideológicas. É por isso importante que se leia nesta indignação dos intelectuais face a uma possível morte do Acontece um sintoma do meio cultural português, de que o dito programa é, aliás, espelho. Vejamos brevemente porquê.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;2. O Acontece apresenta-se como aquilo que vulgarmente se chama um «magazine cultural»: diariamente temos um apanhado de lançamentos de livros, peças de teatro, exposições, e assim por diante. Há também entrevistas, uma montra de novidades, e críticos de áreas específicas. Muito bem. Mas há que ver o programa para perceber como uma ideia sensata se torna numa lamentável salada russa. Em primeiro lugar, a importância relativa de cada evento: o Acontece é capaz de dar os mesmos três minutos (e o tempo em televisão é precioso) à exposição Bacon em Serralves e ao lançamento de um qualquer livro de um sonetista nortenho entrado na idade. Em segundo lugar, no Acontece tudo é bom, sobretudo se for português ou «lusófono»: só há bons escritores, bons realizadores, bons pintores, bons encenadores, bons músicos. Em terceiro lugar, existe uma descabelada quota africana, através da qual entram no programa todos os subprodutos dos PALOP, escamoteando a (ainda) relativa raridade de artistas significativos nesses territórios. Em quarto lugar, as entrevistas são feitas num estilo de ignorância crassa e de parvoíce descontraída que faz Bernard Pivot parecer o mais sofisticado e profundo entrevistador cultural do mundo (a coisa melhora significativamente quando não é Carlos Pinto Coelho a conduzir o programa). Em quinto lugar, o papel dos críticos, em vez de ser autónomo e directo, é enquadrado muitas vezes por um contexto de perguntas inanes que retiram qualquer possibilidade aos esforçados colaboradores de dizer coisas interessantes. Em sexto lugar, a discussão contraditória, a polémica e a agressividade (partes integrantes e essenciais da cultura) são reduzidas, higienizadas, censuradas. Em sétimo lugar, o establishment cultural é reproduzido quase na íntegra, em vez de se procurar novos autores ou protagonistas que não digam sempre o mesmo, do mesmo modo. Em oitavo lugar, as modas têm um enorme peso, levando à atribuição de tempo de antena a produtos culturais que não duram mais que os quinze minutos (ou quinze dias) do seu sucesso. Em nono lugar, cultiva-se um enjoativo discurso «poético» sobre a cultura (e a literatura em particular), depois estranhamente conjugado com comentários de badana ordinária, de professor do liceu sem vocação. Em décimo lugar, há tentativas de encenação televisiva (de poemas, ou mesmo de livros) que, com excepções (Natália Luisa é uma), produzem dos momentos mais kitsch e grotescos da televisão portuguesa. A lista podia continuar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;3. O Acontece também tem momentos razoáveis (estou-me a lembrar da crítica de música clássica ou os mini-debates sobre temas de ciências sociais), mas globalmente é um mau programa. Claro que neste domínio pouco estimado mais vale um produto mau que produto nenhum, porque sempre é uma maneira de as pessoas que não têm contacto com os eventos da cultura estarem pelo menos informadas (embora não criticamente informadas) do que se passa. Um programa destes dirige-se a um público não-especializado, a pessoas que vivem em grande parte fora dos grandes centros e que não têm outra fonte generalista de acesso à cultura. É por isso que me parece que o magazine diário não deve ser de modo nenhum extinto. Mas não tenhamos dúvidas: o Acontece continuará a ser um mau programa: depois de quase duas mil emissões, é evidente que não vai melhorar, porque é um produto fossilizado que corresponde à mentalidade saloia da cultura portuguesa, uma mentalidade deslumbrada e pouco exigente. Somos um país que tem Florbela Espanca no cânone.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;4. Mas não pode haver bons programas culturais ou literários na TV? Não só pode como já houve: feitos pelo charmoso David Mourão-Ferreira, o idiossincrático Joaquim Manuel Magalhães, o aprazível Álvaro Manuel Machado, e outros. Recentemente, os programas de Francisco José Viegas eram exemplo de uma presença dos livros na televisão produzida de forma viva, cativante, inteligente. Na área dos programas culturais genéricos, temos na SIC-Notícias (o melhor canal televisivo português) o Sociedade das Belas Artes: visualmente moderno, feito por gente culta e articulada, tematicamente variado, com uma boa agenda e susceptível de levar as pessoas aos eventos (só não se percebe o facto de apresentado por uma starlette, a não ser pelo seu estatuto de Esposa de Rorty). Para citar os imbecis, a cultura não tem de ser «chata». A cultura só é «chata» quando integrada num meio de seriedadezinhas bacocas, amigalhaços ideológicos, medíocres com o rei na barriga, gente inócua ou timorata ou bocejante. Que é a gente que em geral temos na cultura.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;5. Acabar com o Acontece? Seria estúpido e contraproducente. Mas não façamos da megera com quem casámos a Carla Bruni do bairro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(&lt;i&gt;O Independente&lt;/i&gt;)&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3881353-89573536?l=realabsoluto.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3881353/posts/default/89573536'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3881353/posts/default/89573536'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://realabsoluto.blogspot.com/2003_02_01_archive.html#89573536' title=''/><author><name>Pedro Mexia</name><uri>http://www.blogger.com/profile/12661143521613281659</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3881353.post-89400920</id><published>2003-02-20T01:18:00.000Z</published><updated>2003-02-20T01:18:58.080Z</updated><title type='text'></title><content type='html'>UMA ANTOLOGIA COM MANUEL ALEGRE DENTRO&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;«EnCantada Coimbra», Dom Quixote&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Há, como se sabe, dois tipos de antologias: as antologias com Manuel Alegre dentro e as antologias sem Manuel Alegre dentro. «EnCantada Coimbra» pertence à primeira espécie. Incapaz de perceber que possa não fazer parte do cânone futuro, quando já ninguém souber o que significa «stencil» e «grupo de Argel», Alegre poderá ficar reconfortado pela sua ampla presença numa antologia da paróquia. Paróquia é o termo mais apropriado a Coimbra: a Universidade emprestou a Coimbra de uma série de vícios e tiques que as décadas não apagaram, como explicou Abel Barros Baptista num divertido texto recolhido em «A Infelicidade pela Bibliografia». Esta colectânea pode ser indispensável para quem aí viveu ou estudou e utilize com olhos rasos de água a palavra «mocidade», mas tem um interesse literário bastante mais limitado. A selecção vai de Almeida Garrett aos novíssimos, e recolhe textos sobre o Mondego, a Quinta das Lágrimas, os choupos, o Penedo da Saudade, as festas da Raínha Santa, os choupos, as ruelas, o Arco de Almedina, a Torre de Anto, os choupos (estão a ver a ideia), embora, diga-se de passagem, alguns poemas não tenham nada a ver com Coimbra, a não ser, eventualmente, terem sido rabiscados num intervalo dos Encontros de Fotografia.&lt;br /&gt;As organizadoras do volume – Adosinda Providência Torgal e Madalena Torgal Ferreira - organizaram doze núcleos temáticos, do real ao imaginário, passando por Coimbra como metáfora, a memória dos verdes anos, e, vejam lá, a «intimização crepuscular», mas é sobretudo notória a presença da academia e a litania de lacrimosas nostalgias.&lt;br /&gt;Os poetas? Gonçalves Crespo, Fausto Guedes Texeira, João de Deus, Antero, Pessanha, Pascoaes, Régio, Afonso Duarte (que pelos vistos toda a gente conhece de cor), Nemésio, Torga (fraquinho), Edmundo de Bettencourt, Carlos de Oliveira, Manuel Alegre, Alberto Pimenta, Nuno Júdice, João Miguel Fernandes Jorge, Ana Luísa Amaral, Fernando Pinto do Amaral, poetas mais jovens (o melhor dos quais é Luís Quintais) e cinco ou seis desconhecidos (e com boas razões para continuarem assim). Há também poetas que o cânone não favoreceu como Cabral do Nascimento, Casais Monteiro, Alberto de Monsaraz, João José Cochofel, Francisco Bugalho, e o mítico António Sousa. O tom persistente é o de trovas, toadas e baladas, poemas próprios para serem recitados e cantados, mas menos interessantes em página.&lt;br /&gt;Momentos altos? Um atroz poema vintista de Garrett, os cansativos romances históricos, Alberto de Oliveira a chamar «Byron do sul» a António Nobre, um poeta que se refere a Torga como «firme menir», penosos versos de circunstância de Sena sobre Paulo Quintela, toda a secção sobre a Raínha Santa, o semi-secreto poeta António Arnaut, Eugénio de Castro vendo a linda Inês como uma lésbica rebolante (palavra de honra), os poemas sobre costureiras, lavadeiras e – sim – violeteiras, e inúmeros versos geracionais em forma de piada privada e chalaça de café, em geral sátiras sobre lentes e demais folclore. Sem esquecer todos os poemas que começam com variantes de «ó lágrimas, correi» ou usam a palvra «quimera». Isto é, um apanhado das fragilidades históricas da poesia portuguesa Escapam, como seria de prever, a secção sobre Pedro e Inês (com uma passagem de «A Margem da Alegria» de Ruy Belo), excertos da pungente, triste e zangada «Carta a Manuel» de António Nobre, ou os magníficos quatro poemas de Fernando Assis Pacheco,&lt;br /&gt;As organizadoras já tinham coligido os poemas em «Lisboa com seus Poetas» (2000), e »Ao Porto» (2001), ambos editados pela D. Quixote (a do Porto, parece-me, bastante superior em termos de critério). Por qualquer razão, as antologias temáticas funcionam sempre pior, talvez porque a boa poesia resista a uma organização temática ostensiva. Seja como for, o livro essencial sobre Coimbra continua a ser as «Memórias da Alegria», de Eugénio de Andrade (que de resto não morre de amores pela cidade). O volume traz algumas fotos (dispensáveis) de locais conimbricenses e índices bons e completos.&lt;br /&gt;Quanto a Manuel Alegre, vale sobretudo pela sua vertente musical, mas em lirismo de pataco e claramente de segunda linha. Não faz parte do oiro da poesia portuguesa. O que não significa que não seja um dos melhores poetas da paróquia.&lt;br /&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3881353-89400920?l=realabsoluto.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3881353/posts/default/89400920'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3881353/posts/default/89400920'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://realabsoluto.blogspot.com/2003_02_01_archive.html#89400920' title=''/><author><name>Pedro Mexia</name><uri>http://www.blogger.com/profile/12661143521613281659</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3881353.post-89400766</id><published>2003-02-20T01:15:00.000Z</published><updated>2003-02-20T01:15:52.000Z</updated><title type='text'></title><content type='html'>PEDRO PAIXÃO&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Apesar de se considerar um «escritor relutante», Pedro Paixão escreve incessantemente sobre o acto de escrever, como se fosse um vício. Depois dos quatros livros que constituíram o ciclo das cidades – marcado indelevelmente pelo que chama «o Setembro do pavor» - Paixão arruma a casa publicando cinco textos antigos em Cala a Minha Boca com a Tua e recolhendo as suas crónicas do PÚBLICO em Girls in Bikini. A próxima obra, anuncia, vai chamar-se Xanax. O que faz todo o sentido: existe um evidente sofrimento nestes textos, que não é apenas «literatura», termo aliás pouco estimado pelo autor. Há também imensas fragilidades, mesmo em termos de escrita, mas são fragilidades expostas (como se diz de uma fractura), fragilidades honestas, e que não tentam passar para a ficção consoladora ou a alegoria humanista. Até porque ficção é coisa que nem há nestes verdadeiramente textos: apenas um fio ténue, suficiente para confundir, provocar, mas sobretudo para puxar, de modo ostensivo, a «vida» para o «texto». Ou vice-versa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(Um erro técnico eliminou o resto do texto. Decorrem operações de salvação.)&lt;br /&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3881353-89400766?l=realabsoluto.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3881353/posts/default/89400766'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3881353/posts/default/89400766'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://realabsoluto.blogspot.com/2003_02_01_archive.html#89400766' title=''/><author><name>Pedro Mexia</name><uri>http://www.blogger.com/profile/12661143521613281659</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3881353.post-89400247</id><published>2003-02-20T01:05:00.000Z</published><updated>2003-02-20T01:05:53.000Z</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;br /&gt;&lt;b&gt;A Escada de Jacob&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Agustina Bessa-Luís, «O Livro de Agustina», Três Sinais, 160 págs.&lt;/b&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Agustina não pára. Com oitenta anos feitos há poucos meses, lançou dois romances (partes um e dois da deliciosa trilogia «A Alma dos Ricos»), mais um livro sobre azulejos, outro sobre viagens e aeroportos e uma fotobiografia. Para a mente criativa e com saúde a velhice é apenas um ponto da existência, e não um martírio. Mas parece blasfémia falar de «velhice» a propósito de alguém que é capaz de, não apenas na obra mas em entrevistas ou na conversa privada, dar a resposta ou dizer a frase mais original e indisciplinada da pequena ou grande plateia. «O Livro de Agustina» é essencialmente uma fotobiografia comentada, visto que o texto é demasiado breve para ser considerado uma autobiografia. Trata-se, desde logo, de um objecto magnífico, na linha do que a editora Três Sinais nos tem habituado: lembremos um outro livro de Agustina, sobre Paula Rego, ou a versão comentada dos vários livros da Bíblia. O responsável gráfico por estes edições é Luís Miguel Castro, cujo trabalho conhecemos dos catálogos da Cinemateca (convém lembrar que um dos sócios da editora, Manuel S. Fonseca, foi crítico de cinema, e com a Três Sinais procura certamente redimir os seus actuais e gravíssimos pecados como programador de telelixo). Às fotos de Agustina, familiares e amigos ao longo dos anos, juntam-se também imagens de lugares importantes biograficamente (as terras do Douro), capas de livros e traduções («A Sibila»), de quadros (Vieira da Silva), de cartas (Pascoaes, Mário Botas) e outros documentos, fotos de outro escritores (Sophia e Eugénio), de recordações (uma boneca), dactiloscritos e manuscritos (impressionantes) e também ilustrações mais poetizadas (folhas, um pião). As fotos são de Luísa Ferreira e do espólio da família. Desta obra, proibitivamente cara, fizeram-se três mil exemplares, todos assinados pela autora, o que faz do livro uma preciosidade. O meu, a propósito, é o 1172.&lt;br /&gt;O texto de Agustina desdobra-se entre fragmentos memorialísticos, as imprescindíveis divagações e comentários às fotos. Alguns destes últimos são particularmente brilhantes, e lembram os textos curtíssimos que escrevia há uns anos para «O Independente» (na legenda de uma foto com umas escadas antigas: «as escadas são mastros de solidão»). Há no entanto um caso em que a legenda identifica uma das personagens, factualmente, como «Agustina», dando ideia portanto de ter sido escrito por mão de terceiro, o que é um pouco confuso. Há também algumas descontinuidades e repetições, mas nada de anormal na autora. O texto começa por recordar a família, os avós, envoltos na bruma de um passado nortenho. O pai é uma personagem central de afectos e fascinações: «brasileiro» torna-viagem, jogador inveterado, republicano, personagem romântica por excelência. A mãe aparece como uma figura mais apagada, e é mesmo comparada à esposa de «Casa da Boneca», de Ibsen. Mas há também uma tia em que inspirou a «sibila», e uma galeria de outros secundários. Agustina sente que faz parte desta «gente do Douro», afirmando: «o Douro é a província capaz de paixões governadas e desgovernadas que há em Portugal». Camilo concordaria. O segredo da sua arte, alvitra, estará nessa Amarante onde «tudo se aprende e nada se condena», e por isso a sua literatura é um genuíno produto da terra em que nasceu, como o vinho verde «que embriaga mas não alegra». Criança, Agustina isola-se nos livros, num cinema que o pai explorava, no exemplo de uma professora. Sente-se com vocação para a escrita, e o pai apoia a sua carreira literária, por puro instinto de jogador. Escreve historinhas e aos quinze anos produz os seus primeiros romances, não publicados, «Ídolo de Barro» e «Água da Contradição» (título magnífico e elucidativo). Lê os franceses, e em especial «Madame Bovary», e mais tarde os romancistas russos, dos quais diz serem todos dignos de serem convidados de sua casa, e finalmente os grandes alemães, de Jean Paul e Musil e Broch. Entretanto peregrina pelas terras do Norte: Amarante, Gaia, Maia, Póvoa, Vila do Conde, e também por Coimbra, onde decide casar, diz, para evitar distracções (far-se-á justiça ao marido dedicado que tem sido Alberto Luís, uma vida dedicada «ad maiorem Dei gloriam») e finalmente o Porto. A filha, Mónica, também merece uma referência «en passant», como se Agustina reproduzisse a «frieza meio arrependida» com que se refere à sua própria mãe. A partir de certo momento, e foi bem cedo, tornou-se claro: «sou uma escritora». E isso prevalece sobre tudo o mais. Escreve «Mundo Fechado» (1948) e envia exemplares para os quatro grandes: Ferreira de Castro e Aquilino, que lhe respondem cordialmente e que ficarão sues amigos; Pascoaes, cuja carta de resposta lhe chega já dois anos depois da morte do autor de «Marânus»; e Torga, que, como era previsível, é pouco expressivo, o que irrita a autora, já então segura do seu génio. Coimbra, como não podia deixar de ser, não é para o seu feitio, embora se entretenha a ganhar prémios em jogos florais e à sátira em «Os Super-Homens» (1950). Reconhecendo o seu talento, muito leitoras acham-na «iconoclasta», bem como «cruel» e «perversa«, o que explicitamente recusa, embora mais à frente no texto afirme: «posso ser cruel, mas não hostil». Está consciente dos seus «admiradores», quer não o sucesso mas a glória. Escreve: «A Sibila» abriu-me as portas das letras, com a sua família sacerdotal, com os seus provincianos de carreira, os amigos da fraternidade e os amigos da onça. Fiz amigos e inimigos, comecei a viajar, a interpretar os sinais de esquerda e os valores simbólicos de direita. D’ Annunzio estava mal enterrado, Becket aparecia na forma inovadora duma estrela fixa, eu continuava a comportar-me como filha de Deus (...). Tinha a inibição do mal, que é própria do narcisismo profundo» (pág. 113).&lt;br /&gt;Se há um aspecto algo surpreendente em Agustina é o seu gosto, ao menos em certa fase da sua vida, por encontros internacionais de escritores: É verdade que isso estava no espírito de «reconstrução« do pós-guerra, e que, convenhamos, o número de grandes escritores era mais elevado na Europa do que actualmente. Para Agustina esses fóruns representavam uma «Europa do Espírito», o que anda na linha da «Partido da Inteligência» proposto por um conhecido intelectual francês. Mas tem sobretudo a ver (e sei que estou a ser maldoso) com dois gostos muito concretos de Agustina: viajar e provocar. Por isso nos conta as viagens à Grécia (de que vem um pouco desiludida), a Itália (na peugada de Santo António) e ao Brasil (sociedade que só a pode encantar e, freudianamente, espaço paterno). Quanto à provocação, temos o episódio com Anna Akmatova, em que, à pergunta feita pela grande poeta russa sobre como era mais ou menos o seu estilo, Agustina respondeu «é mais ou menos como Dostoiveski». O topete desta senhora é uma maravilha. Esse episódio não vem nesta fotobiografia, mas há referência a outros escritores, algumas acompanhados de fotos: Camilo Jose Cela, Julian Marias, Alain Bosquet, Borges e Yourcenar (com quem a têm comparado os que não vivem sem comparações). E há os sempre proveitosos aforismos, como «a tentação tem sempre um carácter sacerdotal» ou a arte poética «o que me interessa não é o que eu gosto». Bem como pequenos achados, por exemplo a consideração de um «erotismo da infelicidade», a concepção da liberdade como uma forma de epilepsia ou a definição dos amigos como «convidados celestes». É pena o enfoque excessivo em «A Sibila», que não é o seu maior romance, e referências quase inexistentes a Manoel de Oliveira ou à Revolução, embora sobre um e outra saibamos o suficiente de outros textos.&lt;br /&gt;Há sempre um «eu» nas obras de Agustina, que apresenta a soberania total do escritor sobre todos os outros papéis narrativos ou lógicos, como o narrador; mas neste livro o «eu» é mais modesto e concreto, recordando a «idade de prata» na Póvoa (a praia, o casino) ou a vivência proveitosa da pasmaceira em Esposende, sozinha a escrever. É também curioso que de si mesma em nova diga que era antipática e demasiado séria, o que talvez fosse um truque, e bonita, o que as fotos desmentem. Há sempre artifícios na escrita, e a escrita mais artificiosa é a autobiográfica, e é curioso deslindar as pistas do que fica quase por falar: o «Douro hierárquico» e das flutuações económicas que introduz nos seus romance uma variação pessoalíssima da luta de classes; ou o meio literário que a atrai e repele, mas com o qual ajusta contas em, por exemplo, «Ordens Menores». Para Agustina existe uma moral, a moral da literatura, e apesar de ser, exteriormente, apenas uma burguesa irónica e nada indiferente aos interesses seculares, é na verdade uma grande solitária. Há talvez por isso uma espécie de tom ausente, contrariado, nalgumas passagens deste livro, que raramente admite uma qualquer intimidade, embora convoque episódios menos conhecidas, como a vocação da pintura, ou confesse que considera o conto «Um Inverno Frio» uma das usas obras mais perfeitas. Agustina tem, como explicitamente escreve, um amor pela vida «forte e generoso», mas é uma escritora de «sal e vinagre», e não do lado doce e amável da existência, razão pela qual tantos professam dificuldade em lê-la. Só em raros momentos, como no texto chamado «O Castanheiro do Gólgota» (recolhido em «Contemplação Carinhosa da Angústia», de 2000), abandona a distância para aceitar a pura emoção das grandes feridas. Nas outras vezes, é de preferência uma pitonisa divertida, rodeada de gatos, na sua casa impecavelmente mobilada. O que aos oitenta anos é mais do que merecido. Agustina conta, a certo passo, que na infância a chamaram para fazer parte de um «quadro vivo» do episódio bíblico da escada de Jacob, mas que se revoltou contra a impostura da teatralidade. Quando uma personalidade se exprime, mesmo Deus cede o lugar. Ainda hoje, como se disse, há várias correntes subterrâneas neste obra, feita, como a autora confessa, de palpites, embora palpites gloriosos e da consciência de que o mundo é um lugar extraordinário, propício ao sofrimento e à profecia. Não só do que está à vista vive a literatura. E depois é fantástico uma autora de oitenta anos dizer, a propósito de um qualquer assunto, que «qualquer dia» há-de escrever um livro sobre isso. A esta hora, aliás, já o deve ter escrito.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3881353-89400247?l=realabsoluto.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3881353/posts/default/89400247'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3881353/posts/default/89400247'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://realabsoluto.blogspot.com/2003_02_01_archive.html#89400247' title=''/><author><name>Pedro Mexia</name><uri>http://www.blogger.com/profile/12661143521613281659</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3881353.post-88185211</id><published>2003-01-29T00:36:00.000Z</published><updated>2003-01-29T00:37:30.000Z</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;br /&gt;&lt;b&gt;No meu tempo&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Baptista Bastos, «No Interior da Tua Ausência», Asa, 208 págs.&lt;/b&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Baptista Bastos é um personagem. Não apenas uma personagem, o «Bastos» criado pelo nosso humorista oficial, esquerdista à moda antiga, palrador um pouco tonto, homem de convicções, retrato satírico mas no fundo simpático de um velho jornalista que não dispensa, nas suas impagáveis entrevistas geracionais, o famoso «onde é que estavas no 25 de Abril?». No novo romance de Baptistas Bastos, «No Interior da Tua Ausência», essa pergunta é substituída por outro delicioso grito de alma: «Fernando Tordo, que é feito dele?». Estamos perante um livro assombrado pelo passado, que aliás evoca detalhadamente. Como sempre acontece nessas evocações (falámos aqui há semanas de uma «démarche» semelhante, embora não autobiográfica, no livro de Francisco José Viegas), há uma tendência para a acumulação um pouco cansativa de nomes e factos, ou melhor, de pedaços de um quotidiano que emprestam verdade histórica e emocional. Neste texto abundam referências a um Portugal dos anos 50, com tabernas e leitarias, bailes, padres, magalas, cinemas com plateia e dois balcões, cafés e tertúlias literárias, putas no Bairro Alto e no Cais do Sodré, casas de jogo, cabarés, eléctricos, a Emissora Nacional, «O Século», livros atrás do balcão na Livraria Barata, a Ferrari, Aquilino na Bertrand do Chiado, cineclubes, vida de bairro, tipógrafos , empregos de comércio, fadistas, funcionários públicos, mulheres em cabelo à varanda (estão a ver, não estão?). Há, como é evidente, um saudosismo nestas evocações, comum ao discurso desta geração. Viram a versão de «O Delfim», de Fernando Lopes? Como o meu colega crítico (de cinema) João Miguel Tavares teve oportunidade de escrever, era um filme saudosista, porque no fundo a angústia deixa saudades, a estroina é a estroina, e a juventude só se vive uma vez. Grande parte dos homens que eram mais que adultos na Revolução são por isso saudosistas, e embora se situem maioritariamente à esquerda, têm qualquer coisa de (por muito que isso lhes custe) salazarista. Pertencem a um Portugal que já não existe. O «herói» deste romance é perseguido pelas saudades e pelos remorsos, reencontra os velhos amigos e as raparigas do seu tempo, sofre com o envelhecimento próprio e alheio, e embora tenha, algo incongruentemente, apenas cinquenta anos, porta-se como se fosse um ancião (há neste romance mais alusões à idade do protagonista do que num filme de Clint Eastwood). «Sou um homem antigo», diz, e não se trata apenas da idade; esse «antigamente» marca a tal pertença a uma outra época, ao passado que, segundo um romancista inglês, é um país estrangeiro. Por isso o protagonista se assume geracionalmente dizendo «vivemos na memória», declarando-se doída mas orgulhosamente «fora de moda», pronunciando mesmo a expressão fatal: «no «nosso tempo». São memórias de um jornalista e escritor que é, também, Baptista Bastos, como é evidente em várias passagens. «Cada época morre com os que a viveram», lamentam-se autor e personagem, numa elegia por um mundo em que todos eram «contra» ou «a favor», o que dava uma transparência insólita ao mundo, e pregando, kunderianamente (quem diria?) a memória contra o esquecimento.&lt;br /&gt;O pior é que o livro tenta uma desastrosa visita ao presente sociológico. Desastrosa diegeticamente e desastrosa literariamente, porque mesmo que BB alegue ironia não deixa de ser penoso para um leitor mais novo este mergulho na noite lisboeta e suas tribos, onde chamam «velhadas» ao nosso «herói», que se sente um estranho entre a multidão, é agredido, vai ao Kremlin (sim) e debita umas frases sobre a «religião do atordoamento». Tentando fazer-se de jovem, começa a noite gozado e acaba ganzado. Como maldade do autor à personagem, vale a tentativa, mas suspeita-se Bastos ou alguém da sua geração a fazer a mesma figura, e isso não é simpático de ler, porque a quase humilhação própria da sucessão geracional é um espectáculo sempre deprimente, só superado pelas tentativas de moralização por parte dos mais velhos face aos mais novos, que são sempre gente «sem sentido», «confusa», «alienada», e por aí adiante. Para além do discurso reaccionário segundo o qual a realidade actual não passa de «assaltos», «drogas» e «condomínios fechados» (leram bem). Para esta geração é um mundo hostil, que não compreendem, a cidade parece-lhes «abstracta», não «aberta ao encontro», etc., etc., numa litania cansativa. A detestável «superstição jovem» deva ser desmontada e criticada, não o pode ser em nome de uma outra juventude de quaisquer «anos de ouro». A geração do «25 de Abril» não é mais nem menos que a geração da «24 de Julho»; ambas têm os seus dramas, acrescidos do drama de ser português. Apresentar, como faz este romance, uma geração de «grandes destinos» num tempo «sem memória» não é intelectualmente sério, por mais que seja humanamente compreensível.&lt;br /&gt;Há em todo o caso, uma vertente nada envelhecida nesta narrativa. Baptista Bastos pertence à corrente libidinosa do neo-realismo, que tem como nomes mais destacados José Marmelo e Silva, Urbano Tavares Rodrigues e, de certo modo, José Cardoso Pires. O nome de Roger Vailland, comunista e libertino, é uma das referências maiores. BB é, sem dúvida nenhuma, um «courrer à femmes», e este romance não poupa nas alusões sexuais. Homem de um tempo em que as raparigas acreditavam nos piropos, o protagonista tem no fundo saudades dessa época de repressão e sublimação, em que a dificuldade tornava tudo mais excitante. O nosso jornalista foi casado, mas a fidelidade não era o seu forte. Teve muitas mulheres, mas foram relações furtivas, sem amor. Como no verso menos subtil de David Mourão-Ferreira: «tanta cama numa vida». Agora continua lúbrico e idiossincrático, gosta de mulheres fartas, vê as raparigas passar, manda irreprimíveis galanços, tenta impressionar as moças com a sua cultura e o cabelo grisalho (ser anacrónico tem o seu quê). Mas há sempre uma espécie de sexualidade estadonovista, no fundo puritana, entretida em engates manhosos com miúdas chamadas Zélia, enquanto se pensa na Ava Gardner. Uma cultura bizarra de candura e ordinarice, romantismo e pensões. O protagonista é ainda um sedutor, mas um sedutor melancólico: há mesmo uma tentativa insólita com uma mulher da limpeza, o passo mais patético do livro. Não se chega ao erotismo pífio de Urbano Tavares Rodrigues, mas há um lirismo sexual que não é do mais fino bom gosto, como se no fundo a sexualidade fosse uma coisa não certamente «pecaminosa» mas uma espécie de pequena distracção triste, como o álcool ou a política. É o tipo de homem (a personagem) que chama às mulheres«coisa boa», e está tudo dito. Reconheçamos, no entanto, que é notável (e reconfortante) a libido que este livro transpira, a permanência viva do desejo que é também uma manifestação obviamente estética. Mas quando se chega ao sexo propriamente dito, é tudo um bocado embaraçoso. Imaginem Salazar a dar uma queca.&lt;br /&gt;Há também, como é óbvio, o estafado imaginário anti-fascista, e em particular o imaginário comunista, com Júlio Fogaça, Joaquim Namorado, Orlando de Carvalho, Adriano Correia de Oliveira, o «Avante» clandestino, et coetera. Esse imaginário da resistência, que em 2002 ainda remói frases sobre a PIDE e tem nostalgia dos cantores de intervenção, é pelo menos tão pateta como os «alienados» do Kremlin, ou não será? (e sobre uma discoteca chamada Kremlin haveria com certeza gostosas análises a escrever). É a voz e a cabeça uma geração oprimida com a falta da opressão antiga (Bastos ficou famoso por comparar desfavoravelmente Cavaco com Salazar). Com a liberdade acabou o tormento mas também a cumplicidade (e a amizade é um dos temas centrais de BB). Homens de uma geração presa no «Antigo Testamento» dos seus verdes anos antifascistas, revivem mentalmente uns paradoxais «dias felizes» agora esfumados. Por isso essa geração refugia-se na noite, nos copos no British Bar, no Jamaica e outras flores, rodeados de meninas usadas, largando tiradas políticas, falando em Io Apolloni (é verdade) e criticando os que «rezaram Marx em vez de o ler» (mas imaginam o Bastos compulsando a «Contribuição à Crítica da Filosofia do Direito de Hegel»?). &lt;br /&gt;O nosso jornalista sem nome divide os entretenimentos entre duas mulheres, uma amiga sexual e uma jovem jornalista da LUSA que o acha muito «sui generis» e o incita: «devias escrever tudo isso», o que é no fundo a origem ficcional deste romance. Tendo sido deixado pela mulher e perdido um filho, é um homem mutilado, embora não vil (palavras do próprio), «entre enfermo e vencido», deambulando pela cidade e pela vida entre a agressividade e a fragilidade, entre o medo e a decadência. É uma personagem afectivamente avara, um homem dominado pela perda («a vida é perder amigos») e pela solidão (muito bem dada a solidão doméstica). Não sabe nada e não sente verdadeiramente quase nada. É sobretudo um homem obcecado e obsessivo, sem esperança, preso na recordação, que no final acaba por ser capaz de se comover, talvez de se apaixonar, embora o final deixe a entender uma tragédia que não anda longe de um livro de Drieu La Rochelle, «Le Feu Follet» (BB não esconde a sua admiração, paradoxal mas justa, pelos grandes escritores fascistas).&lt;br /&gt;«No Interior da Tua Ausência» é um livro de memórias disfarçado de romance, e um lamento com um pretexto ficcional: veja-se a significativa oscilação narrativa entre a primeira e a terceira pessoa. Não acontece muito, quase tudo não passa de observação e pensamento, as personagens secundárias são apenas esboçadas e têm nomes saramaguescos (Armínio Boloto, por amor de Deus?) e há um «subplot» policial que nada acrescenta. Em termos de escrita, encontramos passagens dispensáveis, sobretudo as mais líricas (sobre «a cor da ternura» ou o «interior da tua ausência»), um lado sonhador (incluindo um sonho em que se voa), certas divagações, certa simbologia fácil (a aranha que apanha a mosca, etc.), diálogos de filme português (não é um elogio), elucubrações civilizacionais, e outros defeitos. Baptista Bastos é um escritor realista, isto é, um camiliano (nenhuma contradição aqui) e as melhoras páginas reflectem, por exemplo, as várias cenas urbanas, os problemas com a bebida ou o relato, claramente vivido, da vida prostibular nos tempos da outra senhora (e de outras meninas). É, certamente, um realismo antigo e datado (v. a referência a Maugham), mas todos os realismos são datados. Não sendo, como se disse, um romance bem arquitectado, é um livro interessante, fluido, que se lê muito bem, e que denota que Bastos já cá anda há algum tempo. Um livro de uma honestidade tocante. Um livro triste, eivado de melancolia, representativo de uma esquerda pessimista e «moral», retratista de Lisboa como Diniz Machado, mas mais politizada, e por uma vez sem que o discurso moralizante se cristalize numa «moral da história». Não é uma obra quase perfeita, como «O Cavalo a Tinta-da-China», mas é um volume bem representativo para acrescentar à Biblioteca Baptista Bastos, agora editada pela Asa. Porque BB é mais do que o «cartoon» que as novas gerações conhecem. Não façamos dele a «consciência de uma geração», ou qualquer manobra assim «demodé», mas saibamos lê-lo como se deve ouvir, com curiosidade e respeito, uma pessoa mais velha.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3881353-88185211?l=realabsoluto.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3881353/posts/default/88185211'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3881353/posts/default/88185211'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://realabsoluto.blogspot.com/2003_01_01_archive.html#88185211' title=''/><author><name>Pedro Mexia</name><uri>http://www.blogger.com/profile/12661143521613281659</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3881353.post-87895024</id><published>2003-01-23T12:26:00.000Z</published><updated>2003-01-23T22:42:24.000Z</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;b&gt;Como os raros leitores deste obscuro site terão reparado, houve um hiato de um mês, que correspondeu primeiro a férias, depois a outros trabalhos literários. Segunda-feira retomo a publicação. Aproveito para dar as boas-vindas aos alunos da Prof. Laura Bulger, que teve a amabilidade de lhes recomendar os meus textos. Espero que não achem muito indigesto. Obrigado. PM &lt;/b&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3881353-87895024?l=realabsoluto.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3881353/posts/default/87895024'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3881353/posts/default/87895024'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://realabsoluto.blogspot.com/2003_01_01_archive.html#87895024' title=''/><author><name>Pedro Mexia</name><uri>http://www.blogger.com/profile/12661143521613281659</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3881353.post-86102771</id><published>2002-12-16T10:32:00.000Z</published><updated>2002-12-16T10:32:46.430Z</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;br /&gt;Ficção&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;b&gt;Portugal não existe&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Paulo José Miranda, «O Mal», Cotovia, 112 págs.&lt;/b&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se começam a aparecer novos talentos de feição mais convencional e canónica, surgem outros que são «casos» excepcionais: por exemplo, Gonçalo M. Tavares ou Paulo José Miranda. A obra do segundo divide-se entre a ficção curta de carácter quase ensaístico, a poesia e o teatro (com a esplêndida peça «O Corpo de Helena»). Tendo vivido os últimos anos na Turquia, PJM regressa agora com dois novos livros, os poemas de «O Tabaco de Deus» e a ficção «O Mal». Confirma-se no primeiro dos títulos o estatuto problemático da poesia de Miranda, que neste livro se revela uma decepção, incapaz de jogar com o estatuto de «exilado» de forma interessante, enquanto volta a encenar uma cansativa arrogância tributária de Jorge de Sena. «O Mal», pelo contrário, enquadra-se perfeitamente no ciclo de «novelas» que se iniciou com «Um Prego no Coração» (1998), a que se seguiram «Natureza Morta» (1998) e «Vício» (2001). Esta (por agora) tetralogia parte de um determinado momento da existência de criadores portugueses de oitocentos – Cesário Verde, Domingos Bontempo, Antero de Quental e Camilo Pessanha – para interrogar noções como as de talento, pátria e destino. São, nesse sentido, «ficções portuguesas», embora as influências literárias maiores sejam estrangeiras, particularmente alemãs. Até porque Paulo Miranda não usa o tema português para profissões de fé patrióticas ou formas nebulosas de saudosismo, iberismo e outras filosofias de recurso, antes critica, de forma aliás dolorida, a própria noção e situação da identidade nacional. Nalguns dos livros, por exemplo o primeiro, prevalecem as interrogações sobre a criação e sobre a natureza do artista; PJM acredita, de forma gloriosamente fora de moda, no génio, e tem do artista uma visão que, mesmo a contragosto, é de essência romântica, com todos os conflitos internos e os excessos daí decorrentes.&lt;br /&gt;«O Mal» não tem verdadeiramente uma narrativa, embora nos apresente as reflexões de um português que vive em Macau e que tenta escrever um ensaio sobre Camilo Pessanha (PJM esteve nesse território, com uma bolsa do ICM). É verdadeiramente o diário de um ensaio que não chega a ser escrito, e a sua proximidade com a biografia de Pessanha é menos intensa do que noutros livros deste ciclo, nomeadamente do que no anterior, «Vício». Sobre Macau, visitada aqui nos últimos momentos da administração portuguesa, a visão é crepuscular e desenganada: prevalecem as negociatas e a venalidade, as seitas, o desmanchar de feira, e os últimos vestígios de uma cultura – a portuguesa – em vias de desaparecer. Afinal, que sabemos nós dos chineses após tantos séculos de convivência? Não produzimos sinólogos, mas ensinamos os nossos poetas aos chineses, como se eles não os tivessem, e há milhares de anos. A colonização, defende Miranda ecoando algumas das teses defendidas em «O Labirinto da Saudade», foi uma fuga à exiguidade territorial, que é a nossa condição histórica. A descolonização, quer a atabalhoada quer a «planeada», corresponde a um regresso à realidade, aliás logo seguida de uma «fuga para a frente» chamada Europa, solução milagrosa para a nossa solidão. É curiosa esta quase unanimidade de gerações diferentes na «autognose de Portugal» que Eduardo Lourenço empreendeu e que encontra uma espécie de discípulo cínico em Miranda. Para este, com o fim do Império ruiu a ilusão de uma identidade, ao passo que Lourenço apenas falava do modo como se inflaccionou o mito para escapar à realidade. Para PJM, o falhanço dessa identidade colectiva está relacionado com o fracasso da própria identidade pessoal, tema que o drama de Antero lhe tinha permitido explanar, e que desenvolve neste livro.&lt;br /&gt;Camilo Pessanha era um homem marcado por uma «desvontade de viver» que só parcialmente pode ser atribuída ao males de amor. Paulo Miranda entende o seu exílio macaense como uma fuga para o fim do mundo, para um sítio que o próprio Pessanha chamava «o buraco», território onde, ao que parece, não escreveu nenhum poema (seria melhor dizer não compôs, dada a sua conhecida relutância em passar a escrito os versos). É evidente que nesta obra, como nas anteriores, PJM detecta todos os pontos comuns em termos de personalidade artística e pessoal com o autor glosado, fazendo de cada texto uma por vezes incomodativa autobiografia espiritual. Aqui é tematizado o «ódio ao mundo», mistura de tédio e desprezo que se adequa à lassidão macaense. Pessanha, diz PJM, foi para Macau «para odiar» e se escreveu pouco foi porque não amou o mundo. É mesmo tentado um paralelo (que me parece falhado) entre Pessanha e Pessoa, poetas «sem biografia» e que deliberadamente faziam mal a um corpo no qual não se sentiam bem, namorando assim a ideia de suicídio. O «mal de vivre» que é uma faceta regular das obras de Miranda acaba por ser um traço tardo-romântico de que o autor não se consegue libertar, e que se na ficção se alia com alguma felicidade a biografados conhecidos, na poesia aparece sempre com a sua carga de quase cabotinismo (Sena de novo). Diga-se, em abono da verdade e da literatura, que Paulo Miranda não adopta poses humanistas de Feira do Livro, e deixa claro que não gosta da Humanidade, que conceitos como a «arte» tanto o fascinam como o desgostam, e que reconhece muito mais facilmente a realidade do sexo do que do «amor». Nas relações com as mulheres, esta narrativa compraz-se numa visão quase pragmática (sexualmente) e perversa (intelectualmente). O «amor» parece ser um misto de ódio e mentira, para além de carnalidade, ajuste de contas, niilismo. Não é filosofia de prenda de Natal, mas sempre é melhor do que a filantropia das «boas pessoas». O autor é capaz de assumir uma postura de um enorme e sustentado snobismo intelectual, como quando diz que uma amante preferiu «vulgarizar-se, enveredar pelo talento», sendo certo que neste universo o «talento» só pode ser coisa de animal amestrado, e não o que é próprio de um artista. Nalguns momentos da narrativa, parece duvidoso que as relações com as mulheres sirvam ao protagonista como base hermenêutica legítima para o estudo de Pessanha, como nos quer fazer crer, mas essa talvez seja apenas mais uma das perversidade do texto.&lt;br /&gt;Vale a pena insistir na dimensão filosófica da obra de PJM. Digamos que aqui tudo se joga numa luta mortal entre o idealismo e o empirismo (os termos são do próprio autor). Platão e Leibniz são convocados pelo texto, mas mais importante do que isso é o conceito muito próprio de «mal», que se encontra entre os domínios do estético e do ético. É verdade que PJM defende que o artista se torna na obra e que, por exemplo, escrever, é uma perda de identidade, pela qual, aliás, o autor anseia. Mas perante o «montúrio moral» que é Macau, o projecto de um ensaio literário sobre um tema exterior acaba por se tornar um ensaio íntimo, com uma rede ficcional mínima, constantemente boicotada pelo estilo quase de repórter com que se refere a realidade política. A personagem desta ficção – e por extensão tanto Pessanha como Miranda – partem do desânimo existencial para uma atitude de recusa do mundo, o que passa, evidentemente, pela recusa do quotidiano, da prole, mas também pelo abandono de ficções consoladoras como a arte ou a moralidade. Macau é assim, como se disse, um cenário essencialmente moral, «o outro lado do mundo», claro, mas também um falhanço feito à medida portuguesa e que, por uma vez, não acaba em tragédia mas em comédia: brilhante o final, com o episódio dos quadros falsos dos governadores portugueses, descerrar do pano de uma farsa que pretendemos que «acabou bem».&lt;br /&gt;O regresso dos portugueses a Portugal tem nesta obra ao mesmo tempo um carácter literal e um evidente alcance metafórico, até porque se diz explicitamente que não há lugar de regresso, que «viver é sem regresso». Para parafrasear a quase insuportável e tão mal entendida frase pessoana, a única pátria que aqui é possível é a língua portuguesa, sobretudo porque foi a língua de, por exemplo, Camões ou Vieira. Além de que, como diz PJM desdenhosamente (já o dissera em «Natureza Morta») «Portugal já não existe». E assim, o protagonista já não acredita na língua e no seu futuro, como Pessanha ainda acreditava, porque a língua desaparecerá, não em Macau como em Portugal. O poeta da «Clepsidra», não obstante a profusa citação de poemas e de algumas cartas, acaba por ser menorizado no conjunto do texto, mau grado a decisão final do protagonista de «ser como Pessanha», para assim o compreender. «Vou a medo na aresta do futuro», dizia Pessanha, e assim o diz Paulo José Miranda, que não vê a luz em um país perdido.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3881353-86102771?l=realabsoluto.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3881353/posts/default/86102771'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3881353/posts/default/86102771'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://realabsoluto.blogspot.com/2002_12_01_archive.html#86102771' title=''/><author><name>Pedro Mexia</name><uri>http://www.blogger.com/profile/12661143521613281659</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3881353.post-85430009</id><published>2002-12-03T15:19:00.000Z</published><updated>2002-12-03T23:03:30.000Z</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;b&gt; O líquido teatro do pensamento&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Luís Quintais, «Angst», Cotovia, 80 págs.&lt;/b&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Luís Quintais é o melhor poeta da sua geração, na companhia de Rui Pires Cabral, Carlos Luís Bessa e, nalguns momentos, José Tolentino Mendonça. É autor de uma poesia de impressionante seriedade, no sentido de uma recusa total do que o autor chama «ludismo», isto é, da literatura para atrair quem não lê. Quintais escreve, sem dúvida, para quem já lê, porventura mesmo para quem escreve. O que o torna um autor de «happy few», certamente, inassimilável por aqueles que ainda conservam, no seu íntimo, saudades de uma poesia «acessível», «sincera», «sedutora», e outros epítetos tão discutíveis como enganadores. Nem todos os livros do autor, é certo, têm o mesmo nível, mas isso é normal para quem publica com uma certa regularidade (cinco livros desde 1996). Mas há sempre uma coerência estrutural, um apuramento de linguagem e uma elevação de propósitos que tornam Quintais vastamente superior a quase todos os seus contemporâneos.&lt;br /&gt;O novo volume de poemas, «Angst» tem, desde logo, um nome improvável para um livro de Luís Quintais, visto que o «medo» parece uma categoria excessivamente violenta e emocional para um poeta sóbrio e cerebral. Mas isso tem uma explicação. Logo nos primeiros poemas existe alguma intenção diríamos pedagógica: os filhos do autor aparecem como destinatários não apenas, como é evidente, de afecto, mas de «regras de viver» porventura impossíveis de transmitir. Um exemplo de poesia da simplicidade emocional, mas não da simplificação mental: «Serás a humílima árvore. / A árvore a tinta / da china desenhada. / A árvore de papel. / Serás a bétula / abstracta e concisa. / A bétula do Nepal. / A que não existe / senão na linguagem. / Serás a que sonha os dias, / as noites, as lembranças. / A que protege / da ira inclemente. / a que protege / do sopro do tempo. / A da sombra feliz» (pág. 14). Uma das características que se intui lendo os poemas de Luís Quintais é de que se trata de um poeta que não apenas lê poesia mas que lê sobre poesia, o que me arrisco a dizer que parece muito raro em alguns jovens poetas. Esse facto, aliás consentâneo com o estatuto académico de Quintais, faz da sua obra extremamente consciente não apenas da questão da arte poética (já quase um cliché), mas de uma série de questões filosóficas que precedem a poesia, se assim podemos dizer. A mais importante, ao menos neste livro, é a da inteligibilidade do mundo. O «mundo» é, nestes poemas, desde logo a natureza, como se comprova pelo uso recorrente de «árvores» e de «aves», de resto dois símbolos poéticos, e pela homenagem a Fiama, modelo de um conhecimento pela natureza; a compreensão da natureza, e do mundo em geral, passa, neste autor, pelo estatuto problemático da actividade básica que é «ver», um verbo também utilizado com frequência. Não é por isso de estranhar que o poeta retome, contrariando, a tese de Kundera, dizendo que a poesia deve ser feita contra a memória e não contra o esquecimento, essencialmente porque a memória ensina-nos muito pouco a lidar com a realidade, que de cada vez se apresenta como se fosse nova, e nós ignorantes. Claro que Quintais usa uma certa ironia amarga aqui, como quando diz que ao ver (cá está o verbo) a foto de um escritor, a sua atenção é atraída pelos livros ao fundo, mais do que pelo rosto e a posição do corpo. O que, aliás, não o impede de aproximar a poesia a aves debicando o lixo. Paradoxos sucessivos? Não tanto, uma vez que a complexidade do mundo passa necessariamente pela descontinuidade entre teoria e prática, vontade e facto: «Algures, ao longe, vejo a pequena árvore – a palmeira / dobrada pela força do vento (que me persegue desde / o princípio da palavra e que agora retomo) - // e a paisagem cerra-se de signos / que me despertam para a natureza perfeita das pedras, / vogais, vagarosas sílabas ou fronteiras entre objectos: // o firmamento é um poço de águas imperscrutáveis, / as vozes que se propagam na casa próxima / - uma comunidade de vozes - // sobrepõem, por instantes, som e segredo, / a perdida inteligibilidade. / O horizonte destrói o instável retrato do que lembro. // Uma lâmina expõe meticulosamente a anatomia da sombra. / Uma criança – o meu filho – aproxima-se e decreta o fim / de que esboçava o início» (pág. 27). O «medo» é aqui uma manifestação da incerteza, e a incerteza uma consequência de se estar vivo.&lt;br /&gt;Podemos falar nesta poesia de uma «observação especulativa», na medida em que nela se joga o equilíbrio entre a percepção e a conceptualização, sendo, no entanto, uma poesia indecisa, em aberto. «Avaros na felicidade, procuramos um episódio que justifique um verso», afirma o poeta, dando assim a entender que a própria relação entre «poesia» e «vida» pode ser perversa, embora haja nesta obra uma tranquilidade melancólica que dispensa poses e violências, verbais ou outras. É certo que há aqui uma visão extremamente pessimista da natureza humana, como no poema sobre o 11 de Setembro, modelar no modo como a realidade lhe serve para uma meditação e não, de todo, para retóricas em voz alta, sentimentalismo fácil, lucro com a miséria. Luís Quintais é antropólogo, e sabe bem o terreno movediço do que significa falar em «barbárie» e «civilização»; na verdade, o conceito que nos une todos fraternalmente é o de animalidade (o filósofo John Gray publicou recentemente um ensaio sobre esse tema). Assim, quando Quintais se refere às imagens lamentáveis da morte e captura de Jonas Savimbi, não está de modo nenhum a entrar em terrenos políticos, mas a lamentar a nossa condição, e sobretudo o espectáculo que dela fazemos: não é por acaso que o poeta anatemiza o «zapping», e deplora a sociedade debordiana a que chegámos.&lt;br /&gt;Claro que o poema sobre Savimbi – e aqui os dois veios agregam-se – é também uma mitologia privada, um poema sobre a infância em Angola, o eco do nome, e da voz, e dos feitos do guerrilheiro. Porque Quintais, não obstante a precaução acima referida, também é um poeta da memória, embora um poeta da memória que, paradoxalmente, professa um certo horror à confessionalidade, ou ao menos a uma confessionalidade de grau zero, não filtrada pelo pensamento. A natureza humana não pode suportar muita realidade, dizia o pássaro no poema de Eliot, que Quintais retoma, mas a realidade contamina-nos desde a infância, razão pela qual o poeta como pai se preocupa tanto com a transmissão da realidade aos seus filhos. Vejamos este poema, intitulado «1961»: «Trovoadas lá fora, o seu eco a oeste, / o mundo a abater. Em 61 fúrias extra-catálogo / agitavam, a floresta que ruía para // quem não escutara. O proscrito vinha, / sentencioso, apontar-te / o dedo do absurdo. Eras mito novo, // uma criança ainda. O afago dos adultos / um quase insulto. Punição / que descia em doce modo sobre a tua cabeça. // Um disfarce apenas. A astúcia da crueldade. // De tão  pouca idade, o anónimo destino pela frente, / entre anónimos, tu eras. // Temível a sua narrativa, o eu antecipavas / atrás de alguma porta ( literal, metafórica). / A floresta ruindo: “Aproximei-me do leito. // O clarão da trovoada lá fora, / como um metrónomo de luz a enfeitiçar / as janelas do quarto. // O corpo dela quieto, esperando. O corpo / dela liso e branco, de tempos a tempos / cortado prelo clarão que lhe vinha lamber // a pele.” Retomas a inodora ferida do sem sentido, / o flash sobre os joelhos, sobre os quadris, /  sobre o sexo, e há mais pesadelos no céu e na terra / do que os amputados sonhos que descreves» (pág. 76). É isso: a natureza humana não pode suportar muita realidade.&lt;br /&gt;Esta é uma poesia que põe em acção o que um poema chama, de forma muito bela, «o líquido teatro do pensamento». Um pensamento que é teatral porque necessariamente encenado nas nossas vidas e que é líquido como o mercúrio do termómetro partido, que não se deixa agarrar. Veja-se o modo como o poeta dialoga com os seus mestres, como por exemplo o checo Milosz, alguém que sabe bastante sobre as tragédias da vida colectiva na personalidade individual. Ou a maneira como cada meditação – por exemplo, sobre as dedicatórias rasuradas nos poemas daqueles que já foram nossos amigos – não aposta tanto no «pathos», mas tenta um entendimento sereno da existência, tentativa depois ironizada no título do volume. Ou mesmo o trabalho, invulgar, sobre o poema em prosa, espécie de parêntesis mental, espaço onde as ideias se espraiam de forma, porém, concentrada. Porque esta é uma poesia de ideias, e esse é sem dúvida a sua grande originalidade no panorama português.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3881353-85430009?l=realabsoluto.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3881353/posts/default/85430009'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3881353/posts/default/85430009'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://realabsoluto.blogspot.com/2002_12_01_archive.html#85430009' title=''/><author><name>Pedro Mexia</name><uri>http://www.blogger.com/profile/12661143521613281659</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3881353.post-85008089</id><published>2002-11-24T15:00:00.000Z</published><updated>2002-11-24T15:00:45.656Z</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;b&gt;A Jóia de África&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Francisco José Viegas, «Lourenço Marques», Asa, 208 págs.&lt;/b&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Francisco José Viegas escreveu o seu melhor romance. Podemos dizer que se trata do tipo de livro a que os ingleses chamam «page turner». É sobre África, e não está longe do espírito e da escrita de José Eduardo Agualusa, a quem aliás também não é estranho o imaginário por assim dizer «revisionista» desta obra. «Lourenço Marques», assim se intitula o romance, abre com epígrafes de dois dos maiores escritores vivos, Philip Roth e V. S. Naipaul; este último, na sua última obra de ficção, «Half a Life», mostrou curiosamente alguma simpatia pela dignidade crepuscular dos colonos portugueses. O romance começa como um policial, o que não é estranho num autor que se propôs, na linha de Vasquez Montalban, usar o policial como plataforma de várias incursões literárias e modos de escrita. Mas o morto que encontramos logo na primeira página, um antigo capitão da Frelimo misteriosamente assassinado, terá uma importância algo marginal na narrativa, embora seja de certa maneira uma das suas chaves (não vamos desvendar mais). A sinopse é simples: um português, Miguel, que viveu em Moçambique até 1973 (era ainda adolescente), regressa a Maputo, antiga Lourenço Marques, supostamente para procurar Maria de Lurdes, uma antiga paixão que não vê faz muitos anos. Em busca dessa mulher atravessa Moçambique, e acaba por revisitar um país de que só tem memórias remotas mas felizes.&lt;br /&gt;Vale a pena referir o que, logo pelo título, seria de prever: Francisco José Viegas aborda o passado africano português sem complexos coloniais, até porque nem sequer se trata de uma história autobiográfica. Nascido em 1962, FJV pertence a uma geração que tem mostrado que não submete a literatura à ideologia, como as gerações anteriores, e provavelmente nenhum autor mais velho poderia ter escrito este romance. É verdade que a presença da guerra de África é uma constante na ficção portuguesa dos últimos trinta anos: basta pensar em Lobo Antunes, Lídia Jorge, Carlos Vale Ferraz, e tantos outros, aliás bem estudados por Rui de Azevedo Teixeira em vários ensaios. Do lado dos portugueses «vencidos», temos um relato em «Os Dias do Fim», de Ricardo Saavedra, que se detém nos acontecimentos do 7 de Setembro. Mas não há praticamente literatura sobre a África pós-independências escrita por portugueses. «Lourenço Marques»  é também isso: um português que escreve sobre a África que foi Portugal, e que escreve do ponto de vista (ficcional) de quem tem boas recordações de África, de quem viveu África como um paraíso. O clima já está suficientemente distendido para não ser preciso dizer que se trata de um romance «corajoso», mas, ainda assim, é uma novidade.&lt;br /&gt;Francisco José Viegas mostra neste romance que todos os paraísos são paraísos perdidos, e é o estarem perdidos que lhes empresta essa dimensão quase irreal. Miguel procura uma mulher, e descobre um país. Claro que este não é o país que abandonou: é um território que passou por uma guerra com um milhão de mortos, uma guerra que deixou pelas estradas carcaças de comboios e blindados, de minas, é uma capital degradada cheia de bandos de miúdos pobres, cheia de crime e corrupção, é uma terra africana que tem bizarrias como uma Avenida Friederich Engels. É curioso como um livro que resulta de memórias em segunda mão (livros, relatos, investigação histórica e jornalística) transmite de modo tão vívido a impressão do vivido. Não se trata apenas do vocabulário africano, de um conhecimento credível da fauna e da flora, dos efeitos do clima e das doenças; é sobretudo a evocação de Lourenço Marques, a cidade das acácias no seu período de apogeu. Trechos inteiros do livro são evocações da antiga «Pérola do Índico», das vivendas, das avenidas largas, das tardes na varanda, das palmeiras, da piscina do Hotel Polana, do Liceu Salazar, dos cinemas, do Clube Naval, do Rádio Clube de Moçambique. Um cidade, em suma, que já não existe. Nostalgia? Porque não, se houve quem fosse feliz em África, sem que por isso fosse um colonialista desprezível? Às vezes, é certo, essas listas são excessivas, ao ponto de parecerem artificiais: boîtes, restaurantes, cafés, o Sporting de Lourenço Marques e o seu plantel, António Livramento, Jorge Jardim, Baltazar Rebelo de Sousa, tornées de artistas da metrópole, a «Crónica Feminina», canções de Percy Sledge, muito cinema, de Rita Hayworth a Madalena Iglésias, e assim por diante. É como que um daqueles inventários surrealistas, inventário aliás tornado surrealista pelos anos que passaram, mas por vezes também poético, com certas associações quase proustianas. É a viagem a um mundo perdido, que por vezes lembra a espantosa sequência da plantação francesa em «Apocalipse Now Redux». Há que sublinhar que Moçambique representou o ponto mais civilizado e cosmopolita da colonização portuguesa, como atestam Eugénio Lisboa ou Rui Knopfli (este justamente homenageado no romance), ao ponto de, na narrativa, uma passagem por Luanda ser inequivocamente menorizada. E esses «glory days» africanos, mesmo sendo um «pecado colonial», continuam obsessivamente na memória de muitos. FJV não ignora os males portugueses, pondo na boca dos moçambicanos por exemplo o paternalismo e a cegueira histórica, mas são esses mesmos moçambicanos – baseados certamente em pessoas reais- que exclamam um sentido «foda-se o socialismo», até porque esse socialismo «africano» nunca foi africano, mas um enxerto artificial. Viegas sabe, aliás, analisar com rigor e subtileza as relações entre brancos e pretos ao longo das décadas, e também não se coíbe de criticar, por interposta personagem, certa literatura africana das «raízes» que faz do exotismo e do contorcionismo ortográfico uma receita e, em última análise, um produto turístico.&lt;br /&gt;Ao longo de todo o livro, a escrita é impecável, sem trivialidades mas também sem os maneirismos de quem quer fazer «grande literatura», escrita fortemente apoiada em diálogos verosímeis ou em monólogos, em discretos saltos diegéticos, com um clima de tristeza branda que leva à criação de personagens extraordinárias, como o médico português a viver os seus últimos anos no Niassa. Agora que a televisão exibe uma novela que, como explicou Eduardo Cintra Torres, eliminou o tabu da nostalgia africana (que não é necessariamente o mesmo que a nostalgia colonial), já é possível escrever o «I had a farm in Africa» com que se inicia o famoso livro de Karen Blixen, e o filme nele inspirado. Moçambique é «a jóia de África» mas também «o país dos outros» (Knopfli de novo). Quem viveu em África, passada a raiva e as lágrimas, ou as lágrimas e a raiva, sabe que nem todas as suas experiências pessoais se resumem a esse cliché que é a «opressão colonial». Aliás, FJV transmite também a vivência de quem se viu «retornado» (outro tema pouco tratado na ficção portuguesa), passando por exemplo de uma vasta fazenda para uma cidade acanhada e suja, esses que tudo perderam, forçados a regressar, a começar de novo, e que tiveram de se adaptar a coisas simples mas estranhas, como um clima com quatro estações.&lt;br /&gt;Para quem regressa, Moçambique já não é Moçambique, Lourenço Marques («grande nome», diz-se a certa altura) já não se chama assim, nem Porto Amélia, só a baía continua a mesma, o Niassa continua o mesmo Lago com maiúscula, a luz a mesma luz, e as chuvas tropicais ainda inclementes. Lourenço Marques acabou, é um nome na memória, como esse estribilho que Miguel lembra repetidamente na voz do pai: «vamos para Portugal», logo corrigido por «para a Metrópole» ou ainda um desanimado mas quase conformado «isto acabou». E Miguel lembra-se de tudo, como um clarão, a última vez que viu a cidade, o avião na curva fatal da despedida (cena que vai reviver no fim do livro). O português nem sabe se procura Maria de Lurdes ou Lourenço Marques (para os lacanianos: M.L. ou L.M.). Só encontra vagas pistas, traços, miragens. O que persegue, o amor ou uma época?. Viagem pela memória dividida, viagem para, como se diz, matar saudades. No fim, fica um mistério a pairar, uma suspeita, um segredo. «Lourenço Marques» é um romance sobre o passado que não volta, que não se repete, sobre um mundo novo que já nada tem a ver com o mundo antigo. A certa altura diz-se que o Império, verdadeiramente, foi a embaixada ao Papa no reinado de D. Manuel. Ironia sobre o tão precário «esplendor de Portugal» e sobre a História, que por vezes engole, sem piedade, a frágil existência dos seus súbditos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3881353-85008089?l=realabsoluto.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3881353/posts/default/85008089'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3881353/posts/default/85008089'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://realabsoluto.blogspot.com/2002_11_01_archive.html#85008089' title=''/><author><name>Pedro Mexia</name><uri>http://www.blogger.com/profile/12661143521613281659</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3881353.post-84446962</id><published>2002-11-13T01:37:00.000Z</published><updated>2002-11-13T01:37:59.573Z</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;br /&gt;Poesia&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;b&gt;Memento&lt;/b&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;b&gt;Gastão Cruz, &lt;i&gt;Rua de Portugal&lt;/i&gt;, Assírio e Alvim, 88 págs.&lt;/b&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Gastão Cruz publicou em 1999 os seus &lt;i&gt;Poemas Reunidos &lt;/i&gt;na colecção, então iniciada, da D. Quixote, irrepreensível em termos de catálogo e de utilidade, embora discutível graficamente. Não era a primeira vez que o poeta recolhia total ou parcialmente a sua produção, numa obra que se caracteriza precisamente pela periódica revisitação. Infelizmente, Gastão decidiu manter no volume boa parte dos poemas dos primeiros livros, publicados na casa dos vinte, e que na sua maioria têm um interesse meramente histórico, marcados como são por uma aridez no limite do suportável. A poesia de G.C. tornou-se manifestamente mais interessante a partir, digamos, de &lt;i&gt;As Aves &lt;/i&gt;(1969), onde a impenetrabilidade estéril é matizada por uma característica emergente, que é a glosa de poetas clássicos ou consagrados, por vezes quase em jeito de palimpsesto. Há também um muito subterrâneo romantismo, que G.C. confessou numa arte poética publicada no «Jornal de Letras», artigo no qual reconhecia que tentava mascarar essa tendência, que aliás não tem sido apontada pela crítica. A poesia de Gastão, de grande apuro formal, consiste em textos geralmente curtos, quase sempre sem pontuação (mas com um uso original das maiúsculas), com uma sintaxe exigente mas absolutamente com sentido, ao contrário de outros poetas que usam e abusam da ausência de pontuação e de sentido gramatical, recursos que só devem ser utilizados por quem os domine bem. A escolha precisa de imagens, extremamente conseguida, embora sempre toldada por alguma estranheza, tornam esta poesia uma das mais importantes do nosso panorama. O mesmo não se pode dizer da sua faceta de crítico de G.C.: a republicação, em 1999, da sua &lt;i&gt;A Poesia Portuguesa Hoje&lt;/i&gt;, foi um acto de pura provocação; o título, quase trinta anos depois, está desajustado, e parece que nas últimas décadas só houve um poeta relevante em Portugal: Luís Miguel Nava. Por alguma razão Gastão defende a obra crítica de Ruy Belo, que é geralmente desinteressante. Mas o crítico não destronava o poeta, e um livro de transição, &lt;i&gt;Crateras&lt;/i&gt; (2000), ganhou mesmo o Prémio D. Diniz, da Casa de Mateus, aliás um dos mais sensatos do nosso panorama. Creio que não se tratava ainda de um  livro plenamente conseguido, mas do começo de um ciclo, como podemos agora comprovar.&lt;br /&gt;Em grande parte, &lt;i&gt;Rua de Portugal&lt;/i&gt; confirma uma mudança, que parece aliás marca (positiva) desta geração. O começo do livro é pouco prometedor, uma série de retratos, quer no sentido literal quer figurado, que remetem para a recordação e a perda, ao mesmo tempo que o fazem de forma muito física, como se fossem sentidos no próprio corpo. Isso é expresso através de uma bem urdida «rede silábica» (uma expressão Gastão Cruz «vintage») O tom é frio, e há alguns poemas mais fracos, como os de tema «informático», com metáforas falhadas. Melhor é o erotismo velado, a referência a um poema de Cesariny ou a presença do mar, que prenuncia a secção seguinte. Seguem-se poemas que vêem na linha de &lt;i&gt;Crateras&lt;/i&gt;, que tentava alguma mudança personalizando mais o discurso, embora com o autobiografismo estritamente vigiado, como é óbvio. Esta &lt;i&gt;Rua de Portugal &lt;/i&gt;é uma rua da infância, e todo este conjunto gira em torno dessa infância, da menção explícita aos pais e à avó, de todo «o cenário incendiário da família». São poemas de Faro (lembremos que o Algarve também nos deu poetas como Ramos Rosa ou Nuno Júdice) e há assim uma série de elementos que identificam o local, como a cor branca, a alfarrobeira, a ria, por vezes apenas lugares e cenas relembradas, o café, a livraria, o despertar da sexualidade É curioso como neles se misturam a «água salgada» e a «água doce» de que fala um dos poemas, não no sentido de estarmos perante memórias divididas, mas sobretudo porque a própria passagem dos anos torna toda a revisitação um misto de alegria e penitência. Como no poema que dá título ao livro: «Já não existe a casa / vinte o / número / da trémula muralha térrea / defensora / duma pátria começando / quase sem luz / no céu com o sentido que lhe davam / sombras fixas / Para lá / do tecto indefinido a / luz criava como / uma onda / a casa sobre o mar» (pág. 27). Há um certo calor humano ausente de quase tudo o que Gastão publicou até hoje, uma presença do «real» (palavra explicitamente utilizada) que desmente as suas opiniões demasiado ortodoxas contra o «vivido» em poesia. Uma sucinta arte poética explica: «Na poesia procuro uma casa onde o eco / existe sem o grito que todavia o gera» (pág. 27), um bom resumo do posicionamento teórico do autor. Mesmo em termos formais isso tem a sua consubstanciação, como numa série de poemas rimados, quase em jeito de quadras populares (que obviamente não são) a que chama «canções», designação que tem tradição na sua poesia, pelo menos desde a tradução de alguns dos poemas de Blake. O verão, como cálida presença existencial, e o sonho, como promessa e confusão, são temas recorrentes e pontos de ligação para outros poemas. O poeta diz « (...) temo/ perder o verão / como se fosse um dia apenas» (pág. 45).&lt;br /&gt;Se os poemas anteriores relembram, como se disse, &lt;i&gt;Crateras&lt;/i&gt;, então os da terceira secção remetem para aquele que é talvez o melhor livro de G.C., o fabulosamente elegíaco &lt;i&gt;As Pedras Negras&lt;/i&gt; (1995); também aqui se trata de morte, não apenas da lembrança dos mortos, mas de uma meditação sobre o seu carácter irremediável. Como noutros momentos da obra de Gastão há um lamento pelo número crescente dos mortos: «Demasiados mortos para a / minha memória / O dia está aí um projector nos rostos / que repetem / cenas, deslocando-se entre os móveis / polidos pelos anos e as árvores, com falas retardadas / Não há quem sobreviva a ninguém no cenário / são somente aparências o que está / e o que falta, / todos em cada um, / enquanto ausentes o habitam como casa / em tempo alheio / Deixastes toda a esperança vós que entrastes / na memória» (pág. 61). Note-se a brilhante variação dantesca dos versos finais. Aliás, por falar em inferno, vejamos como num dístico o poeta diz tudo o que é preciso: «Inadmissível mundo mas só nele / será feliz o corpo que uma luz de inferno reproduz» (pág. 54). Também existe aqui um jogo interessante entre o sono e a morte (o sono e o sonho são recorrentes na obra de G.C.), bem como a ideia de que «o tempo» e «a vida» são conceitos autónomos, dolorosamente autónomos.&lt;br /&gt;Mas os melhores poemas do livro são porventura os finais, da parte intitulada «A norma da desordem», que mais uma vez ecoa um título anterior, neste caso &lt;i&gt;As Leis do Caos&lt;/i&gt;, volume de 1990. Num outro exemplo de perfeição arquitectónica, aqui continuamos o tema da morte, embora não da morte passada, mas do seu espectro. Vários dos poemas abrem com epígrafes retiradas de poemas de Fiama Hasse Pais Brandão, uma das grandes escritoras portuguesas, com quem G.C. teve laços pessoais e poéticos. Fiama, que publicou há três anos aquele que me parece ser um dos livros essenciais da poesia portuguesa contemporânea, «Cenas Vivas», ficou entretanto extremamente doente, sendo infelizmente possível dizer que encerrou a sua obra (as Quasi ainda publicaram uma série de poemas que ficaram fora do livro citado, e que teve o título &lt;i&gt;As Fábulas&lt;/i&gt; (2001). Os poemas são ao mesmo tempo uma homenagem a Fiama, uma variação sobre alguns dos seus motivos, uma evocação biográfica, e um lamento. Veja-se este soneto de soberbo recorte clássico: «Que quis dizer viver usar os ávidos / sentidos sem abrigo ante o insecto mártir / ou o vívido abeto que dirige / para dentro da casa o seu destino? // Que quis dizer temer no penhasco ou nos dias / a posição de ver com o rosto inclinado / sobre um verão que vinhas? E por fim chagaria / tépido e transparente e pararia // Que quis dizer dizer que a manhã era o nome / de quem o nome da manhã dizia / cedendo ansiosamente à insónia do abeto / ainda antes do martírio? // Quando a noite enche a boca o dito e o / temido são o mesmo ruído» (pág. 70). Gastão sabe que «fazer versos» nesta circunstância é inútil, mas que pode um poeta fazer senão versos? É interessante o modo como Gastão, sabendo que está em território perigoso, põe as coisas em termos da morte das palavras, ou da linguagem, sendo que a morte da pessoa (morte social, ao menos) não diz respeito ao leitor. Ele sabe que as «palavras não são pátria de / ninguém», ecoando assim um tema glosado por alguns poetas modernos, a poesia como insuficiente instrumento de salvação. A presença do «nada» é fantasmagórica, não tanto numa dimensão ateia mas essencialmente numa consciência, que o poeta sempre tem de forma mais intensa, da falta. Tudo isto é duplamente filtrado, tanto em termos de referente como de linguagem. Veja-se por exemplo o cuidado com que os poemas abordam a doença, como nesse terrível «frente a frente» entre os dois sujeitos, ambos criaturas mudadas: « (...) Frente a frente é exacto o que mudou / o que vejo diante do que sou / o que ti és perante o que não sabes (...) Estás diante de mim mudaste tanto / que não mudaste (...)» (pág. 74). Ou neste: «Mora no corpo ainda a errante / linguagem? / A língua do abismo / só os olhos a falam // Ouço pra que respondas Rouco / o ouvido / rígido resiste E a pátria de palavras / é um mar destruindo a pele vítrea // Palavras são apenas a muda magra boca / Morre a pátria no corpo / Osso / de não ouvir tão rouco» (pág. 67). Há ainda uma chama ténue, um murmúrio, um mover de olhos que ligam Fiama ao mundo – tão equivoco – dos «vivos», mas há sobretudo uma espécie de aura que advém de uma revisitação de motivos da natureza, que tanto marcaram grande parte da poesia da autora de &lt;i&gt;Epístolas e Memorandos&lt;/i&gt;; árvores e pássaros são como que a celebração muda de uma poesia decisiva, e estes poemas são realmente belíssimos (e o autor desta recensão não é, pessoal e poeticamente, neutral em relação a Fiama). De tal modo que a litania que termina o livro quase se diria escrito por David Mourão- Ferreira, aparentemente um autor de outro universo, de tal forma se expõe um «pathos» que no entanto é absolutamente controlado pela precisão poética. Por essa intensidade e esse rigor, bem como pela capacidade de reinvenção que o autor demonstra, &lt;i&gt;Rua de Portugal&lt;/i&gt; é um livro muito recomendável.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3881353-84446962?l=realabsoluto.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3881353/posts/default/84446962'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3881353/posts/default/84446962'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://realabsoluto.blogspot.com/2002_11_01_archive.html#84446962' title=''/><author><name>Pedro Mexia</name><uri>http://www.blogger.com/profile/12661143521613281659</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3881353.post-83959325</id><published>2002-11-03T15:39:00.000Z</published><updated>2002-11-03T15:39:40.760Z</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;br /&gt;&lt;b&gt;Trevas e relâmpagos&lt;/b&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;b&gt;Luís Miguel Nava, «Poesia Completa 1979-1994», prefácio de Fernando Pinto de Amaral, organização e posfácio de Gastão Cruz, D. Quixote, 292 págs.&lt;/b&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Há, evidentemente, um paradoxo trágico que assombra o nome de Luís Miguel Nava (1957-1995): sendo o último – isto é, o mais novo - dos consagrados, no entanto já não está entre o número dos vivos, barbaramente assassinado que foi, há quase uma década, em Bruxelas. Refira-se, aliás, que não é caso único, acompanhado que está de Daniel Faria, também prematuramente falecido, mas ainda menos divulgado no mundo das letras. A obra de Nava é como que o encerramento da geração de 70 com chave de 60, quer dizer, está claramente na confluência problemática entre uma poesia de sinal hermético e alguma aproximação, sobretudo nos primeiros livros, a uma abertura ao real (e valia a pena analisar o exacto significado e os modos do «real» na poesia de Nava). Talvez por causa dessa genealogia «impura» tenha sido elogiado sobretudo por poetas mais velhos, e não tenha tido grandes consequências na poesia dos novos autores, com a excepção de José Ricardo Nunes, em tom no entanto mais ameno. A obra de Nava já tinha sido objecto de uma recolha ainda em vida do autor (&lt;i&gt;Poemas&lt;/i&gt;, 1987), que não incluía, portanto, os dois últimos livros, &lt;i&gt;O Céu Sobre as Entranhas&lt;/i&gt; (1989) e &lt;i&gt;Vulcão&lt;/i&gt; (1994). Este volume da D. Quixote, organizado pelo seu incansável defensor Gastão Cruz, traz assim, como o título indica, a &lt;i&gt;Poesia Completa&lt;/i&gt; do autor, escrita entre 1979 e 1995 (além dos livros individuais, há também alguns inéditos).&lt;br /&gt;A primeira e evidente ideia a sublinhar no que a esta poesia diz respeito é a sua violência. Violência metafórica, imagética, vocabular e também existencial. O mundo de L.M. Nava – porque se trata de um universo próprio – é dos mais glaucos jamais produzidos pela poesia portuguesa, pelo que se apresenta como uma viagem que não é para todos, como nunca é a melhor poesia. Se nos primeiros livros – sobretudo &lt;i&gt;Películas&lt;/i&gt; (1979)e &lt;i&gt;Rebentação&lt;/i&gt; (1984), essa mundividência ainda é, por assim dizer, respirável, nos dois últimos títulos o sufoco é crescente, ao ponto de não sabermos o que poderia vir a seguir, caso o poeta tivesse vivido mais anos. Pessoalmente, julgo que o Nava inicial é muito mais interessante e produtivo, afirmando desde logo as suas marcas, o seu território poético, algumas das características quase inalteradas que vamos encontrar ao longo de quinze anos de poesia. «A pele serve de céu ao coração», explica o poeta, e julgo que é essa possibilidade assim enunciada que torna os primeiros poemas de Nava uma plataforma extremamente interessante de tráfico geracional, sendo no entanto estritamente pessoal. Vejamos a correspondência entre uma «Ars erotica» (pág. 43) e uma «Ars poetica» (pág. 44): «Eu amo assim: com as mãos, os intestinos. Onde ver deita folhas»; «O mar, no seu lugar por um relâmpago». Uma novidade quase sem antecedentes, portanto, embora possamos imaginar um Eugénio dilacerado e menos solar. É uma obra aberta a uma conciliação de várias coordenadas da moderna poesia portuguesa, que não necessita de abdicar daquilo a que, bem ou mal, se chama o «rigor», nem de abandonar o que mesmo na literatura possa ser o «vivido». É curioso como existe, antes da vertigem negra, uma componente quase epifânica em Nava, quer na sua vertente erótica (a presença constante de um «rapaz», na verdade várias encarnações transitórias de uma peregrinação amorosa), quer na puro acto poético nomeado com precisão pelo «relâmpago» (vale a pena lembrar que a revista da Fundação Luís Miguel Nava se chama precisamente &lt;i&gt;Relâmpago&lt;/i&gt;, e é a melhor e mais regular das actuais revistas portuguesas de poesia). Nestes poemas, Eros está muitas vezes associado ao mar, com a sua imponderabilidade e imensidão, mas também a um lado referencial quase sórdido, se bem que evocado com ternura: a «Feira Popular» ou o «Guincho». Um exemplo: «Talvez seja melhor não nos voltarmos / a ver, ao mínimo clarão / das mãos a pele se desavém com a memória. / As mãos são de qualquer corpo a coroa. // Das dele já nem sequer o itinerário / sei hoje muito bem, onde o horizonte / se desata o mar agora / regressa ao coração de que faz parte. // Ainda é o mar contudo o que se vê / florir onde ele chegar. Chamando a esse / rapaz rebentação, / o céu rasga-se à volta dos seus ombros» (pág. 88). Ou, umas páginas à frente: «O mar, venho ver-lhe a pele a rebentar / ao longo das falésias, o que sempre / me traz a exaltação desses rapazes que circulam / por Lisboa no verão. / O mar está-lhes na pele. Partilho / com eles os quartos das pensões, sentindo as ondas / a avançar entre os lençóis. Perco-me à vista / da pedra onde o mar vem largar a pele» (pág. 95). Há uma série de vocábulos significativos, de um lado, «pele», «mar», «rapaz», isto é, as «entranhas», do outro «espelho» ou «memória», o trabalho mental sobre as sensações. Nem sempre essas relações são explicitadas, embora num poema se diga que o coração é a roldana do poço que desce na memória, isto é, há sempre uma chave pessoal, mesmo se oculta, nestes versos. «(...) arde a pele de que a memória / vem lentamente tomar conta. (...) O que chamávamos / verão são poços através / dos quais se some a pele pela memória dentro» (pág. 87). Quer as experiências biográficas, e sobretudo sensoriais, quer a sua transmutação em metáfora poética são momentos privilegiados de apreensão e fruição do mundo, mundo esse que se está marcado pela transitoriedade e pela incerteza, não deixa de proporcionar momentos plenos ao sujeito, embora essa plenitude dure o momento estrito do seu acontecer. Mais do que perante um poeta do corpo, estamos perante um poeta da pele e da carne, isto é, de tudo o que no corpo é superfície e interioridade, mas também sopro e visceralidade. É claro que já aqui espreita uma componente brutal desta poesia, que se declina num vocabulário exaustivo de «veias», «gengivas», «sangue», «feridas», mas também «vísceras», «fezes», «infecção», «intestinos», algumas delas palavras certamente bizarras para a maioria dos poetas, não apenas por realidades mais «impróprias» que designam, mas sobretudo como cristalizações de uma radicalidade poucas vezes ensaiada na nossa literatura. Outro vocábulo significativo é «rasgão», que obviamente remete tanto para a exterioridade mais física como para a interioridade mais dilacerada. Por outro lado, e como se tornou quase constante na nossa poesia das últimas décadas, o poema é repetidamente tematizado, não apenas como arte poética mas, por exemplo, como sistema de correspondências entre a página e o corpo, por exemplo, ou entre a pele e a memória. Aliás, bastam versos como «a pele é o espelho da memória» ou «está alguém ao poema como a um espelho» para perceber como, nesta obra, há uma noção de que a memória é a realidade de que o poema é reflexo, e não a «vida», enquanto tal; é essa distanciação face ao biografismo, que tem sido (e bem) reivindicada pelos admiradores de Nava, que subjaz a esta poética, que paradoxalmente também é uma poética do (omnipresente) «coração», mas um coração que é «escarpado, alcantilado», «em carne viva».&lt;br /&gt;Há momentos menos conseguidos, é claro, como o livro &lt;i&gt;A Inércia da Deserção&lt;/i&gt; (1981), de influência al bertiana e que por isso sugere um paralelo sumamente enganoso (Al Berto era um poeta muito mais irregular e por vezes arbitrário). Segue-se &lt;i&gt;Como Alguém Disse&lt;/i&gt; (1982), mais um conjunto de textos onde o poeta vive pelos poros, é sôfrego, obsessivo. Já «Rebentação» é, como ficou exposto, um livro na esteira de &lt;i&gt;Películas&lt;/i&gt;, retomando também o poema em prosa, uma das experiências mais conseguidas da obra de Nava, que é aliás uma poesia mais formal do que à primeira vista possa parecer. A tonalidade é semelhante: «Às vezes, entranhando-me num espelho, consigo dar nele duas ou três braçadas sucessivas» (pág. 113). Nava é um poeta do corpo, mas não apenas do corpo na sua dimensão sexual, antes de toda a corporalidade, nem sempre de fácil convivência. «Ficávamos no quarto até anoitecer, ao conseguirmos / situar num mesmo poema o coração e a pele quase / podíamos / erguer entre eles uma parede e abrir / depois caminho à água. // Quem pelo seu sorriso então se aventurasse achar-se-ia / de súbito em profundas minas, a memória / das suas mais longínquas galerias / extrai aquilo de que é feito o coração. // Ficávamos no quarto, onde por vezes / o mar vinha irromper. É sem dúvida em dias de maior / paixão que pelo coração se chega à pele. / Não há então entre eles nenhum desnível» (pág. 124). Num mesmo poema (pág. 128) o autor alinha «coração», «memória», «sangue» e «mar», como se se tratasse de uma súmula, e noutro vai mesmo ao ponto de se considerar «torcido para dentro da memória», uma imagem forte mas que, no que tem de intensamente doloroso, exprime bem o ambiente emocional destes poemas.&lt;br /&gt;Como se disse, a angústia e a inquietação adensam-se a partir de &lt;i&gt;O Céu sob as Entranhas&lt;/i&gt;. Há, como o autor confessa, uma série de «distorções» neste livro, mas apenas porque a própria visão vê tudo de forma distorcida. É assim com a incomodativa metáfora que Nava encontra – a roupa dentro da pele – mas também com todo o universo de estranheza que por vezes parece saído das páginas demenciais de um &lt;i&gt;Naked Lunch&lt;/i&gt;. A realidade está aberta, é um sulco feito por um arado que assume diversas formas, a realidade já não é o espelho mas a parede atrás do espelho, e tudo funciona assim de forma obscura e ameaçadora. Se aparecem referências biográficas (Viseu, a infância), o certo é que a identidade está estilhaçada, o sujeito não é senão um «embrulho de memória» preso na insónia, na escuridão, na massa informe dos seus medos e dos seus nervos. Nava acumula textos que são como que parábolas negras, nem sempre evidentes, feitas no mesmo passo de confusão e de uma ocasional «abrupta transparência dos sentidos». Como este: «Dancei num matadouro, como se o sangue de todos os animais que à minha volta pendiam degolados fosse o meu. Dancei até que em mim houvesse espaço para um poema de que todas as imagens depois fossem desertando. // A luz que desse sangue irradiava, como se nele o sol tivesse mergulhado e os raios nele se houvessem diluído, atravessava-me os poros e fazia-me cantar o coração. Tratava-se de uma luz que nada tinha a ver com a piedade ou a esperança, mas cuja música, sem me passar pelos ouvidos, ia direita ao coração, que no dos animais acabados de abater por momentos encontrava um espelho ainda quente, tão diverso da algidez que habitualmente neles impera (...) (pág. 181). O poeta, que por vezes admite que o «eu» seja o seu último reduto – uma afirmação paradoxal? -, noutros momentos chega a confessar que é um seu duplo aquele que escreve, o que não é dito para justificar um alheamento do biografismo mas sim para reforçar o clima quase esquizofrénico de alguns poemas. Existe, é certo, uma notória aridez em certos textos, da qual Nava tem consciência, mas essa aridez é apresentada como reflexo fiel de um estado de espírito, o que, se não resolve os problemas, pelo menos os enquadra. Mais uma vez, a memória é um tema habilmente tratado, como no poema em que se sugere que o rio transforma tudo por ponde passa, para depois se transformar, ele próprio, em memória.&lt;br /&gt;O volume final, &lt;i&gt;Vulcão&lt;/i&gt;, foi o livro menos estimado dos que Nava publicou, o que Gastão Cruz atribui, no posfácio, ao seu negrume. Embora se trate, efectivamente, de uma jornada ao coração das trevas, julgo que é redutor ver aí o maior problema. «Vulcão», não obstante ser um livro altissimamente invulgar, é por vezes quase insuportável do ponto de vista estritamente literário. O título de um poema, «Um Prego na Gengiva», capta bem, numa imagem cruel, toda a imagética violenta, mórbida, do livro, mas também, e sobretudo, um ambiente que, mesmo que não tenha sido essa a intenção do autor, respira um certo auto-comprazimento nessa morbidez. Claro que haverá sempre a tentação de ler «Vulcão» como obra «testamentária», não apenas por ser a última, mas por nela se respirar algo de «pasoliniano»: uma espécie de niilismo que é já arauto da extinção; mas o que mais importa é distinguir nestes poemas os sinais de um «mal de vivre» insustentável, uma espécie de existencialismo negro, onde já não é o (domesticável) «desespero» que predomina mas sim uma metafísica negativa, imanente, que, em última análise, faz coincidir existência com inexistência. O sofrimento, que é sempre um sofrimento da carne, é de uma grande dureza e de uma insistência verdadeiramente agreste, faz equivaler céu e poço, é «um deserto a abrir noutro deserto». Neste livro, as «entranhas» são curiosamente dissecadas de forma extremamente cerebral, em poemas em prosa de tendência narrativa e hermética, tantas vezes numa fórmula próxima da parábola. &lt;i&gt;Vulcão&lt;/i&gt; é, assim, um livro de «uma irradiação simbólica, magnética», mas essencialmente, diria, um livro de terror, como poucos haverá na nossa língua. É uma leitura desagradável, só para incondicionais de Nava, e parece-me que será sempre uma poesia fechada, sem saída nem fecundidade, mesmo se extremamente interessante de um ponto de vista intelectual: «Cravava cuidadosamente um prego na parede, quando pressentiu que, como água dum cano que se rompesse, o futuro poderia jorrar de súbito na cal, uma substancia na aparência cristalina mas em cujo seio as formas do presente se diluiriam todas, como se, com os seus contornos, igualmente se perdesse o seu sentido, e um sol que por um impressionante acidente cronológico se deslocasse, por pouco que fosse, do presente para o futuro, se esvaziasse então no céu, deixando atrás de si uma cicatriz imensa» (pág. 235). A certa altura, damos com a palavra «crateras», e parece óbvio que foi Gastão Cruz, porventura o mais glauco dos nosso poetas actuais, que quis de certo modo prolongar esta fase final da poesia de Nava, num caso curioso de uma «angústia de influência» também cheia de eternos retornos.&lt;br /&gt;Os inéditos (quatro) respiram a mesma sensação de sufoco, como em «Um céu de funcionários», um poema de Bruxelas, e noutros que se avizinham de universos perturbados ou malsãos como os de Hervé Guibert e de Bernard Maria Koltés. Mas a imagem do poema final acaba por nos dar uma conclusão inesperada para a poesia de Luís Miguel Nava: há um rio que é apenas uma cortina, e por trás desse corre outro rio. Nenhuma teologia, evidentemente, mas apenas a ideia (salvadora?) de que a poesia, quando é poesia, tem zonas que desconhece, e que a cada um de nós leitores é dada a oportunidade de, no momento certo, fazer luz, mesmo que negra, sobre um poema ou sobre toda uma obra. Como se fosse um relâmpago.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3881353-83959325?l=realabsoluto.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3881353/posts/default/83959325'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3881353/posts/default/83959325'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://realabsoluto.blogspot.com/2002_11_01_archive.html#83959325' title=''/><author><name>Pedro Mexia</name><uri>http://www.blogger.com/profile/12661143521613281659</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3881353.post-83593873</id><published>2002-10-27T15:03:00.000Z</published><updated>2002-10-27T15:04:18.000Z</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;br /&gt;&lt;b&gt;Antes do gesto&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;José Ricardo Nunes, «Novas Razões», Gótica, 76 págs.&lt;/b&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sobre José Ricardo Nunes já tivemos oportunidade de escrever nestas páginas que é um crítico confirmado e um poeta em afirmação. Como crítico, hábil no «close reading» sem ser enfadonho, remetemos para textos publicados na «Colóquio / Letras», no «Ciberkiosk», na LER e na «Relâmpago», bem como para a sua tese de mestrado «Um Corpo Escrevente. A Poesia de Luiza Neto Jorge» (2000) e o recentíssimo «9 Poetas para o Século XXI» (2002). Quanto à poesia, depois do minimal «Rua 31 de Janeiro» (1998) e de «Na Linha Divisória» (2000, Prémio Eugénio de Andrade), JRN edita agora «Novas Razões», que colige poemas escritos entre 1997 e 2001. A poesia de José Ricardo Nunes, até pela sua componente académica e crítica, parece naturalmente inclinada para a arte poética, como se não existisse texto antes de enunciados os seus modos, estratégias e possibilidades. Por isso, a primeira parte de «Novas Razões» é exclusivamente dedicada a essa pesquisa. A primeira certeza, e uma asserção de base, é a descrença na inspiração, temática aliás comum nos jovens autores: «Nunca oiço aquela voz / que vem das pedras ou do mar , / dos rostos ou do vento que reparte a luz. Não a oiço, / sequer em plena solidão (...) Não a oiço, é a  minha voz / que dita os versos (pág. 11). O que não significa que o poeta não esteja «sujeito» à poesia, mesmo se crê que é ele mesmo um «sujeito» (este jogo verbal é em si mesmo, claro, da ordem do poético). Além do mais, a poesia é decomposta como ritual, oficina ou, metaforicamente, como quarto escuro, trincheira. O poeta, esse, é menos que uma criança na sua relação com a língua, feita de erros, de invenções, de uma intensa componente lúdica, até porque as crianças, como se lembra ironicamente, «levam tudo à boca». Não deixa de ser curioso que desta linguagem se diga também que não nos pertence, uma vez escrita, e que seja capaz de nos tocar tão intimamente que por vezes «acode ao coração» e outras vezes seja preciso queimar. É pois a procura de uma linguagem onde algo acontece, para parafrasear um poema, o que se pode cristalizar neste fórmula: «um verso é antes de um gesto». Nesta frase, «antes» significa ao mesmo tempo «em vez de» e «anterior a», sendo portanto uma reformulação do binómio literatura/vida, que está mais no centro desta poética do que à primeira vista possa parecer.&lt;br /&gt;Os poemas subsequentes do livro descem dessa parte mais teórica para uma espécie de aplicação concreta, mas de uma forma decididamente não linear; mesmo porque uma figura essencial nesta poesia é a elipse, saltos no discurso e na narração que não derivam tanto de uma vontade hermética mas de uma tentativa de fugir ao evidente, tanto mais quanto estamos sempre do domínio do poema curto. O corpo é, desde logo, uma presença nestes poemas, com a violência aprendida em Luís Miguel Nava, aqui totalmente metafórica («rasgar», «lâmpadas»); mas essa não parece ser a veia mais interessante desta obra. Melhor é o modo indirecto como se joga com referências biográficas e com memórias, quer pessoais (a filha pequena, a morte do pai) quer geográficas, sem que fiquemos a saber muito mais, uma estratégia indirecta levada à perfeição por outro jovem poeta que se remeteu, ao que parece, ao silêncio: Rui Pires Cabral. Vejamos dois poemas que são como um só e que demonstram o funcionamento de toda esta poesia. O primeiro, chama-se, cruel e ironicamente, «O Meu Futuro»: «O grelhador enferrujou / e teve o seu prémio: vasos / com as roseiras pegadas há dois anos. / Este é o pátio da minha mãe: / botijas de gás, / uma torradeira velha em cima do termo-acumulador, / a fita enrolada à volta dos estores. / O cimento denuncia os canos / mudados no Verão. Voltar / aqui, (pág. 61). Note-se como o poema acaba com uma vírgula, tornando mais terrível a enumeração. Quase no mesmo tom é o poema seguinte, onde uma vez mais se diz tudo sem dizer quase nada: « Sei que morreu vai para quatro anos. / Secretárias antigas, / montes de roupa, / camas desmontadas, / coisas velhas / são agora as ocupantes do pequeno anexo. / Oiço ao longe o relógio da igreja. / Baixo o interruptor e entro. / Afasto da cara a pegajosa teia de aranha. / Cheira a bafio» (pág. 62). O mesmo se diga de «Dezassete», sobre a terrível ideia de que nos habituamos ao sofrimento. Há um evidente pudor, uma dialéctica entre os «ossos» e as raízes», uma aspereza da realidade, uma crueldade inexorável do tempo e da mortalidade e uma postulação da necessidade da rotina que, a par do estilo, não tornam a poesia de José Ricardo Nunes sedutora. Na verdade, o poeta evita todos os truques da sedução, que tantos resultados produz nalguma poesia do passado e do presente (pensem em quem quiserem). É, em vez disso, uma poesia adulta e rigorosa, talvez demasiado «crítica», arriscando a pontual aridez, mas sempre cuidadosa com estes violentos engenhos que se sabem, e são, feitos de palavras.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3881353-83593873?l=realabsoluto.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3881353/posts/default/83593873'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3881353/posts/default/83593873'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://realabsoluto.blogspot.com/2002_10_01_archive.html#83593873' title=''/><author><name>Pedro Mexia</name><uri>http://www.blogger.com/profile/12661143521613281659</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3881353.post-83425118</id><published>2002-10-23T21:34:00.000Z</published><updated>2002-10-24T02:31:12.000Z</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;br /&gt;&lt;b&gt;O belo e a consolação&lt;/b&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;b&gt;António Osório, «Libertação da Peste», Gótica, 120 págs.&lt;/b&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;António Osório é um autor sumamente consagrado, no sentido mais intrínseco e menos mundano do termo. Vale a pena começar por afirmar essa evidente realidade, pois só assim se poderá compreender por inteiro algumas das características da sua poesia mais recente. Mais desligado de uma vertente subjectiva e biografista, Osório dedica-se a tratar a poesia como um tema, mas não no sentido estafado da filosofia do «poema», antes como matéria primitiva e essencial da qual pouco sabemos e muito precisamos. Só um consagrado pode abandonar assim gloriosamente as trivialidades, mesmo se sublimes, do quotidiano pessoal para prestar atenção, e atenção minuciosa, ao que constitui o cerne de uma arte poética. «Libertação da Peste», o último livro de António Osório, é o primeiro original publicado desde «Crónica da Fortuna» (1997), porque entretanto o autor tem publicado antologias, livros revistos e os dois primeiros volumes da imprescindível «Obra Poética». Podemos dizer que este novo título se apresenta como uma continuação do volume de há cinco anos, embora não na sua totalidade. «Crónica da Fortuna» era, no essencial, uma tentativa de cruzar a poesia com o poema em prosa, e de incutir neste uma vertente narrativa, como que a revelar uma vocação secreta de contista. Boa parte do novo livro é constituída por esses textos depurados e generosos que, entre outros méritos, ensinam a muitos prosadores portugueses como se escreve prosa. São histórias com uma grande componente biográfica, embora pouco autobiográfica. Cada texto apresenta uma personagem, encontrada nas mais variadas situações da vida, e que em geral encerra um drama humano, bem como a fragilidade da sua exposição. São por vezes elementos marginais da sociedade, como acontecia com os bruxos e intrujões de «Crónica da Fortuna», mas no essencial são pessoas simples com problemas comuns, e que precisam de quem os ouça e ajude. Um pobre insistente, um avarento, um engraxador que conta a sua história, um padre a ler os versinhos sinceros que escreveu, mas também uma gata que é como gente, ou a espantosa odisseia de uns pavões que o poeta teve na sua quinta, o que nos lembra que Osório é um amigo dos animais e um ecologista confesso, para além de um humanista, realmente chocado com o sofrimento e apostado nalguma beleza que atenue esse sofrimento. Lamentando «a espantosa indiferença das pessoas pelas aflição dos outros», o poeta é esse «santo» (porque se fala explicitamente em «santidade», embora de forma irónica) que está com os que sofrem e lhes tenta levar a consolação, o que faz desta galeria de personagens uma espécie de «Legenda Áurea» ao contrário, ou talvez uma «Legenda Áurea» pura e simplesmente. A limpidez da prosa (que só é «poética» no mais puro e menos «kitsch» dos sentidos) torna estes textos um género híbrido, uma experiência totalmente ganha pelo autor, e à qual visivelmente se afeiçoou, em prejuízo da quantidade e mesmo por vezes da importância dos poemas em verso, o que, por outro lado, é pena.&lt;br /&gt;A outra componente do livro - que aliás não se divide da primeira, antes se mesclam uma na outra – corresponde mais propriamente ao que atrás se chamou poesia de consagração. Trata-se, simplesmente, de uma investigação sobre a essência da poesia, não apenas através de uma revisitação dos clássicos greco-latinos, mas dando voz às formas «primitivas» de poesia, desde a literatura africana até à tradição oral portuguesa. O que é curioso nestes textos é desde logo o seu género, entre o ensaio, a recolha e a tradução. Quanto a este último aspecto, as traduções deste livro bem se podem incluir na esteira do que Herberto Helder fez com os seus belamente intitulados «poemas mudados para português». Este tipo de versão contorna a ignorância da língua original, pelo menos em grande parte dos casos, para, a partir de versões em línguas acessíveis, transformar o texto em poema português, assinalando assim a universalidade do poético. O que é curioso é que se Herberto pertence, sem hesitações, a essa poesia dos «primitivos», que vê na poesia uma espécie de magia, António Osório vem de outra família poética, a dos poetas «burgueses», e parece por isso estranho a este universo. Puro engano: nestas viagens comentadas pelos mais diversos mundos poéticos, dos Navajos aos indonésios, passando pelos esquimós, aparece toda a meticulosidade que conhecemos na poesia de Osório, que se por um lado faz seus os poemas, com o seu cunho próprio, por outro também se preocupa em citar, em nota, as edições utilizadas, como que revelando um trabalho de etnólogo, aliás com evidente empatia por esses povos, particularmente os que foram vítimas de abusos ou mesmo de genocídio. Porque para Osório, «poetas andam nas nuvens, são párias tolos e atónitos (pág. 42), e isso faz com todas as poesias sejam, afinal, uma só, como proclamou uma famosa revista literária portuguesa.&lt;br /&gt;Na segunda parte de «Libertação da Peste», ainda outro universo: o dos epitáfios gregos. Os gregos e os romanos não tinham cemitérios, e dispunham as campas ao longo dos caminhos, sendo assim as inscrições tumulares lidas por quem passava. Cultivavam um estilo literário que Osório define como sendo directo, conciso, sem ênfase e com simplicidade, afinal como a própria poesia do autor. Escritos por notáveis e por anónimos para celebrar anónimos e notáveis, estes versos têm um enorme poder emocional, e uma aura que advém em parte de muitos serem fragmentários, como as próprias lápides que nem sempre resistem aos séculos. E com os mortos, regressam os poetas, esses que sempre tentam vencer a lei da morte. Há nesta poesia, e nas traduções que o poeta delas apresenta, uma concepção quase religiosa da poesia, a poesia como uma prece ou um ritual. A figura tutelar do livro é Orfeu, cuja cabeça, diz o mito, foi preciso enterrar para libertar da peste que alastrava (a cabeça, incólume, cantava). Mas Orfeu existiu? Escreveu poemas? Ou não será uma figura mítica, tal como Homero, uma personificação do «milagre grego», por um lado, e da poesia, por outro? «Aquele que cura pela luz», segundo a etimologia fenícia, e «aquele que atravessou a escuridão da noite» de acordo com o grego, Orfeu é, em suma, o que desceu aos infernos em busca da sua Eurídice e que quase dominou a morte. Figura assim exemplar do poder da poesia, e por isso motivo de inspiração para alguns dos maiores artistas, de Píndaro a Yourcenar, passando por Brueghel, Gluck, Rodin, Cocteau, e tantos outros.&lt;br /&gt;Particularmente importante neste livro é um outro texto, sobre Eugenio Montale, autor decisivo para esta poesia, e praticamente desconhecido em Portugal. Osório traduz alguns poemas do italiano, sobretudo os magníficos poemas finais, e em particular do «Diário Póstumo», que serve para analisar a intensa devoção do escritor pelas mulheres. É pena que Osório não se disponha a uma antologia da poesia de Montale, ou dos poetas italianos contemporâneos, tarefa para a qual seria o melhor, diria o único, tradutor, tanto mais que essa intenção, tida porém como difícil, é mesmo mencionada no texto. Em Osório a tradução é também uma prova de generosidade, como diz de Montale, fazendo cintilar aquela que era para o Nobel de 1975 «a mais discreta das artes». Essa evocação termina com uma bela viagem a Itália, para o poeta português ver o túmulo do italiano, nas imediações de Florença. Mas há também visitas à Magna Grécia, ao teatro onde se representava Ésquilo, há invocações, envios, homenagens, textos e poemas sobre Cecília Meireles, António Sérgio, Júlio Resende, o «David» de Miguel Ângelo, mas também o testemunho primitivo do vale do Côa, ou ainda a «dívida» à musica clássica e à pintura italiana (vista, uma vez mais, «in loco»). Sem esquecer um comovido roteiro por Lisboa e seus arredores, com o pretexto da visita de um amigo estrangeiro, texto que constitui um exemplo quase «demodé» de um amor ao país em que se nasceu, não por razões patrióticas mas por razões estéticas.&lt;br /&gt;«Libertação da Peste» é, por tudo isto, um livro sobre o belo e a consolação, sobre a poesia como «palavra cósmica» (expressão de Croce), sobre a concepção do poeta que é grande porque grande é a poesia. Um livro para guardar na estante entre Rilke e Sophia de Mello Breyner.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3881353-83425118?l=realabsoluto.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3881353/posts/default/83425118'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3881353/posts/default/83425118'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://realabsoluto.blogspot.com/2002_10_01_archive.html#83425118' title=''/><author><name>Pedro Mexia</name><uri>http://www.blogger.com/profile/12661143521613281659</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry></feed>
